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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2009

Perdemo-lo aos 50 anos

In memoria (momentos, Abril 2008)

Já circula pelo mundo uma edição de luxo CD/DVD do Thriller de Michael Jackson, para comemorar os 25 anos daquele que foi um marco na produção de videoclips. Pela primeira vez um realizador, em 1983, desenhou um enredo para um clip de televisão. Só a partir desse lançamento, é que músicos e produtores do mundo todo começaram a se preocupar em ter pequenas histórias narrando as músicas. Antes, não se tinha essa inclinação narrativa e estética da canção na tela. Para muitos, Thriller tem muito de cinema, uma curta-metragem autêntica. Para recordar aqui

Esta foi apenas uma das tantas inovações protagonizadas por Michael Jackson na sua lendária passagem por este mundo.

Por via do cinema

O escultor belga Renzo Martens (foto) que é também realizador de cinema considera a imagem da pobreza em África um produto de exportação, assim como o é o petróleo, o couro, o café, etc... Uma estrutura que gera milhões de dólares que beneficiam a muitos, menos aos pobres que são os verdadeiros donos dessa “riqueza”. Martens falava a propósito do seu filme Episode III: Enjoy Poverty, (parte de uma tríade) um documentário rodado, durante dois anos, no Congo que trata da especulação da imagem da pobreza em África, (Menção honrosa do Alba Film Festival 2009).

Este Sábado, depois da telenovela Duas Caras, acompanhe a fala de Martens e outras opiniões substantivas sobre o cinema, na Televisão de Cabo Verde.

O melodrama (ontem e hoje); a beleza no cinema: da palavra à imagem, num cheiro do que foi o Festival de Cinema de Alba, (Itália 2009) com Marco Ponti (Realizador), Bruno Fornara(Director artístico do festival) e MaurizioPorro (Crítico de cinema). Um festival de cinema que se (nos) protej…

Liberdade

Este animal
que trago no peito, por dentro, acocorado
remordendo o silêncio
- como salalés roendo o barro –
perfurando as sombras com os seus olhos grandes
Escavando sulcos no silêncio,
Acocorado. Este animal que trago nervoso
no peito
retesando os músculos, pronto para saltar
este animal que no estreito
silêncio de mim se agita
e abre a enorme boca pronto para gritar.

Este animal que em mim se move
em mim habita
este animal que ninguém poderá jamais domesticar.

José Eduardo Águalusa

Cidade Velha: maravilha ou património mundial?

O concurso As Sete maravilhas de origem portuguesa no mundo, heroicamente promovido por algumas Instituições lusas, incomodou a muitos nos Países de Língua Oficial Portuguesa, menos em Cabo Verde.

Por cá, o que se viu, depois da eleição de Cidade Velha, e como se tudo não bastasse, vieram as autoridades a congratularem-se com a votação, e a considerarem, inclusive, que esta neo (apropriação) irá ajudar na candidatura de Cidade Velha. Como se a decisão da UNESCO já não estivesse tomada, para o bem ou para o mal.

De concreto esse concurso português não ajudaria em nada na candidatura do Sítio Cidade Velha. De recordar que uma das possibilidades da UNESCO incluir Cidade Velha na lista de património da humanidade, está ligada à consolidação do projecto Rota de Escravos, projecto criado em Benin em 1994 exactamente com o fito de rememorar a tragédia da escravatura, e promover a investigação sobre essa que é considerada a maior deportação de seres humanos na história da humanidade, crime que …

Escrever

O acto da escrita é um corpo a corpo com o anjo,
e anjo é uma criatura divina,
o indivíduo que tenta brigar com um anjo será derrubado.
Só uma figura fabulosa podia lutar com um anjo,
o que faz da escrita uma luta perdida de antemão.
Escrever (não como um acto de projecção)
é uma atitude completamente existencial,
uma forma de viver que para a maioria é ridícula.

Mário Fonseca

Quem conhece Arménio Vieira...

A cidade da Praia e Cabo Verde continuam sob o efeito do Prémio Camões 2009. Para muitos, tudo ainda parece um sonho. Há dias foi a tertúlia em homenagem merecida, na pracinha do Café Sofia, local habitual do Conde de Silvenius, aliás Arménio Vieira. Ali, entre uma bica e uma cavaqueira, joga-se xadrez e vê-se o frenesim do Plateau, que já se afirma cosmopolita. Mas não pretendo falar dessa noite que foi maravilhosa, porque conseguiu reunir gente, na sua maioria, amiga e que conhece e aprecia a escrita criativa de Arménio Vieira. Se alguém duvida que vá aos canhenhos ou se remeta aos pergaminhos...

