24 de setembro de 2008

Com Paulo Abrunhosa

poesia




















Dá-se recompensa

Não haverá ninguém que castre
este nosso desastre
à nascença?
Dá-se grossa recompensa!

Dever Astral

Saibamos ser dignos
dos nossos signos!

22 de setembro de 2008

J.M. COETZEE, o autor de "Desgraça"

Desgraça



















“Perdeste o emprego, o teu nome anda de rastos, os teus amigos evitam-te, escondes-te na Torrance Road como uma tartaruga com medo de meter a cabeça de fora da carapaça. Pessoas que nem aos teus calcanhares chegam dizem piadas a teu respeito. Não tens a camisa passada a ferro, sabe Deus quem te cortou o cabelo. Vais acabar como um desses velhos a remexer os caixotes do lixo.”

É desta forma sentenciada que Rosalind reprova a atitude do ex. marido David Lurie. Um professor universitário da cidade do Cabo que se envolve com uma aluna muito mais jovem. “Desgraça” de M.J. Coetzee é uma intensa narrativa de rendição perante uma viragem existencial, primeiro na vida de David, segundo, numa África do Sul pós apartheid.
A violência perpassa a obra de Coetzee, antes quando o professor se envolve com a jovem e é vilipendiado e expulso da universidade. Ao mudar-se para o campo, refugiando-se de tudo e de todos, presencia outra violência junto da filha Lucy (violações e chantagens) perante uma passividade incompreensível e angustiante desta.
Um livro que fala do absurdo, de sentimentos incontroláveis, da vergonha, da impotência perante a ordem das coisas…de um certo esgotamento colectivo e social. Coetzee nos propõe um romance denso que convida para uma leitura sem linha, nem margem. Do infinito, pois apesar da estrutura do livro, não tem princípio, nem fim...
Dá que pensar: uma obra sublime! De J.M. Coetzee.

20 de setembro de 2008

O negro, a história (o cabo-verdiano)

cabo-verdiana












Há duas semanas trouxe para aqui a visão rácica do crítico literário Pires Laranjeira trazida a lume num artigo denominado “O Stock negro na Claridade”. Por uma questão de interesse, que gostaria de compartilhar com todos, resolvi publicar a visão síntese do sociólogo e historiador António Correia e Silva sobre esta questão. Uma outra vertente analítica que nos recorda um bocado a narrativa de Teixeira de Sousa que eventualmente, por caminhos diferentes, deixou laivos disso mesmo no seu livro "Ilhéu de Contenda".

Gostamos de ser cabo-verdianos”. Não existe neste arquipélago a reinvenção de uma “beleza negra combativa e reactiva”. Isto porque o projecto branco foi derrubado em Cabo Verde. É certo que houve ensaios para reerguer esse projecto: a chegada dos degredados da colónia ao longo do século XVIII, a vinda nos anos 40 dos militares da metrópole para a promoção de casamentos brancos, mas essas tentativas não vingaram.
A elite resiste, sempre: são curiosos os dizeres dos testamentos das famílias brancas, principalmente na Ilha do Fogo, que sentenciavam que “Se casar com homem preto, o que dela não espero, será deserdada”. A resistência à mestiçagem nunca ganha terreno, porque as bases sociais do racismo foram desmontadas (nas representações estéticas e na linguagem), existindo hoje, apenas resquícios de tensões rácicas nestas ilhas.

Numa sociedade escravocrata, segundo Correia e Silva, é de se esperar haver uma negação à condição herdada do esclavagismo, (da humilhação e da diminuição humana a que foi votado o negro). Mas por cá, escasseiam-se os brancos, e a mestiçagem é irreversível, em todos os domínios.
São recorrentes estudos e posições que tentam aproximar o quadro rácico do Brasil ao de Cabo Verde. Situações muito diferentes, afiança Correia e Silva.

Nessa mesma linha (ainda que sob outras premissas) o estudioso tem em curso uma tese que pretende demonstrar o surgimento em Cabo Verde de uma nova África, e nunca um prolongamento da Europa, e muito menos aquela ideia descentrada de "país da morabeza".

fotu: a semana

17 de setembro de 2008

saudade do futuro

femme nue, Picasso













O meu mundo não é como o dos outros,
Quero demais, exijo demais,
Há em mim uma sede de infinito,
Uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
Pois estou longe de ser uma pessimista;
Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada.
Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... Sei lá de quê!"

poema: florbela espanca
imagem: picasso
título: pura eu

16 de setembro de 2008

Da terra...











