
1. Some Kind of Funny Porto Rican. A Capeverdean American Story. Não falarei da opção estética que poderia ser tanta e inumerável para uma realizadora do calibre de Claire Andrade-Watkins. A própria faz-se de narradora e, de certa forma, personagem deste filme (cabo-verdiana americana de segunda geração). Parte da sua casa, da sua família e das suas inquietações profundamente existenciais para nos contar uma história emocionante da diáspora cabo-verdiana. Localiza Cabo Verde como espaço de identidade, narra traços fundamentais da sua história e enquadra a conjuntura socioeconómica da vaga da emigração de cabo-verdianos para os Estados Unidos. Os primeiros africanos a entrarem nos Estados Unidos fora do contexto migratório da escravatura. Lança um olhar sobre a América do século XIX, percorre os seus meandros, para depois centrar-se em Fox Point, pequena cidade no Estado de Rhode Islands - a Capverdean land. A vida desses crioulos portugueses, o trabalho, a sociedade, o lugar da música, uma malha da memória que não se reencontra jamais. O filme de Claire Andrade-Watkins é uma contribuição incontornável para a máxima da Caboverdianidade.
2. João Bosco (foto) actuou 18 de Março na Cidade da Praia, depois de o ter feito no Mindelo. Também não irei esmiuçar sobre este vulto da música brasileira. Não tendo palavras, apenas ficaria pela evasão causada. Um espectáculo memorável, cheio de poesia, palavras tácteis, boa energia e memória. É o próprio a dizer que de um povo fala pela forma como preserva e reaviva a sua memória. Aliás, o que me fascina em muitos nomes do Brasil, onde se inclui Bosco, é a forma generosa e decisiva como cantam os seus. João Bosco vindo a Cabo Verde, nos lembra Tom Jobim, Elis Regina, Dorival Caimmy, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e fá-lo numa preocupação de conjunto cultural muito para além da pura performance musical, transcendendo o canto. É um artista que convida, provoca e subverte, com profunda inquietação. Daqueles que acreditam que a vida é uma viagem de todos. E para todos. Não esquece nem da pedra (símbolo primordial), e rende homenagem aos cabralinos poetas da pedra, os do Brasil. Seria bom que ele regressasse à casa com a memória dos nossos poetas da pedra, temo-los muitos. Um deles, inclusive, cantou a pedra no seu mais recente disco - Mário Lúcio, nosso Ministro da Cultura. João Bosco continua na estrada de Manuel Bandeira e Jorge Barbosa. Essa nuance é que não se pode evadir.
3. O Governo novo toma posse segunda-feira. O ideal seria saber o que genuinamente pensam os cabo-verdianos desta nova proposta de José Maria Neves. O povo é quem mais ordena, como rezaria a emblemática canção portuguesa. Entretanto, sendo praxe, ficam os cem dias de graça para a serenidade de todos…







