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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2008

Vietname

Mulher, como te chamas ? - Não sei.
Quando nasceste, tua origem ? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra ? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida ? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular ? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás ? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia ? - Não sei.
E estas crianças, são tuas ? - Sim.

Wislawa Szymborska

Viva o Povo Brasileiro

Com grande regozijo soube que o escritor brasileiro, autor da célebre “Viva o Povo Brasileiro”, João Ubaldo Ribeiro, foi o vencedor da 20ª Edição do Prémio Camões. Regozijo, porque tudo se dá num momento crucial para o reposicionamento do Brasil na linha cimeira da CPLP e da promoção da Língua Portuguesa no mundo. Regozijo porque gosto do escritor: aprecio os seus escritos, a sua vida simples, o seu olhar realista sobre o quotidiano da sua região, as culturas, as pessoas. Ele costuma usar uns calções e chinelas e, mesmo a entrevistas, comparece com esse traje digno de um ilhéu que é. Esta é apenas uma pincelada simbólica a respeito desse grande nome da literatura lusófona. Um breve bio: JUR nasceu em 1941, e depois de muitas andanças regressou à sua Ilha Itaparica, nas cercanias de Salvador, de onde voltou a partir. Hoje vive no Rio. Por gostar de João Ubaldo Ribeiro, por considerar a sua Bahia também minha por razões que a razão não explica, estou feliz com o Prémio que o escritor só…

Edvard Grieg: Dança da Anitra, de Peer Gynt

Estou perdido entre uma sombra
e uma amendoeira,
mas estar perdido não significa
não conhecer a beleza do que passa
no instante em que passas
ou estar mais próximo da desolação
neste vestígio antiquíssimo da desolação.

A sombra de que falo
vem de um lugar onde o coração
está próximo,
de um lugar onde a inocência pulsa ainda
sob a terra,
de um lugar onde os lábios pronunciam
a subtileza de um nome
com o teu nome.

Porque tu és essa ave
que o vento reconhece e agita
o coração,
a árvore branca e poderosa
a que os pássaros regressam,
a árvore que cintila na escuridão
e pelo subtil estremecimento da noite é o último refúgio
de quem se encontra perdido
entre a sombra de uma amendoeira
com o teu nome,
algures no mundo,
neste vestígio antiquíssimo da desolação.

Poema de Amadeu Baptista, vencedor do XVI "Prémio Espiral Maior"

O significado

“… o sorriso amável trocado entre um homem e uma mulher significa o fim de qualquer paixão. As pessoas que se desejam são muito sérias.”

Assis Brasil, in: O Pintor de Retratos

A Língua Portuguesa e o Brasil

Ontem, no post anterior, limitei-me a anunciar e a enquadrar a afirmação do Ministro da Cultura de Portugal de que Cabo Verde estaria mais bem posicionado que o Brasil para contribuir na expansão da língua portuguesa no mundo. Fi-lo por uma questão de fidelidade ao discurso alheio, ainda que o Ministro não tenha demonstrado esforço algum para sustentar afirmação tão controversa. Dizer apenas que o ensino em Cabo Verde é eficaz não é suficiente.

Vale dizer que o grande desafio educativo de Cabo Verde é a Qualidade. Falta-nos, depois de grandes conquistas neste sector, o Salto de Qualidade. E um dos nossos condicionalismos é a diglossia entre o Português e o Crioulo, a alienar o Bilinguismo Cabo-verdiano.

Considerando sempre o esforço nacional no sentido da expansão e da qualificação do ensino, tenhamos sempre em vista o caso de uma potência como o Brasil, eu diria, o país que se perfila na linha da frente para a potenciação da língua portuguesa no mundo. De resto, os pobres e os ricos br…

Pontos de vista

"Amo a língua portuguesa [...]. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida".

Clarice Lispector


Assistia, ontem, ao programa Câmara Clara da RTP sobre a Língua Portuguesa com o Ministro da cultura de Portugal. O programa cativa pelo frescor da jornalista, pelo interesse sempre em alta dos temas, e, sobretudo, pela sua diversidade.

Nessa edição, o que chamou a minha atenção, foi o Ministro a referenciar Cabo Verde como um país que pode jogar um papel fundamental na divulgação da Língua portuguesa no mundo. Nesta posição estaria o Brasil, segundo as estimativas da jornalista, devido ao número da sua população, mas o Ministro advoga que aquele pais da America do Sul ainda não pode desempenhar esse papel na promoção da língua portuguesa porque “tem problemas sérios”. “O Brasil ainda tem ricos e pobres, um analfabetismo muito grande”, diz.

Segundo aquele governante português, os professores cabo-verdianos podem se…

O auto-retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

Mário Quintana

Amazónia (entre a ficção e a realidade)

"Durante um debate, numa universidade dos Estados Unidos, o "então" Ministro da Educação do Brasil, Cristovam Buarque, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência em alguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros)." Leia extractos da sua resposta.

"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos …

La Strada do Cinema

Tive a ventura de participar do Festival Internacional de Cinema de Alba, a convite do Padre Octávio Fasano, missionário capuchinho. O Festival difere dos outros, não pela temática que tende a generalista, mas pelo conteúdo que centra no Humanismo. Este ano, a figura central era o cineasta canadiano Paul Haggis, (foto nº1) igualmente guionista vencedor de dois Óscares, um pela escrita de "Million Dollar Baby" e outro por "Crash". Durante o Festival, a coqueluche fora "No Vale do Elah", seu mais recente trabalho.

Em conversa com Paul Haggis, apercebi-me da enorme dimensão humana do cineasta e o porquê de ser estrela cintilante na constelação dos maiorais da Sétima Arte. Paradoxalmente, Haggis, durante toda a entrevista, dissimulava a sua complexidade com uma misteriosa simplicidade. Uma dissimulação que chegava ao "charme discreto", diga-se de passagem.

Não sei se "No Vale do Elah" é sua obra-prima. Trata-se aqui de um outro prisma, de um…