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Mensagens

Do crioulo aos radicais árabes

1. Terminou, ontem, na Cidade da Praia, o fórum sobre a língua cabo-verdiana que juntou linguistas fundadores do ALUPEC (Alfabeto Unificado para a escrita do cabo-verdiano), professores e escritores usuários do crioulo. Sabe-se que a meta deste momento é a instrumentalização da língua cabo-verdiana no sentido da sua assumpção efectiva (nas escolas, repartições, comunicação social) e posterior oficialização. Nessa linha, o fórum trabalhou sobre os avanços e os problemas encontrados na aplicação do ALUPEC. A variante a adoptar virá naturalmente, e já faltou mais. Para já, uma notícia se impõe, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, adoptou-se o ensino do crioulo de Cabo Verde (vide o nº de cabo-verdianos residente na América).

2. Assistindo ontem ao Telejornal da RTP chamou-me atenção o número de reportagens em áreas diversas dando conta das consequências da crise que assola a economia mundial: Instituições de caridade que recebem menos donativos, casos de vandalismo que aumenta…

Nobas di Djarfogo

1. São Filipe ganhou nos últimos tempos novos points de lazer e comércio turísticos, o que emprestou mais vida à cidade, e contribuiu ligeiramente para o virar da página do angustiante silêncio daquelas ladeiras. No interior, as pessoas estão mais contentes com o resultado da boa azágua, e nada mais contagiante do que alegria de camponês.

2. A cidade ganhou finalmente (depois de um projecto de 12 anos) o seu Museu Municipal (no sobrado da foto). Um espaço que pretende apresentar as particularidades históricas, ambientais e culturais da Ilha do Fogo. Segundo a museóloga que trabalhou na sua instalação, o Museu Municipal de S. Filipe vai ser complementar à Casa da Memória, e não tem a pretensão de substituir as valências deste espaço, o que é muito bom. A equipa criou este blog onde pretende detalhar sobre as temáticas de abordagem do Museu.

3. "Bom doc", a nova provocação da já incontornável Cá Dja´r Fogopara projectar o novo ciclo 2009. "Expor o relacionamento entre o art…

Os nós da solidão

II

Dantes havia os colonos
que alvos e algarvios
defronte das estátuas
e demais monumentos
de aquém e além-mar
bebiam sequiosos
o suco da cana
o sumo da terra
a espuma do mar
e raivosos
nos mandavam recolher
o bagaço sacarino
e as vértebras de outros restos
e em sarcasmo gregário
se reluziam ao sol
e seduziam a nua
e tisnada virgindade
dos subúrbios

II

Séculos depois
ainda alvos e algarvios
sob uma lua muito redonda
muito mais gregários e raivosos
do que dantes
por mor das colunas de fumo
que dos monumentos
se despenhavam
e despedaçavam o mar
por mor das efígies de bronze
que das penedias da cidade tombavam
os colonos
e os seus próceres islenhos
os colonos
e os seus rebentos indígenas
atravessaram o mar
velejando um ódio ainda mais amargo
e cada vez mais absentista

III

E ficámos sós
cogitando sobre os nós da solidão
e da nossa possível essência negra

E ficamos sós
reverberando ansiosos
os signos da desolação
ante o sibilino assobiar
dos alísios sobre os montes
e o oceano de todos os dias
e a sua inútil ondulação
vazia de veleiros e …

Dias que ficam...

1. “Existe uma relação intensa entre Cabo Verde e o Brasil que se dá via Fortaleza, mas o Brasil, pelo menos, não sabe disso. Temos que fazer alguma coisa para inverter esse quadro.” Foi mais ou menos esta ideia que o director da TV Cultura, o nomeado jornalista Paulo Markun, me passou numa reunião que tivemos naquela que é, sem margens para dúvida, a TV que produz melhores conteúdos no Brasil. Essa ideia ainda embrionária pertence a uma realidade futura, mas com pernas para andar.

2. 1º Seminário de Estudos cabo-verdianos

É importante perceber que a ideia de Markun, apesar de tudo, não está longe do presente se atentarmos àquilo que acaba de acontecer na Universidade de São Paulo: O primeiro Seminário Internacional de Estudos Cabo-verdianos sob o sugestivo lema Contra Vento Pedra-a-Pedra em homenagem ao poeta Luis Romano, cabo-verdiano residente no Brasil há largos anos. Foram quatro dias (25 a 28 de Novembro) de conferências e debates centrados na literatura, e que incluiu mostras de …

A vida dos dias...

Muitas histórias poderiam ser alinhavadas e recordadas por estes dias. A tua, de certeza; a tua inteira vida que surpreende todos os dias, e irrompe os anos, e o século, mostrando-se plena para quem se segue a olhar para ti. Os dias calmos, ao som das pujantes ondas “di fonti bila” que ousas, com sabedoria, desvendar e saborear. Os dias de tumúlto que ultrapassas com gargalhadas ou um simples sorriso. O jogo de “bisca” diário que, parecendo que não, é uma forma sábia de te encarares e enfrentares os dias. “Te dedico”, pelos dias, e pelos Novembros, que hás-de pisar com a mesma sabedoria e generosidade.

Em ti

Há momentos bons, de tanto se revelarem
Novembrinos
Fortes, valentes
Luzem, o brilho azul, no teu olhar.

Vou

Em busca do meu Novembro.

nota discreta: Os momentosirá fazer uma pequena pausa

Cidade II

in memoriam de João Henrique (Dick) Oliveira Barros e V. Fernandes Eu sei!

O cerco se aperta
e, perto,
ouve-se o ganir dos cães

Na cidade da Praia de Santiago
(nesta rochosa transfiguração
da velha e antiga metáfora de cidade santa )
deus esvaneceu-se
abatido e receoso
de ser enforcado
com as cordas
do destino e do vento

E foi então
foi só então
que os mercadores
(de estórias e de outros apetrechos
da frustração do corpo e da claudicação da alma)
decidiram escolher
um novo deus
como eles
sarcástico
e detentor
do metálico dom
da gargalhada

Eu sei!

A invisível cerca
cerra o seu eco
à volta da minha alma

Que farei
sem o meu Deus
e sem a maçã
senão estilhaçar o cerco
e a sua ameaça de estoricídio
açoitar o vento
repicar os pés no chão
e retinir um djato
na cara da consonântica arrogância
dos mercadores
e dos que bailam ao vento?

José Luís Hopffer C. Almada
imagem: Lasar Segall

Um instante

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

poema: gullar
imagem: gondim