Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2008

Pablo Neruda

Neruda, por acaso,
detestava os livros.
Daí que os deixava,
em casa, sem nunca os abrir

E, saindo à rua,
que é onde a vida começa,
só parava à beira-mar

E, à beira-mar,
esquecendo que é na estreita
vereda entre o umbigo e o ânus
que os paraísos começam e findam,
Neruda enlaça a mulher,
pelo nome (que assim
ela cabe melhor no poema)

E, sem que de lábios,
mamas e coxas
ele faça menção,
nem ao licor
com que a mulher
embriaga, antes do sono,
o poeta navega e dorme

Arménio Vieira

Mudjeris

“A mulher saiu da fila, deu uma volta e, aproximando-se de outro empregado, fez nova tentativa.
- Veja se Domingas Lopes tem carta.
Nova procura nos cacifos e nova negativa:
- Não, Domingas Lopes não tem carta.
Ela saiu com ar desconfiado e resmungão:
- Ter, tenho a certeza que tenho carta... Eles é que não ma querem dar.
E lá se foi, caminho de casa, impertubável na sua fé."

Destaco o trecho acima (sublinhado meu), parte de uma crónica publicada em Agosto de 1955 no jornal Cabo Verde por Maria Helena Spencer, a primeira jornalista cabo-verdiana (falecida no ano passado). Celebrar o dia da mulher cabo-verdiana é também ter a capacidade de aceitar, ainda que criticamente, a história, e assumir as referências que ela nos legou. Acredito que seja essa a tentativa da compilação que a professora Ondina Ferreira lança hoje na Biblioteca Nacional, assinalando o dia da mulher cabo-verdiana. “Elas Contam” é o título do livro que cruza épocas e mostra o cabo verde feminino em bocados, por fases, …

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Neruda

Cinema e cinema

Falemos d´«Orquestra da Piazza Vittorio », um filme documental do realizador italiano Agostinho Ferrente (2006). Assisti ao filme, e a outras tantas dezenas no Festival Internacional de Cinema de Alba, em Itália. Acresce a isso, um debate sobre o trabalho com o realizador. O filme conta com entrevistas e outros apanhados, o percurso da criação de uma orquestra, num distrito de Roma, composta por músicos desconhecidos de várias culturas e línguas. Os 4 anos que Mário Tronco, compositor e pianista, levou para criar a orquestra são recheados de flashes da vida dos próprios «músicos»/personagens que hoje fazem parte da orquestra. O interessante, a meu ver, foi o caminho percorrido por entre linguas e culturas, tendo a música como guia. O que poderia ser uma babel, acabou numa sinfonia...O proprio realizador que provavelmente se surpreendeu com o efeito (a criação efectiva de uma orquestra) afirmou que caso isso não tivesse sido possível, concluiria ser impossível organizar uma orquestra e…