25 de novembro de 2010

Comunicar com Ética
















O mundo político procura a sua via entre um ideal da argumentação cooperativa inatingível no plano prático, mas justo no plano ético, e a renúncia à eficácia bem real, mas inaceitável, das técnicas de propaganda e de manipulação da opinião.
Philippe Breton e Serge Proulx, in: (A explosão da comunicação)


1. A frente propagandística montada pelo Governo não para de surpreender. Sem falar das incontornáveis ladainhas infra-estruturais, e outros "imponderáveis"… há dois dias seguidos que somos brindados na TV Pública (com as responsabilidade do autor devidamente salvaguardadas?!) com curtas publi-reportagens (a passos largos das eleições, nota-se) a seguir ao Jornal da Noite. Não se conhece ainda a dimensão da investida, (será diária?) apenas vê-se que começou com as obras da Secretaria de Estado da Juventude: com a clara intenção de atingir a maioria do eleitorado do país: os jovens! Uma bela democracia!

2. O televisor sem som é um belíssimo quadro,,, (CAZUZA)

24 de novembro de 2010

A Crioulização, o Candidato e os dias

























A música (e as suas nuances) vem sendo um factor primordial na internacionalização de Cabo Verde. Esse fenómeno dá-se de formas diversas, quer pelos músicos cabo-verdianos que levam o nome do país para os quatro cantos do mundo, quer pelo encanto que amiúde a nossa música vem despertando entre as pessoas (artistas, inclusive) por esse mundo ao longe. No caminho encontramos vários casos.

Desta feita, escolhemos falar de ATIM (foto): um jovem marroquino nascido em França que convive durante toda a vida com cabo-verdianos. Por causa dessa convivência, Atim conseguiu não apenas dominar perfeitamente o crioulo, como também inclinar-se completamente para uma “vida artística crioula”. Ou seja, grava o seu primeiro disco com músicas cantadas grande parte em crioulo, com músicos também quase todos de Cabo Verde, e como título para o seu disco de estreia exibe “Tudo pa Bó”: um título que diz tudo, afiança.


A última música do CD de 19 faixas é um Funaná, e será certamente o sinal mais indelével que retrata ATIM como um caso sério de crioulização. Algo muito para além da constação “morabi” para o povo destas ilhas.

O Candidato

O Ministro das Infraestruturas, Transportes e Telecomunicações, Manuel Inocêncio, já sorri mais diante das cameras de TV, apresenta-se mais solto. Substituiu as gravatas clássicas para umas de seda, deu grandes entrevistas assumindo-se como candidato do PAICV. É ele que todos os dias aparece na televisão devidamente acompanhado pelo Primeiro-Ministro a inaugurar troços de estradas, pontes, portos, aeroportos em todos os cantos do país. Sobre ele, José Maria Neves disse: "Nunca um homem trabalhou tanto por Cabo Verde como este ministro". Sem considerandos de ordem subjectiva, ele é o Candidato do partido tambarina para os próximos embates presidenciais!

Os dias

Os dias fazem-se como o pão no forno: é esta simplicidade profunda que me fez cair de amores por Pablo Neruda, e aprender a ser vigilante para com o pão e cuidar sempre do forno.

11 de novembro de 2010

Chico é prémio PT 2010

























(…) A MEMÓRIA É DEVERAS um pandemónio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto (…)


Este é um passeio pelo enredo de “Leite derramado”, último livro de Chico Buarque. Quando terminei de o ler balbuciei para os meus botões: espectáculo! Assim reajo quando um livro me extravasa as expectativas. As latitudes que me prenderam: a forma como o autor conta o percurso de um país, (O Brasil) através das memórias de um velho aristocrata decadente, num monólogo absoluto, nele despontando a narrativa.

Num leito do hospital do Rio de Janeiro, um velho da linhagem D`Assumpção, genealogia de família tradicional, resiste em desperdiçar os seus últimos dias como um anónimo e decide contar as suas lembranças a quem o quisesse ouvir - os médicos, a enfermeira a quem chega inclusive a prometer casamento e à filha que o manda internar, entre outros.

O velho Eulálio, narrador e protagonista, por sua vez, escolhe um alter-ego, a esposa Matilde, de quem guarda as mais belas e tristes recordações. Igualmente, retive como brilhante o retrato de todo o fausto e requinte vivido entre Brasil e Europa, passando pela política, pelas relações entre classe e raça, em que o amor de Eulálio e Matilde fenece com a sensação de desolação eterna e absoluta. Diz o texto que Matilde foge, se apaixona por outro, morre num manicómio… enfim, meandros da imaginação de um velho derrotado pela vida.