O que me traz a estas linhas é o ventilado, mas redondamente alegado, desconhecimento da obra de Arménio Vieira por parte das pessoas. E que o poeta vinha sendo marginalizado, senão mesmo ostracisado, pelo establishment, algo que conota a alguma falácia.

Faço minhas as palavras de Jorge Carlos Fonseca, quando este remata (em entrevista ainda não publicada) que “quem conhece a literatura cabo-…

Brava ilha (in ressonâncias)

Há momentos na vida das populações e dos povos em que só medidas e atitudes de alguma radicalidade por parte deles conseguem potenciar uma mudança de postura das autoridades, sobretudo quando o arsenal argumentativo normal se revela inadequado ou ineficaz de todo. Creio que os bravenses, a não ser que pretendam abandonar a ambição de querer continuar a existir, como entidade autónoma, diferenciada e digna, não têm outra alternativa que não seja a de obrigar, forçar, chantagear se necessário, (...)

eco de: Jorge Carlos Fonseca

Sou um poeta (apenas isso)

(...)

Fica a sugestão, não te ofereço
o texto. No entanto, se fores poeta,
dentro de ti o mar se abrirá ao canto.

apareça na: tertúlia em homenagem ao poeta Arménio Vieira, a ser promovida pelo Ministério da Cultura, 9 de Junho, na Pracinha do Café Sofia, logo mais às 18:30.

Pedro Pires joga a última cartada

O Presidente da República visitou hoje o município da Ribeira Grande de Santiago, a poucos dias do encontro de Sevilha, onde a UNESCO vai deliberar entre 22 a 24 de Junho próximo sobre a candidatura da Cidade Velha a Património da Humanidade.

Uma visita simbólica, na medida em que o Governo de Cabo Verde, através de uma Comissão Técnica, já formulou a Candidatura da Cidade Velha junto à UNESCO e aguarda, com muita expectativa a decisão definitiva.

Carlos Carvalho, presidente do INIPC diz-se confiante no trabalho da comissão técnica, mas desvaloriza a ansiedade dizendo aos jornalistas que“ se não ganharmos a candidatura, ninguém vai morrer”. As coisas são como são, diz o poeta e somos forçados a concordar.

A visita de Pedro Pires ficou entendida como mais um acto de Magistratura Cultural, já que desde o início tem mobilizado interesses, junto da UNESCO, inclusive, para a divulgação do sítio Cidade Velha. Para Pires o sítio é um património, e por isso, ganhando ou não, deve-se trabalhar pa…

Conde de Silvenius: prosa e poesia

Troco as voltas à metáfora
fazendo de conta que Aristóteles
e o seu alfarrábio de tropos
valem tanto como esse velho
Mar Morto onde os peixes,
de tanta secura, já nem sabem
se são peixes ou pedras de sal.

Assim, embarco e sigo,
sem que eu saiba
em que ponto no rio ou mar
bifurca a prosa e, nítido,
Se vê o poema.

nota pura: depois do Prémio Camões cabo-verdiano a pergunta: a prosa ou a poesia do Conde de Silvenius? O próprio prefere os seus poemas, e elege “MITOgrafia” (a última) como sua obra de peito. Manuel Veiga, o Ministro da Cultura numa resenha publicada em Cabo Verde: insularidade e literatura elege “Eleito do Sol” como o romance de ruptura na literatura cabo-verdiana. Ler a resenha da obra aqui.
Nós por aqui, vamos continuar a fazer o que sempre fizemos… Conde é Prémio Camões 2009: celebremos!!!

Arménio, o indomável Conde

Arménio Vieira recebeu, ontem, ao fim do dia, a notícia, vinda do Brasil, de que havia sido consagrado com o Prémio Camões. Não dormiu a noite toda, os telefonemas de amigos não permitiram. Cedo, hoje, naturalmente teríamos que fazer a entrevista de praxi para o telejornal. O curioso é que, de repente, vários jornalistas circulavam entre a casa do Conde e o Café Sofia numa informalidade e sentido de ocasião que vale a pena ser registada. E lá foram acontecendo as entrevistas num tom absolutamente comedido e descontraido característico do poeta. Arménio Vieira contava com o Prémio Camões, mas não tão cedo. Calcula que o seu lado de poeta tenha pesado mais do que o de prosador na ora da decisão, até porque se considera um poeta, sobretudo. O telefone não parava de tocar, jornalistas, amigos, poetas, primeiro-ministro…
Facto curioso de um jovem de nossa idade (a mesma de Cristo, já agora) querendo saber porque razão estão tantos jornalistas à volta do senhor. Recebeu o Prémio Camões, o ma…

Bravo, Arménio!

