Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Momentos

1.
Eis-me
face aos papéis
e estes me dizem:
é arriscado
ser-se indagador

Não porque
falassem os papéis
mas pela sua simples postura
branca sobre a rectangular nitidez
da secretária

É arriscado ser-se indagador
dizem os papéis
brancos na cava sonoridade
da sua postura
e são outras as vozes
que por entre eles ressoam

Talvez sejam as vozes
dos donos dos papéis
e dos fiscalizadores das receitas e despesas
do Orçamento Geral do Estado

2.
Por aqui estou
livre
porém preso
ao sol do meio-dia

Desapareceu a bruma seca
e sob a plena e ofuscante
claridade do dia
rutilam os casebres
nítidos e míseros

Vazia de água
leito dos restos do dia
a ribeira é uma viela ampla
por onde circulam os pedintes
ruela por onde deambulam
os cilícios da marginalidade
de mentes várias desempregadas
tela na qual se desenha
o arrojo arquitectónico
das crianças filhas da rua
e se configura a despojada engenharia
das suas brincadeiras semi-nuas

Por aqui estou
livre como a cidade
meditando porém
nessa liberdade
que me amordaça
os resquícios de ousadia

e me prende
como aos…

Da toponímia

A toponímia da Cidade da Praia, mais do que em outros pontos do país, sempre esteve à mercê das oscilações políticas e de grupos, e envolta a alguma vulnerabilidade. Haviam os nomes atribuidos pelo regime colonial que, depois de 1975 com a Independência Nacional, foram substituidos por outros, e com o advento da democracia alguns foram retomados. A estátua de Diogo Gomes “na testa” do Plateau é um exemplo emblemático. Outro caso curioso, foi o Bairro Craveiro Lopes que logo depois da Independência passou a apelidar-se de Bairro Kwame n´kruma para depois com a democratização recuperar novamente o topónimo Craveiro Lopes.

A atribuição de nomes a ruas, praças e estátuas, independentemente das vontades partidárias, políticas, ou de grupo é uma questão sensível e deve sempre partir de argumentos claros e consensuais de ordem histórica, geográfica, cultural ou mesmo simbólica. O que ocorreu há dias com o nome Largo Eusébio, atribuído pela Câmara Municipal da Praia à conhecida Rua Capela, em …

Intermezzo (na tela e nas coisas)

1.Prison Break de Paul Scheuring, pela adrenalina e pela actuação pavoneada e silenciosa de Scofield (Wentworth Miller) - foto.

2.Sete Palmos de Terra, a maior criação de Alan Ball, com os textos mais ousados vistos na TV. Uma explosão cruzada de sentidos; onde o sexo surge como imanente e revitalizador; momentus em que o ser humano se despe dos seus preconceitos e das convenções; um recorte que elege a loucura como um dos sensos mais lúcidos e elevados quando a escolha se centra entre a luz da vida e o silêncio da morte; A própria morte se impõe como uma página da vida.

3.As coisas são como são, já dizia Arménio Vieira.

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Rede Record: da desgraça à redenção

1. Muitos já devem ter reparado no tom incisivo da grelha de programação da TV Record, canal brasileiro emitido em sinal aberto em Cabo Verde. Record é uma rede de televisão brasileira, cujos donos pertencem ao influente “bispado” da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A rede (TV e rádio) é de cariz nacional e se ramifica através de dezenas de TV´s filiais estaduais e centenas de rádios pelo Brasil, e pelo mundo, (em alguns países africanos, inclusive). A tendência recente tem sido a igreja arrastar consigo o canal, e em outros têm acontecido o inverso; lá onde for permitido (como aconteceu em Cabo Verde) a regra é estarem juntos.
A Informação (o jornalismo) da Record, com a atractiva máquina de produção que em muitos casos ofusca o conteúdo, é marcadamente sensacionalista. O entretenimento cumpre e bem o seu papel “entreter”. Os documentários, alguns sobre os recônditos do Brasil, e outros sobre países e culturas estrangeiras, são bons.
A nossa atenção vai para o jogo dialéctico …

Da imagem à liderança política

Os presidentes do PAICV e do MPD transmitiram, no dia 31 de Dezembro do ano findo na Televisão de Cabo Verde, os votos de bom ano novo aos cabo-verdianos, no âmbito do tempo de antena que os dois partidos gozam na estação de televisão pública. Essas comunicações suscitam algumas leituras à semântica dos seus conteúdos.
O teor e o tom são antagónicos, como se sabe. Para o MPD, o país, não fosse o razoável ano agrícola, estaria numa profunda agonia. Segundo Jorge Santos, tudo vai muito mal, e o governo perdeu, a crer nas suas palavras, o controle da situação. O Presidente do PAICV apresenta a sua versão; um país que caminha, com projectos, com avanços: novas bacias hidrográficas, melhor aproveitamento dos parques naturais, boa governação, casa do cidadão, etc.

Mas não apenas o conteúdo dessas duas comunicações eram diferentes, a forma como foram feitas também, daí o motivo deste post. A televisão é um médium de imagem por excelência e para se atingir determinados objectivos em muitas conj…

Da memória, dos rituais, dos sons aos livros… em 2008

1. Um dos projectos mais pendentes de que tenho memória em Cabo Verde foi o Museu Municipal de S. Filipe, daí, também, o seu ineditismo. A restauração do sobrado di nha Francisquinha (nome popular), a recolha dos objectos etnográficos e a efectivação do protocolo entre a Câmara Municipal de S. Filipe e a Câmara Municipal de Palmela (Portugal) duraram 12 anos. Finalmente, o espaço foi inaugurado no passado dia 13 de Dezembro, e a partir de meados de Janeiro de 2009 estará aberto ao público das 10H à 15H, e das 17H às 20H. De recordar que o Museu situa-se mesmo ao lado da Casa da Memória, outro espaço etnográfico de grande servidão aos turistas e estudantes na Ilha do Fogo. Expectativa: que o Museu da Cidade receba muitos turistas e curiosos e trabalhe em sintonia com a Casa da Memória.

2. Os momentos tristes também podem ser grandes, pela simbologia que carregam. No ano 2008 faleceu na Cidade da Praia, Francisco Fontes. O decano das bandeiras da Ilha do Fogo. Nhô Mulato, como era conhec…