“Leite derramado” não é (auto) biográfico. É narrativa existencialista. Com tudo o que de realista e de fantástico se nos empresta a existência. As lembranças do velho Eulálio são desconexas, anacrónicas sem o mínimo esforço cronológico, mas a sua força psicológica é existencial.

Chico Buarque reafirma, neste romance, que, para além de conhecedor profundo do processo histórico brasileiro, é um “caçador de heranças” culturais, sociais e familiares. Ironizando sobre o manancial das heranças com que promove o seu processo criativo, ele próprio diria que “tenho uma mãe centenária”, o que, na minha opinião, mexe com qualquer pandemónio da memória.

nota pura: texto publicado neste blog em julho de 2009. Leite Derramado acaba de ganhar o Prémio PT Literatura 2010

O jornalismo e as legislativas de 2011

















1. Os dois maiores partidos cabo-verdianos estão, há meses, em campanha eleitoral valendo-se, ambos, de todos os meios a seu dispor: tempos de antena, comícios, festivais, inaugurações, programas institucionais na televisão, facebook, autodoors, tudo… Sobre este momento particular do cenário político nacional (os dois partidos se declararam publicamente em campanha), nunca se ouviu uma única palavra (pedagógica que seja) da Comissão Nacional de Eleições.

2. Por esses dias, entretanto, essa mesma comissão está a ministrar uma formação à classe jornalística. A ideia, segundo a presidente da CNE, é ajudar os jornalistas a melhor fazerem o seu trabalho que, segundo diz, não se trata apenas de informar, mas também orientar as pessoas para o voto consciente. O facto é que os jornalistas já começaram a perder terreno no seu desafio de “orientar”, senhora presidente, simplesmente, porque os cidadãos cabo-verdianos já estão a ser bombardeados por quezílias eleitoralistas, antes da hora, pelos partidos políticos e pelo próprio governo. A dita formação, além do conhecimento das leis, reserva algum capítulo sobre essa questão??!!


3. Num certo parâmetro, é no mínimo caricato termos uma sala de jornalistas a ouvirem de uma jurista qual deve ser o seu papel na cobertura de umas eleições, sabendo todos que os critérios em jogo devem ser estritamente jornalísticos.

4. Mais estranho ainda, é pensar que o grosso desta mesma classe que necessita de “conhecer noções sobre as leis” para fazer o seu trabalho, está classificada em 26º lugar no relatório dos Repórteres Sem Fronteira, no quesito Liberdade de Imprensa, tendo ficado à frente de países como Portugal, Espanha, Itália e outros.


5. O que os jornalistas e alguns órgãos precisam para fazer o seu trabalho no sentido do voto consciente, como pretende a presidente da CNE, é de ambiente e de espaço: um ambiente que está a ser, a cada dia que passa, sufocado por propaganda e desinformação; um ambiente que não dilua a informação jornalística; um ambiente que propicíe um espaço crítico e coeso de informação e debate. Um ambiente que diga não à propaganda e a toda e qualquer tentativa de manipulação da informação. Sem esse ambiente, e sem esse espaço, o conhecimento das leis não passa de cansaço e número da CNE.

6. Finalmente, a ONG Repórteres Sem Fronteira terá de rever a sua lista de questionários, porque, pelo desenrolar da situação, estaremos a ocupar, qualquer dia, o 1º lugar na lista dos países mais livres do mundo.

9 de novembro de 2010

SETEMBRO





















Repentina trovoada de Setembro
e depois chuvas exaustas;
ainda na praia a corrida
juvenil das ondas;
o abandono dos medronhos caídos
e um súbito olhar grave dum filho de dois anos;
vinhas que sangram,
uvas caminhando para o seu fim;
algumas folhas que descem
e as árvores, como as flores, esperando
a partida silenciosa dos insectos
e o sopro de uma breve chegada.

António Osório

3 de novembro de 2010

Filhos da diáspora...


Interrompe a universidade onde fazia um curso de gestão de empresas, sem, no entanto, desligar-se do mundo musical que conheceu na adolescência; dá um tempo nos estudos, grava o seu primeiro single, e ruma a Cabo Verde para conhecer a terra dos pais, e apresentar-se aos crioulos no show do Akon.
Falamos de Chris Barbosa, um filho da diáspora, mais concretamente dos Estados Unidos. Os pais são do Fogo, e ao contrário do tendencial, Barbosa é pouco fluente em crioulo.
O primeiro CD do jovem músico intitulado “Grown” estará pronto ainda este mês. Um CD que nasce de um laboratório de emoções musicais protagonizado por Barbosa e outros jovens americanos: Fine Print Music, um projecto de escrita e catalogação de composições para géneros, estilos, e ritmos variados.

