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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2008

Da memória, dos rituais, dos sons aos livros… em 2008

1. Um dos projectos mais pendentes de que tenho memória em Cabo Verde foi o Museu Municipal de S. Filipe, daí, também, o seu ineditismo. A restauração do sobrado di nha Francisquinha (nome popular), a recolha dos objectos etnográficos e a efectivação do protocolo entre a Câmara Municipal de S. Filipe e a Câmara Municipal de Palmela (Portugal) duraram 12 anos. Finalmente, o espaço foi inaugurado no passado dia 13 de Dezembro, e a partir de meados de Janeiro de 2009 estará aberto ao público das 10H à 15H, e das 17H às 20H. De recordar que o Museu situa-se mesmo ao lado da Casa da Memória, outro espaço etnográfico de grande servidão aos turistas e estudantes na Ilha do Fogo. Expectativa: que o Museu da Cidade receba muitos turistas e curiosos e trabalhe em sintonia com a Casa da Memória.

2. Os momentos tristes também podem ser grandes, pela simbologia que carregam. No ano 2008 faleceu na Cidade da Praia, Francisco Fontes. O decano das bandeiras da Ilha do Fogo. Nhô Mulato, como era conhec…

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come,se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para gan…

Aquele abraço

Partilho contigo as palavras do meu querido amigo Gondim, e "te dedico", a ti que acompanha este blog. Adopta esta foto e Festas Felizes.

O crioulo: da diversidade à oficialização

Até hoje me lembro da expressão de estranheza de uma prima badia,
quando ouviu, pela primeira vez, de mim a palavra "karabon" na variante do crioulo do Fogo: carvão em português, e "karvon" ou "karbon" na variante de Santiago. E de forma recorrente ocorrem-me palavras absolutamente típicas, senão "endógenas", que evidenciam a peculiaridade do crioulo falado no Fogo. Mário Fonseca disse há dias, numa mesa informal, que o crioulo do Fogo é tão duro, a ponto de os foguenses optarem por falar português, mormente em locais públicos, como forma de esquivar a essa "dureza". Não concordei e nem concordo com tal afirmação, mas admito que tenhamos saídas absolutamente únicas no nosso crioulo. Há dias na zona de Ponta Verde, no Fogo, ouvi com satisfação a palavra "paranpôbu" (parasita) e ocorre-me aqui "djongôtô" (de cócoras). O geógrafo José Maria Semedo escreveu que a Ilha do Fogo é uma extensão rural de Santiago, e é uma ten…

O bilinguismo adiado

Depois de uma entrevista à linguista Dulce Almada, em Cabo Verde por estes dias, ocorreu-me escrever umas linhas sobre um argumento muito utilizado pela ala contra a oficialização do crioulo. Dizem alguns que a assumpção do crioulo passa pelo seu uso nos médiuns considerados de prestígio: na administração, nas escolas, nos tribunais, etc., e que o exemplo deveria vir dos defensores da oficialização do cabo-verdiano, ou seja, que os defensores da oficialização deviam apenas falar e escrever em crioulo.
Há falácias a desmontar nesta ideia. Antes de mais, é importante dizer que os defensores da oficialização do crioulo não almejam o desaparecimento do português, mas sim, tratamento paritário para as duas línguas veiculares em Cabo-Verde.
O que essa mesma ala parece não querer perceber é o trabalho partilhado por todos para se chegar ao desiderato da oficialização. Ninguém questiona a "superioridade veicular" da língua portuguesa face ao crioulo, devido ao seu uso preferencial nas…

Personalidade do ano

A revista norte-americana Time escolheu o Presidente eleito norte-americano Barack Obama como Personalidade do Ano 2008, na sua já tradicional escolha anual da pessoa que mais influenciou o mundo. “Ele atingiu a América como um trovão, revirou as nossas políticas, destruiu décadas de sabedoria convencional e destronou séculos de ordem social estabelecida”, refere um longo artigo publicado pela revista.

fonte: público.pt

Nós (destes tempos)

Nestes tempos
os estrangeiros
(aqueles que
investem nas nossas almas
e na sua incólume morabeza
na sua fiável amorabilidade
na sua fatal cordialidade
e nos amamentam
com a sua chuva colorida
metálica e cosmopolita)
disputam-nos
e aos pétreos adão e eva do pico de antónio
a génese da ilha e do banho baptismal nestas plagas
e declaram-se primogénitos
e legítimos donos da distância
que vai da ourela do mar
ao cume do monte mais alto
e do suor que a história
durante tantos séculos
fez escorrer nestas ilhas
e agora nus edénicos e hedónicos
(quase adâmicos)
se transfiguram
em corpos bronzeados
dourando-se sob o sol
e os límpidos céus do sahel insular



