15 de maio de 2007

Sarará Criola


Uma voz quente
Uma artista versátil
Uma forte personalidade

Sandra de Sá entoa samba, blues ou jazz with equal intensity.
Actua este domingo no Festival de musica da Gamboa, na Cidade da Praia.

14 de maio de 2007

Ainda...


Começo de novo
Me lanço do zero
Percorro como que por inteiro
O incerto

Espero
Querer de novo

E quero
Ainda mais um pouco

Eu voo
Ainda sob o mesmo tecto
Ainda sobre aquele mesmo sonho.

Imagem:Femme Couchee, Picasso ... Letra: Ainda, Adriana Calcanhoto

12 de maio de 2007

E la nave va


Tatarana fica entre nós e "se crioliza" de vez com a Ilha nua. Pasqualino tem driblado os afazeres em Roma e dado as caras, com poesia à mistura. Albatroz remodela hermeticamente o blog, que brevemente completa mais um ano de vida. Kamia fez uma paragem, será da coceira nos dedos? Son di Santiagu prossegue com raça…O blog do Paulino recebe uma cartinha.

Ensaia-se uma ala marginal, inspirada no poeta Mário Fonseca. E la nave vá…cheia de poesia.

11 de maio de 2007

Conversa com o missionário


Aprecio o silêncio de certas ilhas, como de S.Nicolau e da Brava, e é precisamente nesses lugares onde, por razões pessoais, tenho tido maior contacto com a fé, particularmente com alguns padres.

O dedo de prosa que tive com o Padre Mauro, de 88 anos de idade, 45 em Cabo Verde, foi particularmente fascinante. Desta feita, fomos além do mero cumprimento e a nossa troca de ideias fez brilhar os olhos desse eterno habitante do Seminário-Liceu.

Um pouco da sua fascinante trajectória. Padre Mauro saiu da Itália numa missão dos Capuchinos para a Ilha do Fogo com apenas 30 anos, em Março de 1949. “Vim num barco mercantil e o meu primeiro contacto com Cabo Verde aconteceu em S.Vicente”. O cenário de desolação foi o primeiro choque, diz. Não saiu do barco, e na noite de 31 de Março seguiu para a Praia onde foi recebido pelo bispo hesperitano, D. Faustino Moreira dos Santos. Da Capital rumou para S.Filipe numa embarcação de nome Senhor das Areias, a 8 de Abril de 1949.

À chegada em S.Filipe estava a ser aguardado pelo padre Luis, que vivia nos Mosteiros. “Foi a primeira vez que andei numa mula”, conta. Foram dois dias de viagem, de S.Filipe para os Mosteiros.

Esse missionário lembra, com detalhes, a erupção vulcânica, ocorrida a 12 de Julho de 1951. O agente agrícola na Ilha, Sr. Leonel, o administrador, Sr. Luis Rendall, e os reverendos Piu e Luis foram as primeiras pessoas a prestarem socorro aos sinistrados de Chã das Caldeiras. Conta, em tom jocoso, a saga dos trabalhadores que tiveram de abrir a estrada depois da erupção e que, na hora da merenda, aqueciam a comida nas lavas.

Ah, antes que me esqueça! Ele remata também que, na época, só existiam três automóveis na Ilha do Fogo, e que nos Mosteiros, onde vivia, não chegou a ver carro algum. Havia um velho camião que pertencia a Sr. Augusto Vasconcelos, precisa.

Do Fogo, o Missionário viajou para a Ilha do Sal, onde chegou a celebrar o centenário da Nossa Sra da Piedade, em Santa Maria, com a saudosa presença do Sr. Bonafoux, o empresário da Salins du Cap-Vert. Essa capela, afirma, foi construída por um senhor conhecido por Duro. Permaneceu no Sal por 5 anos, num tempo em que as missas ainda eram rezadas em latim.

Esteve também na Boavista, por 4 anos.

Para S. Nicolau veio em dois tempos diferentes, perfazendo ao todo 23 anos, e é aqui, no silêncio da Vila Ribeira Brava, que pretende passar os restos dos seus dias.
Foi uma conversa onde se juntaram o passado e o presente. E as recordações fizeram-se naturalmente. “Gostava das pessoas. Tinham um respeito ilimitado para com os padres”, afirmou. “Havia uma radicalidade de fé no povo”.