“Meu primeiro álbum... sairá entre 15 e 17 de Novembro... nessa semana. Já tenho um single com três canções: "Hear that song", "So fine", e "Dance with me”, o mais novo. Vai ser um bom álbum, terá uma música zouk, em crioulo, que ainda estou a terminar de escrever”, disse-nos.

“Grown” é um álbum de Rithm and Blues, com incursões em inglês e crioulo. "Hear That Song" ... aqui.



Delano...


















Delano Barbosa é irmão do Chris Barbosa. É a terceira vez que visita a terra dos pais, fala um crioulo de forte sotaque foguense. É actor, vive em Nova Iorque, onde faz cinema e teatro. Paixão que agora decidiu conciliar com a música. O seu primeiro CD intitulado “Descubrin” sai em Janeiro do próximo ano. “Descubrin nha alma, nha persona: um conceito ambíguo, ku significadu filosófico e físico, sexual até”, descreve Delano. Zouk, Rithm and Blues, em inglês e crioulo são o forte do álbum.

Como actor, Delano Barbosa é dono de uma força expressiva notável, e uma fina sensibilidade que fazem dele uma grande promessa cénica. Confira aqui...

20 de outubro de 2010

Caetano Veloso canta "You don't know me" com Karina Zeviani.



nota pura: "you don´t know me" and "you´ll never get to know me"

A propaganda, o prestígio, a reacção bomba, e o salve-se quem puder

máscara partida




















Semanas antes do debate parlamentar sobre o Estado da Nacão, numa investida de propaganda sem precedentes, o Governo produziu programas televisivos mostrando trabalhos de ministério a ministério; na mesma senda, os embaixadores (na contramão da diplomacia) apareceram no programa palaciano, em fila de rosário, tecendo rasgados elogios a Cabo Verde, sub-entende-se governação de José Maria Neves. Em toda essa empreitada, não adivinhava o governo que estava a dar um tiro no pé (em democracia actos do género são um tiro no pé, porque a reacção não tarda e o efeito se desarma). O mais insólito desta sanha política foi a ideia de eleger os embaixadores como vozes da legitimação do sucesso governativo, e eco do prestígio internacional. Algumas embaixadoras ainda hoje aparecem na imprensa, mais do que qualquer ministro, candidato, artista ou cidadão deste país...
O fim da missão da embaixadora dos EUA contribuiu para diminuir a intensidade do desfile. Em nenhuma outra missão da sua vida futura, Marianne Myles dará tantas entrevistas. Justiça seja feita à contenção da diplomacia francesa.

Resultado: em reacção, e num mato sem cachorro, o MPD encheu o país de outdoors estatísticos sobre a pobreza e outras denúncias, terá ligações ao bombástico JÁ, um semanário de distribuição gratuíta, inaugurou sites e rádios de campanha; organizou na Praia o festival da Constituição (o primeiro) e já anunciou o segundo, desta feita em S.Vicente, na Rua de Lisboa, cujo programa citamos: Cordas do Sol, Tucim Bedj, discurso de Carlos Veiga, e Boss AC.

Mais: Carlos Veiga apareceu terça à noite num tempo de antena sui generis, a condizer com a conjuntura de insólitos, demonstrando a sua orgulhosa cumplicidade "com a metrópole”. Apareceu ao lado, primeiro, de Marcelo Rebelo de Sousa, figura incontornável em Portugal, conhecida por uns dez grãozinhos de cabo-verdianos, depois, em conversa com alguns autarcas lusos; câmaras que tradicionalmente dinamizam geminação com autarquias nacionais, e/ou acolhem números expressivos de cabo-verdianos. Estes, tecendo rasgados elogios à figura do líder ventoinha, e “confirmando” “a sua boa mão governativa”, como aquela capaz de transformar, de facto, Cabo Verde. De Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, ouviu-se que Carlos Veiga é um homem concreto, pouco dado a marketing, um homem de acção.

A guerra eleitoral está aberta, e salve-se quem puder!