Cá vamos pois
badius e sampadjudos
todos muito kuls na preservação
das indispensáveis e urbanas rivalidades tribais
sem todavia, assevera o plástico mito,
descurar a híbrida e pan-arquipelágica
descendência de pós-coloniais sampadius
e o também híbrido harém de poetusas
docemente engajadas com a sensualidade
dos corpos bronzeados e emancipados
terra-longinquamente comprometidas …

Do crioulo aos radicais árabes

1. Terminou, ontem, na Cidade da Praia, o fórum sobre a língua cabo-verdiana que juntou linguistas fundadores do ALUPEC (Alfabeto Unificado para a escrita do cabo-verdiano), professores e escritores usuários do crioulo. Sabe-se que a meta deste momento é a instrumentalização da língua cabo-verdiana no sentido da sua assumpção efectiva (nas escolas, repartições, comunicação social) e posterior oficialização. Nessa linha, o fórum trabalhou sobre os avanços e os problemas encontrados na aplicação do ALUPEC. A variante a adoptar virá naturalmente, e já faltou mais. Para já, uma notícia se impõe, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, adoptou-se o ensino do crioulo de Cabo Verde (vide o nº de cabo-verdianos residente na América).

2. Assistindo ontem ao Telejornal da RTP chamou-me atenção o número de reportagens em áreas diversas dando conta das consequências da crise que assola a economia mundial: Instituições de caridade que recebem menos donativos, casos de vandalismo que aumenta…

Nobas di Djarfogo

1. São Filipe ganhou nos últimos tempos novos points de lazer e comércio turísticos, o que emprestou mais vida à cidade, e contribuiu ligeiramente para o virar da página do angustiante silêncio daquelas ladeiras. No interior, as pessoas estão mais contentes com o resultado da boa azágua, e nada mais contagiante do que alegria de camponês.

2. A cidade ganhou finalmente (depois de um projecto de 12 anos) o seu Museu Municipal (no sobrado da foto). Um espaço que pretende apresentar as particularidades históricas, ambientais e culturais da Ilha do Fogo. Segundo a museóloga que trabalhou na sua instalação, o Museu Municipal de S. Filipe vai ser complementar à Casa da Memória, e não tem a pretensão de substituir as valências deste espaço, o que é muito bom. A equipa criou este blog onde pretende detalhar sobre as temáticas de abordagem do Museu.

3. "Bom doc", a nova provocação da já incontornável Cá Dja´r Fogopara projectar o novo ciclo 2009. "Expor o relacionamento entre o art…

Os nós da solidão

II

Dantes havia os colonos
que alvos e algarvios
defronte das estátuas
e demais monumentos
de aquém e além-mar
bebiam sequiosos
o suco da cana
o sumo da terra
a espuma do mar
e raivosos
nos mandavam recolher
o bagaço sacarino
e as vértebras de outros restos
e em sarcasmo gregário
se reluziam ao sol
e seduziam a nua
e tisnada virgindade
dos subúrbios

II

Séculos depois
ainda alvos e algarvios
sob uma lua muito redonda
muito mais gregários e raivosos
do que dantes
por mor das colunas de fumo
que dos monumentos
se despenhavam
e despedaçavam o mar
por mor das efígies de bronze
que das penedias da cidade tombavam
os colonos
e os seus próceres islenhos
os colonos
e os seus rebentos indígenas
atravessaram o mar
velejando um ódio ainda mais amargo
e cada vez mais absentista

III

E ficámos sós
cogitando sobre os nós da solidão
e da nossa possível essência negra

E ficamos sós
reverberando ansiosos
os signos da desolação
ante o sibilino assobiar
dos alísios sobre os montes
e o oceano de todos os dias
e a sua inútil ondulação
vazia de veleiros e …

Dias que ficam...

1. “Existe uma relação intensa entre Cabo Verde e o Brasil que se dá via Fortaleza, mas o Brasil, pelo menos, não sabe disso. Temos que fazer alguma coisa para inverter esse quadro.” Foi mais ou menos esta ideia que o director da TV Cultura, o nomeado jornalista Paulo Markun, me passou numa reunião que tivemos naquela que é, sem margens para dúvida, a TV que produz melhores conteúdos no Brasil. Essa ideia ainda embrionária pertence a uma realidade futura, mas com pernas para andar.

2. 1º Seminário de Estudos cabo-verdianos

É importante perceber que a ideia de Markun, apesar de tudo, não está longe do presente se atentarmos àquilo que acaba de acontecer na Universidade de São Paulo: O primeiro Seminário Internacional de Estudos Cabo-verdianos sob o sugestivo lema Contra Vento Pedra-a-Pedra em homenagem ao poeta Luis Romano, cabo-verdiano residente no Brasil há largos anos. Foram quatro dias (25 a 28 de Novembro) de conferências e debates centrados na literatura, e que incluiu mostras de …