Transcrevo estas linhas soltas, tal como saíram da boca do Missionário. Ele teve necessidade imperiosa de as contar. E eu um grande prazer de as escutar. Pairando nesse diálogo, o élan do silêncio de certas ilhas…

8 de maio de 2007

Parabéns Tatarana

Pelo número reduzido de blog´s cabo-verdianos, acabámos, juntos, por ser uma espécie de família em versão digital. Somos amigos, ou pelo menos ensaiamos simpatias, na Internet e fora dela. A esta, ainda pequena família, pertencem blog´s de outras paragens por sintonia programática e de estilo. E é por essa e outras razões que o Tatarana pode ser considerado um blog crioulo, e merecer o nosso olhar carinhoso. Além do blog, em si, há muito que Cabo Verde tem sido pano de fundo dos escritos de Jorge Marmelo (literários e jornalísticos). O seu último romance “Aonde o Vento me levar” é um exemplo.

Tatarana já passou por paragens, revoltas, indecisões e até agonia… mas vai resistir, tanto é que amanhã completa quatro anos. Parabéns!

Para os desprevenidos, vale alertar que o presente silêncio do sítio distancia largamente da escrita mordente e incessante do autor. Além do que já se sabe, haverá vida, brevemente, numa outra ilha… mais nua.

O descanso dos homens


A felicidade está onde a pomos.
É preciso reentrar no paraíso.

Pequena, animosa mata de ulmeiros.
Bolbo vivaz de begónia.
Um abraço. Beijo
que não finda suas dinastias.

O império de só matar a sede.
A sombra que um cego ainda descortina.

imagem: matisse&picasso ... poema: antónio osório

7 de maio de 2007

A incandescência de uma revista de letras













A ideia de que o Movimento Claridoso tenha sido uma espécie de independência cultural da Nação, partilhada hoje pelos maiorais da política cabo-verdiana, parece conter uma espécie de enigma.
Este posicionamento será estrutural ou conjuntural? Haverá unanimidade em relação à essencialidade das premissas Claridosas?

Será que a Cultura Cabo-verdiana, já portadora das matrizes e matizes próprias, muitas delas seculares, teve de esperar vários séculos para dar o seu “Grito de Ipiranga”, apenas nos anos trinta do século vinte?

A diluição da África (?) no paradigma claridoso e o hibridismo político-odeológico da identidade crioula como fenómeno implícito no resgate da claridade são os questionamentos pilares da terceira edição do programa “Claridade Incandescente”. Esta Terça-feira, após a telenovela, com repetição no Domingo.

Claridade: a incandescência de uma Revista de Letras ou de um Movimento Cultural? Jorge Carlos Fonseca, Carlos Reis e Abraão Vicente respondem.

e-mail

Inicial


O DIA NÃO é hora por hora,
É dor por dor ...

Imagem: Magritte
Poema: Neruda

3 de maio de 2007

Sobre a música

ExampleNotícias que fazem história (A música de Cabo Verde pela imprensa ao longo do século XX) é o título do mais recente livro da jornalista e investigadora, Gláucia Nogueira, a ser lançado hoje.
A obra resulta de uma compilação de textos publicados em jornais cabo-verdianos, entre 2002 e 2006. Os personagens da música, os avanços tecnológicos, e alguns momentos áureos da música nestas ilhas enformam o trabalho que resulta de uma longa investigação da autora, no âmbito do projecto Dicionário dos Personagens da Música Cabo-verdiana, na forja.
As notas do jornal Noticias de Cabo Verde que dão conta em Julho de 1931 e Junho de 1933 dos lançamentos dos primeiros discos em Cabo-Verde, ou a informação que dá a conhecer o primeiro autor (Jacinto Estrela) de fotografias publicadas num jornal de Cabo Verde são algumas curiosidades que ilustram a importância desse livro.
O fenómeno dos festivais, as relações de Cabo Verde com o Brasil, e o percurso das bandas e de alguns símbolos da nossa música podem, também, ser melhor compreendidos depois da leitura da obra.
Outra nota, vai para a escrita respirável da autora que, com rigor, urde, em perspectiva musical, uma importante parcela da história de Cabo Verde.
O livro será apresentado, às 18:30, no Auditório da Garantia (entidade patrocinadora) pela Historiadora, Zelinda Cohen.
Gláucia Nogueira é brasileira e exerce o jornalismo desde a década de 80, com forte incidência no domínio cultural. Na década de 90, inicia um aturado trabalho de investigação sobre a música cabo-verdiana, nas suas múltiplas vertentes. Paralelamente a isso, a Jornalista é estudante de Antropologia e acaba de integrar a equipa da Universidade de Cabo Verde na qualidade de Assessora para a Imprensa.

27 de abril de 2007

Esperemos

Há momentos sem sentido que fazem todo o sentido. Nessas horas, leio o meu outro poeta:
Há OUTROS DIAS que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias e das oficinas
- há fábricas de dias que virão

Pablo Neruda

25 de abril de 2007

De tudo

Não falo dos versos... só depois... depois de tudo.