7 de outubro de 2010

Vargas Llosa é Prémio nobel de literatura

vargas Llosa


















"Acreditava que havia sido completamente esquecido pela Academia Sueca. Nem sequer sabia que o prêmio seria entregue neste mês", disse Vargas Llosa à agência sueca "TT"."A verdade é que foi uma surpresa muito grande (...) pensava que era uma brincadeira", disse Vargas Llosa, que está nos Estados Unidos, em declarações à radio peruana RPP.

Segundo o filho do escritor, Álvaro Vargas Llosa, o pai foi informado oito minutos antes do anúncio oficial em Estocolmo e "duvidou até o último momento". "Nunca mais teremos que responder àquela maldita pergunta: por que o Nobel de Literatura nunca é entregue a Vargas Llosa?", comentou.

in Folha Online

6 de outubro de 2010

Para quem pensa em regressar...

miguel torga






















Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! Minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!

Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.

REGRESSO: Miguel Torga

4 de outubro de 2010

Emancipate yourselves


























Provoca imensa confusão acompanhar análises de alguns comentaristas nacionais, entenda-se, cabo-verdianos, inseridos neste Continente, o africano, que passam a vida a referir que isso ou aquilo está a ser defendido por grandes analistas europeus e americanos, e que por esse motivo são situações dignas de crença e abraço.

Nós, mortais crioulos, alguns com acesso àquilo que dizem os analistas lá fora, queremos ouvir e fazer o nosso juízo a partir daquilo que o digno comentarista nacional formula; olhares construidos de um comentarista que não se deixa abalar por aquilo que se escreve ou se diz nos jornais, televisões, ou "grandes" agências internacionais.

Apenas para reforçar que o debate sobre a “invasão” chinesa vers l´afrique precisa ser tematizado e esmiuçado, de forma desabrida, à luz das vontades locais, nacionais, e regionais, e não estribado no desespero de analistas, crenças e governos europeus que temem perder o seu quinhão africano. Em relação a um país como Angola, por exemplo, onde a investida chinesa foi uma opção clara, li e apreciei algumas vozes críticas sobre o assunto, e não eram meras reproduções daquilo que se escreve em jornais "da metrópole".

"Pensar com as suas próprias cabeças" foi o grande desafio de Amílcar Cabral àqueles que sonharam e ainda sonham com uma descolonização plena. "Emancipate yourselves from mental slavery", porque "None but ourselves can free our minds", entoou, mais tarde, Bob Marley.

1 de outubro de 2010

Quando a propaganda invade o campo simbólico do jornalismo

falsa democracia



















... existe uma relação simbiótica entre jornalismo e democracia, residindo no núcleo dessa relação o conceito de liberdade, fulcro do desenvolvimento do jornalismo. (Nelson Traquina)

À luz da afirmação acima, pergunto: com que liberdade “o jornalista” (ou aquele que invade o seu território simbólico) faz perguntas num tempo de antena partidário? Entendendo o perguntar como um recurso fiscalizador, de interpelação com vista a um melhor esclarecimento da opinião pública, e colocando o jornalista na bancada do contra poder.


1. Quinta à noite, numa tentativa forçada de imprimir ares de confronto num espaço de propaganda do PAICV/Governo (as margens são tênues), o “ideólogo” da peça brindou aos cabo-verdianos com um tempo de antena encapotado de jornalismo. Por duvidar de que se trata de um recurso puramente estético, e por defender as balizas de uma comunidade interpretativa, a jornalística, numa sociedade que dela bem precisa, partilho livremente a minha opinião sobre a matéria. Senão vejamos: em vez de o Primeiro-ministro/presidente do PAICV, se assumir, em parâmetros, como o emissor da mensagem, eis que aparece um entrevistador, que aos olhos do telespectador comum é um jornalista, com perguntas sem rasgos sobre o desemprego, a pobreza, e outros temas da governação.

2. Perseguindo a mesma linha de confrontação, sempre necessária em democracia, aproveito para lançar um repto à Associação dos Jornalistas e à Comissão de Carteira Profissional: fiscalizar os “jornalistas” que já estão no terreno a fazer recolhas para o tempo de antena dos partidos, e depois aparecem em programas dito informativos. Da AJOC, ainda que a título de luz no fundo do túnel, espera-se um sinal para os tempos ambíguos que se avizinham.

3. Finalmente, dizer que não sou contra a propaganda, e muito menos ao facto de os partidos trabalharem a sua imagem para se mostrarem de forma mais tragáveis aos olhos do eleitorado. Que assumam os procedimentos e a linguagem, e não persistam nessa camuflada invasão de campos, (adoptando???) um ethos (o jornalístico) para confundir a opinião pública.

30 de setembro de 2010

Liberdade

Example
























Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.