Primeiro Móbil, Esfera Infinita,
Jeová dos exércitos-Deus é como
os chapéus, cada cabeça sua medida
Eu sei que alguns padres ficam
zangados. E daí? Os padres
são como são.

Os sapos coaxam, os corvos
crocitam. Cristo falava,
Paulo escrevia. Eu...sou
como sou. Tenham paciência.

Eu sou como sou, Arménio Vieira

Arménio Vieira ganha Prémio Camões

Arménio Vieira é o primeiro escritor e poeta cabo-verdiano a ser distinguido com o Prémio Camões e o quarto em África lusófona. Sem dúvida o maior reconhecimento à literatura cabo-verdiana em língua portuguesa e um super prémio. Depois do brasileiro João Ubaldo (2008), Arménio Vieira, o Conde, recebe o mais importante galardão literário da língua portuguesa de há muito desejado e merecido por Cabo Verde. E porque de apoteose camoniana falamos, escolhemos para celebrar um poema/homenagem de Arménio ao poeta de Vida Severina (por entre cabras e pedras), outro artesão em Língua de Camões, João Cabral de Melo Neto (Prémio Camões 1990).

Sabido que o voo
não se prende ao chão,
do qual não é unitário
nem tão-pouco afim,
já que o pássaro
só no sonho encontra sua estação
e a razão por que voa,
diga-se que o bloco,
pesado e concreto
não é substância
que inspires
quem ao voo se rende

João Cabral, no entanto,
sendo Z de uma recta
em que Dante é o A
encontra no feijão,
e na pedra, mesmo
na cabra, isto é,
na pele da …

Concurso português ignora escravidão

O concurso As 7 maravilhas portuguesas no mundo ignora a história da escravidão e do tráfico atlântico. Há mais ou menos vinte anos, vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o patrimônio que lhe é associado. Essa valorização se traduziu não somente na publicação de um grande número de obras historiográficas, mas também se expressou na realização de projetos como A Rota do Escravo iniciado pela UNESCO em 1994. Apesar das dificuldades e das lutas políticas que envolveram a emergência da memória do passado escravista das nações europeias, americanas e africanas, de dez anos para cá a memória e a história do comércio atlântico passaram a fazer parte da memória pública de muitos países nos três continentes circundando o Atlântico. Em 2001, através da Lei Taubira, a França foi o primeiro país a reconhecer a escravidão e o tráfico atlântico como crimes contra a humanidade. Também na França, o 10 de Mai…

FESMAN arranca em Salvador

Como estava previsto a terceira edição do Festival Mundial das Artes Negras (FESMAN) teve o seu inicio simbólico no passado dia 25, dia de África, em Salvador da Bahia, Brasil. Um momento mágico cuja descrição deixamos a cargo da equipa da Fundação Cultural Palmares.

“Grandes emoções marcaram o espetáculo. Um deles foi quando Gilberto Gil abre o show musical cantando "La lune de Gorée", um lamento inspirado na história da Ilha de Gorée, de onde os africanos partiam rumo à escravidão para nunca mais voltar. Existe na ilha um monumento chamado Porta do Nunca Mais. Outro momento que comoveu a todos foi quando o mesmo Gilberto Gil, ao encerrar o espetáculo, entoou o hino do Fesman e o presidente do Senegal levanta-se da sua cadeira e fica frente ao cantor, numa reverência àquele momento ímpar na história da relação dos dois países. Um reencontro do povo negro do Senegal com seus irmãos na diáspora de Salvador.”

“Lançado propositalmente no Dia da Libertação da África, 25 de maio, o…

Dias sem fim

muitos
muitos são os dias num só dia
fácil de entender
mas difícil de penetrar
no cerne de cada um desses muitos dias
porque são mais do que parecem
pois
dias outros há
ou havia
naquele dia do poço
da quinta
também dentro e fora
porque não é possível estabelecer um limite
a cada um desses
dias de fronteiras impalpáveis
feitos de – por exemplo – frutas e folhas
frutas que em si mesma são
um dia
de açúcar se fazendo na polpa
ou já se abrindo aos outros dias
que estão em volta como um horizonte de trabalhos infinitos:

nota pura: poesia impalpável de Gullar... na exacta dimensão dos dias