Blog

Nos últimos dias andei um pouco distante da net por razões várias. Para começar, a conexão está lentíssima em Cabo Verde por causa do corte do tal cabo. À par disso, outros afazeres têem-me consumido energias saudáveis de que preciso para aqui estar por inteira. Nessa distância veio-me à lembrança as trocas de ideias muito participadas que aconteceram por uns bons tempos entre blogueiros, principalmente os de cá. Alguns anónimos, outros não, o famoso Pasqualino Settebellezze (de quem confesso saudades), e muitos outros. Este meu desabafo pode ser entendido como um convite à retoma da partilha e à troca saudável de ideias (dissonantes, porque não!?). Se criamos um blog é porque nos motiva, nos dá gozo e temos algo a dizer.

Eco

Porque o silêncio e a calma das horas solitárias
da noute sem vento e do mar sem ondas
como que fazem despertar
no fundo do meu ser
o eco silencioso
de vozes suspensas
e de aflicões esquecidas

Jorge Barbosa

12 de abril de 2007

Desolação


Em Outubro do ano passado conheci a italiana Laura Spronacci e encantou-me a sua paixão por Cabo Verde. Era uma jornalista com longa experiência na área desportiva, e fez toda a sua carreira na televisão. Enquanto tal vinha com frequência a Cabo Verde.
Dizia que a sua paixão por estas ilhas nasceu num primeiro olhar. Depois de reformada fez as suas malas e veio.

Conheci-a numa festa na sua Gruta - um empreendimento ousado e funcional erguido na Cidade Velha. Depois desse dia escrevi este post. Não quis acreditar quando li aqui a notícia da sua morte. Hoje, recebo um comentário de Kidjak a querer esclarecer a dúvida. É sim, trata-se da mesma pessoa: Laura Spronacci. Que a sua alma descanse em paz. Mais não digo...

11 de abril de 2007

Reminiscências


foto daqui
Choca-me a notícia da chegada de mais uma embarcação clandestina às ilhas Canárias, cheia de africanos, inclusive mulheres e crianças. Esse facto faz-me lembrar a escravatura. A empreitada mais desumana que o mundo já assistiu, e que deveria ser considerada a maior vergonha mundial de todos os tempos.
Ainda hoje, esses barcos negreiros continuam a circular. Os seus capitães e passageiros são interceptados em alto mar. Tal gente nem chega a conquistar o que há cinco séculos foi possível: um porto.
Há coisas que chocam. Parafraseado uma ilustre caseira, “preciso descobrir o que me liga à escravatura”.

A ilha

Aproxima-se mais um 1º de Maio, data, para mim, mais do que dia dos trabalhadores, mas do padroeiro da cidade que me viu nascer. Assistir à missa e à corrida de cavalos eram as únicas actividades que, enquanto criança, estavam ao meu alcance. Lembro-me da festa que era a chegada de gente da Praia, e principalmente dos grupos musicais, ora Gama 80, ora Bulimundo, ora Finaçon.
Outra novidade eram os famosos “carros gaiola” para prender “piratas” que chegavam da Praia, acompanhados de reforço policial. A chegada dos cavalos, principalmente de Santo Antão e S.Vicente, igualmente fazia parte da movimentação de San Filipe. A dinâmica das barracas nas feiras era diferente, mais saudável e mais festiva. Lembro-me de padres a venderem nas barracas das Cáritas. Hoje, não consigo imaginar um padre nos bailes do Presídio.
A idade não me permite muitas ginásticas remanescentes, mas lembro-me do almoço no Instituto da Solidariedade e da movimentação, verdadeiramente popular, que ali se dava.
Depois de 91, tudo mudou. Pela primeira vez, nesse ano, dois grupos musicais se deslocaram ao Fogo e num acto insólito aconteceram duas feiras - uma do MPD na praça do Presídio e outra do PAICV no Instituto. Era o que se dizia à boca pequena e o alinhamento dos militantes e simpatizantes veio a comprovar isso.
Nos anos seguintes, as feiras duplas não se repetiram, mas nada ficou como dantes. Estranhamente, as conhecidas vozes do Movimento para a Democracia na Ilha, deixaram de participar nas Festas de S.Filipe. Depois de alguns anos de ausência, passei a frequentar com alguma assiduidade à Bandeira, e constactei a continuada descaracterização. Reparei também que são poucos os residentes que participam no almoço do grande dia, uma festa só para convidados. A bandeira de S.Filipe nasceu numa sociedade escravocrata e fortemente desigual. Factos que não podem ser perpetuados, em nome da tradição. Ninguém deve sentir-se dono da Bandeira de S.Filipe, e nem à margem dessa festa que é de todos nós.
1º de Maio é uma data que interpela a todos os filhos do Fogo. E, por arrastamento, a todos os cabo-verdianos.