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Mensagens

Pablo Neruda

Neruda, por acaso,
detestava os livros.
Daí que os deixava,
em casa, sem nunca os abrir

E, saindo à rua,
que é onde a vida começa,
só parava à beira-mar

E, à beira-mar,
esquecendo que é na estreita
vereda entre o umbigo e o ânus
que os paraísos começam e findam,
Neruda enlaça a mulher,
pelo nome (que assim
ela cabe melhor no poema)

E, sem que de lábios,
mamas e coxas
ele faça menção,
nem ao licor
com que a mulher
embriaga, antes do sono,
o poeta navega e dorme

Arménio Vieira

Mudjeris

A mulher saiu da fila, deu uma volta e, aproximando-se de outro empregado, fez nova tentativa.
- Veja se Domingas Lopes tem carta.
Nova procura nos cacifos e nova negativa:
- Não, Domingas Lopes não tem carta.
Ela saiu com ar desconfiado e resmungão:
- Ter, tenho a certeza que tenho carta... Eles é que não ma querem dar.
E lá se foi, caminho de casa, impertubável na sua fé."

Destaco o trecho acima (sublinhado meu), parte de uma crónica publicada em Agosto de 1955 no jornal Cabo Verde por Maria Helena Spencer, a primeira jornalista cabo-verdiana (falecida no ano passado). Celebrar o dia da mulher cabo-verdiana é também ter a capacidade de aceitar, ainda que criticamente, a história, e assumir as referências que ela nos legou. Acredito que seja essa a tentativa da compilação que a professora Ondina Ferreira lança hoje na Biblioteca Nacional, assinalando o dia da mulher cabo-verdiana. “Elas Contam” é o título do livro que cruza épocas e mostra o cabo verde feminino em bocados, por fases, …

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Neruda

Cinema e cinema

Falemos d´«Orquestra da Piazza Vittorio », um filme documental do realizador italiano Agostinho Ferrente (2006). Assisti ao filme, e a outras tantas dezenas no Festival Internacional de Cinema de Alba, em Itália. Acresce a isso, um debate sobre o trabalho com o realizador. O filme conta com entrevistas e outros apanhados, o percurso da criação de uma orquestra, num distrito de Roma, composta por músicos desconhecidos de várias culturas e línguas. Os 4 anos que Mário Tronco, compositor e pianista, levou para criar a orquestra são recheados de flashes da vida dos próprios «músicos»/personagens que hoje fazem parte da orquestra. O interessante, a meu ver, foi o caminho percorrido por entre linguas e culturas, tendo a música como guia. O que poderia ser uma babel, acabou numa sinfonia...O proprio realizador que provavelmente se surpreendeu com o efeito (a criação efectiva de uma orquestra) afirmou que caso isso não tivesse sido possível, concluiria ser impossível organizar uma orquestra e…

Da escravatura

Quando viviamos no auge da blogosfera, com o senso crítico apurado, e muita energia à mistura, lembro-me de ter dito muito sobre a escravatura, e frisado, reiteradas vezes, a forma pouco assumida como Cabo Verde lidava com o assunto. Prova disso, é a inexistência de um único dossier cabo-verdiano financiado pelo projecto Rota dos Escravos da UNESCO “projeto de pesquisa internacional sobre o comércio de escravos na África lançado em 1994 no Benin”.

Ultimamente, alguém terá aventado que Cabo Verde não constava da rota do regresso/passagem do emblemático navio Amistad. Na sequência disso, houve reacções indignadas. Terá sido tudo um equívoco, (como parece ter sido) ou apenas uma (in)verdade (in)conveniente ? Perdoem-me a força de expressão. É que neste momento ando a fazer uma série de entrevistas sobre o documentário de Al Gore «Verdade Inconveniente», e pode ser isso reflexo de alta exposição à repetição.

Voltemos à questão do incómodo sobre Amistad. A histórica embarcação dos chamados e…

Invicto margoso

Angústia Tragédia Paura Momento
Dispadicê Saqué I
nstante
Lua Encanto Innocence
Poesia P
âpia

Respondo ao desafio do João, com as 12 palavras que mais me encantam. Paura, para quem não sabe, significa medo em italiano. Trêspalavras sta na criolu di Fogo. Si arguém ka sabê sés significadu, podê purguntan.

Foto: colagem de Susanna Gordon

minhas horas

A prata é um vegetal como a alface.
Primaveril, frutifica em setembro.
É branca, dúctil, dócil (como diz a Lucy)
e, em março, venenosa.

O cobre é um metal que se extrai da flor do fumo.
Tem o azul do açúcar.
É turvo, doce e disfarçado.
O ouro é híbrido - flor e alfabeto.

Osso de mito, quando oiro é teia-de-abelha.
A precisão do maduro. Dele se fabricam a urina e a velhice.(f.gullar)
(foto: Gullar no seu escritório, autor: Rogério Faissal)

Poesia Intacta

Ancoro-me em palavras, quando em mim pouco ou nada habita.
Entrego-me a vozes, quando meus momentos me traem.
Nessas horas, pressinto a vida, a eternidade, e sobretudo a morte : poesia intacta. (pura eu)