1. Apesar das claras evidências disponíveis ao nosso redor, existem muitas pessoas que continuam a acreditar que o aquecimento global não é problema coisa alguma. In: O Ataque à razão; Al Gore

2. Cabo Verde já criou o seu Comité para o Ano Internacional do Planeta Terra que será apresentado ao público no dia 17 de Outubro na Cidade da Praia. Esse órgão terá a responsabilidade de promover actividades que contribuam para a promoção de uma consciência pró terra, e fazer face a alguma vulnerabilidade natural, e ao surto de crescimento que vem conhecendo o país: reduzir os riscos dos desastres naturais, edificar construções mais seguras, inovar no manejamento dos recursos naturais e promover um ambiente saudável. Para além da retórica, até porque tem havido sinais de preocupações nesses domínios nas nossas ilhas… Esta ideia se inscreve na Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014), criada sob a égide da UNESCO.

3. La strada, infinita e sem retorno...

15 de setembro de 2008

Sabura na Guetu

Mininus di guetu

















Sabura na Guetu encaixa como uma luva num programa feito em Cova da Moura por uma produtora independente, e emitido no passado fim-de-semana na RTP África. Não gostei dos meandros e da intencionalidade subjacentes ao referido programa, diga-se em abono da franqueza. Todavia, eu gostaria de frisar, antes de tudo, que não nutro qualquer sentimento "daninho" em relação a esse canal, que acompanho com atenção, estando aqui a exercer o livre pensamento crítico, com a melhor das intenções.
A missão do programa, como anunciou a apresentadora Catarina Furtado (certamente uma idolatrada no bairro), era mostrar que existem muitas coisas boas e gente "do bem" em Cova da Moura. Mas, a começar pela sua apresentação um tanto ou quanto debochada e redutora, não creio terem atingido esse objectivo.
Os ingredientes eram os de sempre: a mulher que faz uma panelona de cachupa; o jovem que provou ser responsável simplesmente porque conseguiu guardar uma câmera de filmar em casa, que lhe foi cedido pela produtora para um documentário; o Cromo di Gueto (apelido de um dos convidados) que é "bué de fixe", calão angolano transferido, sem propósitos (e se calhar, com estranhos propósitos) para os diálogos em questão; as crianças que dançam batuque, e são, aos olhos da apresentadora, um grande orgulho para a avó. Haviam mais casos clichés e de visões pré concebidas, que me contaram depois, mas eu tive que mudar de canal.
"Pobres coitados" que encontram razões para sorrirem num programa dessa natureza. Um programa que só reforça a sua guetização, olhares que reproduzam preconceitos de bradar aos céus, abordagens que não contribuem de forma alguma para uma integração desejável desses emigrantes. O que os "marginalizados" precisam é de cidadania e não do "tokenismo" e da "coisificação" mercê de um olhar televisivo. A integração cidadã, no sentido mais multicutural e humanístico do termo. De resto, e na sua essência, Cova da Moura não é a criminalidade de alguns dos seus moradores na condição de pária numa sociedade pretensamente democrática, mas o crime social (económico, político e, quiçá, cultural) de haver gueto e a sua reprodução insidiosa…

Mais felizardos

Outra moda que espero não pegue entre nós são reportagens de mães de famílias dos recônditos das ilhas com seis filhos para criar, mas que encontram realização nos docinhos que fazem, sempre a graças de uma ONG que precisa aparecer para justificar os subsídios que recebe... do pai da família nem sinal, mas isso não vem ao caso. A felicidade reina na família onde os filhinhos certamente irão vender doces como a mãe. Outra reprodução atroz de um exotismo que não nos interessa. Não queremos morar na "Cabana do Pai Tomás". Dignidade é outra coisa e queremo-la…mesmo com as suas dores de parto!

fotu: Rui Palha

12 de setembro de 2008

A escola, o jornalismo...

A patrícia

















Ela cresceu naquela escola. Onde além de aulas, havia música, teatro e cinema, e se fazia dos natais e páscoas celebrações programáticas. Onde os professores estudavam em horas noturnas as disciplinas de formação humana, Filosofia e História. Na escola onde a capela e os seus santos serviam de esconderijos para os jogos de intervalo.
Até hoje, Patrícia carrega a manta de tristeza que a invadiu quando soube que a paróquia não ia mais ceder aquele espaço para o Ministério da Educação. Foram sucessivas desilusões iguais a esta que fizeram da Cidade de S. Pedro um lugar ermo de alma e de cultura.

Jornalismo

Os jornalistas de Cabo Verde vão ter finalmente uma sede: a inauguração acontece daqui a pouco, às 17 horas. O edifício fica no Plateau, nas antigas instalações do jornal Voz di Povo, mesmo ao lado do mercado. Mas a casa, apesar de ter ficado bonita, não dá nas vistas, as vendedeiras que povoam aqueles passeios não deixam.
Auguramos melhores momentos para, aí sim, celebrar… o jornalismo cabo-verdiano.

11 de setembro de 2008

Cidade Velha: Património do mundo

Voltei à Ribeira Grande de Santiago para o início de rodagem de um novo programa. Revisito o Santiago dos anos 1460, no tempo e espaço, e me elucidam, sempre, os depoimentos e pesquisas sobre a relação da ilha mãe com a Costa Africana, e posteriormente com a Europa e as Américas. Apercebi-me em crescente que aqui nasceu a primeira sociedade escravocrata do mundo: na cidade erguida pelos europeus como porto seguro, por onde passaram Vasco da Gama e Cristóvão Colombo nas suas viagens rumo a Índia e as Américas, respectivamente. Na Cidade onde existe a igreja colonial mais antiga do mundo construída em 1495. Verdades incontornáveis e paradoxalmente pouco críveis, tal o obscurantismo a que os nossos manuais (mentalidades, diga-se) nos votaram.

Ocorre-me a reunião de 1994 em Ouidah, Benin, que cria o projecto UNESCO “A Rota do Escravo”, e me quedo incrédula quando fico a saber que afinal Cabo Verde pertence ao Comité Português, em vez de dinamizar uma comissão própria e necessariamente independente. Lê-se em toda a parte que Cabo Verde tem pautado pela ausência nos encontros da UNESCO sobre o tema. Quando todos os países que estiveram envolvidos no comércio transatlântico têm comités próprios desenvolvem pesquisas e iniciativas culturais diversas inscritas nessa interessante rede.

Estamos em crer serem esses interesses prévios e assumidos que um dia irão contribuir para o merecido reconhecimento da Cidade Velha como Património Mundial da UNESCO. Não apenas o regresso do Amistad e as viagens de troca de experiências que, como têm sido feitas, normalmente não resultam…

imagem: António Jorge Delgado

10 de setembro de 2008

O negro, a história (suas nuances …)

ExampleComo se de uma nuvem se tratasse, resolvi transcrever alguns trechos da comunicação de Pires Laranjeira feita no Simpósio sobre os Fundadores do Movimento Claridoso, ocorrido há cerca dois anos na Cidade da Praia, em alinhavo com o escritor brasileiro Milton Hauton. Um percurso em retalhos e por geografias diversas, mas com (sentido) próprio.
"Será o povo cabo-verdiano assim tão cordial e sem preconceito rácico, como se quer fazer crer? Ou a análise das diferenças pelo prisma da classe e do grupo económico serve para encobrir a questão do preconceito rácico…?" (...)
"A visão de Baltazar Lopes é manifestamente de um arquipélago sem enfrentamentos rácicos, em que a cor da pele, segundo ele, nada significa:"(...)
"Será que o recalcamento do negro, em Cabo-Verde, foi ainda mais violento, destruidor, esmagador e preconceituoso do que outros espaços, em virtude de as ilhas serem territórios concentracionários, tendo sido tão castrador que dele pouco mais restou, a não ser ténues sintomas e o mito de ter sido especial, quase inexistente, como se os negros dessas ilhas quisessem fugir do seu passado ao fugir da sua cor?"

Dessa controversa e pendente questão, deixada por Pires Laranjeira, dou uma saltada até Milton Hatoum, não muito distante daquela, e uso um trecho do seu artigo "Contra o cinismo e o conformismo", publicado numa das edições da revista brasileira "Entre livros". Hatoum sustenta no seu artigo que, nos países colonizados, a consciência histórica e uma leitura crítica do passado são premissas para se fazer uma boa literatura. "Escritores como J.M Coetzee, Caryl Phillips e Salman Rushdie – três grandes narradores oriundos de países colonizados – escreveram romances cujos temas exploram as contradições de seu tempo e sua relação com a história, individual e nacional. É essa relação que a vertente conservadora e pós-moderna pretende suprimir, substituindo a consciência histórica por um conformismo adornado por um cinismo tão dissimulado, que bem pode rimar com fascismo."

A ausência desse enfrentamento e um divórcio evidente com a história em Cabo-Verde mais longínquo do que isso, foi um dos grandes problemas da literatura das Ilhas... a prosa e a poesia cabo-verdianas não souberam dizer "não a uma realidade inaceitável" e por isso nunca "conseguiram sugerir a possibilidade de outras histórias...". Quem fala de literatura, poderá falar hoje do cinema, da televisão, da publicidade, da arte, em geral, enquanto celebração das culturas...
"... a ficção moderna tenta fazer um recorte inventivo de uma sociedade, explorando suas contradições e tensões por meio do movimento interior dos personagens", escreve Hatoum, para quem a escrita é basicamente fruto da memória que o escritor tem do seu passado.

5 de setembro de 2008

Outros Infernos





















O Inferno, tal como é descrito
em certos livros, com gravuras
terríveis, a cores, já ninguém
lhe pega, é gracejos de palhaços
para entreter a malta. Mesmo o amor
que já foi inferno, quando Petrarca
e Dante viam Beatriz e Laura na cama
com outros gajos – se não viam,
então ouviam –, mesmo o amor perdido,
afinal tão perto do paraíso
enquanto se teve a ilusão de que o beijo
é o exorcismo capaz de assustar
o anjo exterminador, mesmo esse
é um inferno excelente para os jornais.
Chateia que se farta, faz chorar
ás vezes e bota-se fora, já não dói.
Há os que acham tesouros a sonhar,
outros vêem-se belos e até príncipes.
São contos de fadas lidos a dormir.
No entanto, há infernos sérios,
pavorosos, como o vento, ciclónicos,
não cabem nos livros, ninguém os pinta.

poema: armério vieira. imagem: pollock a pintar

nota: quando procuro uma ilustração para os poemas de Arménio Vieira a primeira imagem que me vem à mente é a intransigência estética de Pollock: simplesmente, outros infernos.

4 de setembro de 2008

Per te





















Música sem longe
como as outras, agora minhas.
Da estrada fria ao infinito.

Vazio de palavras

Gosto de gostar em silêncio.
É quando gosto.

2 de setembro de 2008

Momentu Angola

Angola















Angola vai às urnas para eleger um novo governo no dia 5 de Setembro. O mundo mais interessado, e várias entidades internacionais estão de olhos postos naquele país africano, ainda que com alguma preocupação. Os observadores europeus acham que os meios de comunicação públicos estão a favorecer o partido que sustenta o governo, a Amnistia Internacional fala em alguma violência, e a Unita denuncia um alegado financiamento do Banco de Angola ao MPLA.
Esse emblemático país africano vai eleger, finalmente, um governo em clima de paz e alguma contenção. Um momento marcante, tendo em atenção toda as tensões que nortearam a politica angolana nas últimas três décadas.
Os dados económicos apontam para um crescimento sem precedentes, mas a subnutrição infantil ainda permanece em niveis preocupantes em Angola. Assimetrias que devem merecer atenção redobrada, num momento de viragem.
Pelo silêncio ao redor, me parece que nenhum órgão de comunicação de Cabo Verde vai estar na cobertura das Eleições em Angola, o que seria lamentável. Um país irmão, como se diz, com fortes ligações históricas, sociais (existem várias comunidades cabo-verdianas em Angola) e políticas com Cabo Verde. Será que estas eleições, as primeiras tão esperadas depois da guerra em Angola, não constituem motivos de interesse para os ouvintes, telespectadores e leitores cabo-verdianos? É claro que me refiro a uma necessária cobertura feita por jornalistas cabo-verdianos, apesar das inúmeras notícias e reportagens que, hoje com a internet e os canais internacionais, alguns irão ter acesso.

30 de agosto de 2008

4 anu di blog

aniversário

















No dia 31 de Agosto de 2004, incentivada por amigo, abria Os Momentos, um blog constantemente tentado pelo jornalismo, e dado a reflectir sobre a cultura no seu sentido vivente, não descurando um olhar sobre os media, com forte enfoque na televisão. Nesses exactos quatro anos de estrada feitos de amizades, encontros, partilhas e reflexões escrevi quinhentos e cinco desabafos, alguns emprestados de penas que me são existencialmente queridas: sou tentava a nomear Pablo Neruda, Ferreira Gullar, Marguerite Duras, Clarice Lispector, Assis Brasil, Maiakovski, Nabokov, Jorge Luís Borges…
Também deixei por aqui frases soltas que alguém entendeu serem poemas, e hoje algumas figuram na Antologia poética Hora di bai, organizada por Francisco Fontes.
Fiz muitas amizades, algumas ilustres, outras também ilustres, revestidas de homem invisível, anónimo protector, amigo desconhecido, companheiros e companheiras... E assim vai continuar esse meu eterno Setembro, também aqui com outras estórias.