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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2007

O silêncio dos "nossos" inocentes

Assisti, domingo, acidentalmente, ao último episódio do programa "Grandes Portugueses" exibido há seis meses pela RTP. Retive duas frases particularmente fortes, ditas por duas participantes: "De facto, não é fácil ser-se Fernando Pessoa no país do Salazar" (apoiante de Pessoa), e "Este programa é um branqueamento do fascismo" (apoiante de Álvaro Cunhal).
Ao ver o programa lembrei da luta do meu amigo Fernando Conceição, no Brasil, a reivindicar uma indemnização para os afro-descendentes brasileiros. O mesmo solicitava também a redenção de Portugal e do Brasil, mercê da escravatura. É com tristeza que constatei como se torna cada vez mais utópica a luta do Fernando. Entrementes, a vítimas do Holocausto nazi têm sido indemnizados…
Foi um programa tenebroso, do meu ponto de vista, com António Oliveira Salazar a ser eleito o maior português de todos os tempos, numa final onde figuravam nomes como Vasco da Gama, Marquês de Pombal, Luís de Camões, Fernando pesso…

Jardim

...
Sinto, quando me dás
tua mãos, como se um limo
que rouba sol à água,
manchasse meu espírito.

Sentes, quando te dou
minha mão, como se um vivo
rio de claridades
limpasse teu espírito?

Juan Ramón Jimenez

Nação Crioula

A Globalização colocou em crítica e em crise o modelo de Estado-Nação. Um pouco por todo o lado, o debate sobre a ideia da Nação e seus conceitos derivados, tais como nacionalidade, identidade nacional, nacionalismo e etc, tem vindo a ganhar ímpeto e impulso. As nações saídas de um colonialismo recente precisam deste debate. O facto de terem passado por experiências traumáticas, como a escravatura e a fome, torna imperiosa tal catarse. E as nações crioulas, oriundas da mestiçagem racial e étnica, não se podem furtar à busca incessante das suas componentes, em prol de uma sublimação de traumas e fantasmas. Entre nós, o debate sempre existiu, algumas vezes de forma espontânea, outras vezes de forma organizada, mas nunca de jeito desinteressado. A busca da nação crioula, perdida quem sabe nos meandros do nosso inconsciente colectivo, tem suscitado muita tensão entre os nossos intelectuais.
Li, com interesse, a reacção crítica do Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Reis, sobre o livr…

Aly Keita e CCF

Certamente que muitos se lembram do balafon desse senhor. Ali Keita participou no Fesquintal de Jazz, na Cidade da Praia, em 2002. Hoje à noite actua no Tabanka Mar ao lado do saxofonista francês, Vincent Mascart, e do baterista argelino, Karim Ziad. É mais um griot (contador de histórias), desta feita da Costa do Marfim, que se associa, assim, ao Jazz na Cidade. Um evento de grande valor que o Centro Cultural Francês promove quinzenalmente há quase um ano. Na semana passada, numa parceria entre o CCF e o Festival Março mês de teatro assistiu-se, na Praia e no Mindelo, ao memorável show de um outro griot senegalês, Ablayé Cissoko. Esses dois músicos que entoam histórias e lendas fazem parte de um claro movimento de resgate e reelaboração de ritmos tradicionais africanos, visível na última década.

Não seria inoportuno destacar aqui o papel definidor da agenda cultural da capital, assumido, paulatinamente, pelo Centro Cultural Francês (CCF), com o merecido mérito para o seu director, Dav…

Da escravatura

(…)

Por quê, de todos os países implicados na venda de carne humana – a exemplo da Inglaterra, da França, da Holanda, da Espanha e mesmo Estados Unidos da América -, Brasil e a sua contraparte, Portugal, são os mais recalcitrantes no aceite à sua culpa, não apenas moral mas econômica, sobre as condições miseráveis impostas aos afro-brasileiros? Será por que as elites de mando nesses países, e particularmente no Brasil, trabalham com a hipótese da amnésia como componente fulcral da memória histórica que marca a nossa trajetória social?

Passa da hora de o país que até por volta de 1880 mais importou e se utilizou do comércio e da mão-de-obra escravas da África para se constituir como Estado (Brasil, hoje uma das mais importantes economias emergentes do mundo capitalista), ser chamado à responsabilidade de que tanto se esquiva. Acionar nos tribunais locais e cortes internacionais tanto o Brasil quanto Portugal, inclusive setores econômicos privados e públicos herdeiros do tráfico, exigindo…

Soncent... de tudo um pouco

São Vicente vive um momento interessante. Quase um revivalismo claridoso, embora hoje em dia a dinâmica cultural, mesmo aquela cosmopolita, se tornou multi cêntrica. A cidade do Mindelo, graças ao frisson do teatro em Março, obriga a um olhar curioso e crítico. Para além do Carnaval e do Festival da Baía das Gatas, o Mindelact é outra actividade que lhe adiciona selo de qualidade e toda a agitação inerente. O resto, são os ateliers dos artistas plásticos, os bares com música ao vivo e a convivialidade dos encontros na praça, aspectos que se transformaram no pitoresco do Mindelo. E, a par da pequena grandeza desta linda cidade, a grande riola do meio afinal pequeno, onde não faltam manifestações de bairrismo, ressentimento e saudosismo…
Um encontro promovido, esta semana, pela sociedade civil local agitou os ânimos, tendo como a bandeira a necessidade de preservação do património. Por cá se discute…
Não se fala de outra coisa, que não os artigos de Abrãao Vicente, artista plástico de San…

Simpósio

Em virtude da colisão das datas do Centenário do nascimento de Baltazar Lopes, em S.Nicolau, e do Simpósio sobre a Geração do Movimento Claridoso, na Praia, a realização deste foi transferida para os dias 27, 28 e 29 de Abril.

Tensão na Cultura

Alguns ruídos, aqui e acolá, revelam tensões e conflitos no sector da Cultura. Refiro-me ao sector público da Cultura, pois o campo cultural, dinâmico como é, revela-se saudavelmente conflitual. A polémica em torno da realização de um Seminário sobre a Claridade na Praia instalou-se nos últimos dias. Artigos de jornais, conferências de imprensa e bocas pelos bares da vida. Uns contra. Outros a favor. Há também os indiferentes, onde me incluo.
Antes desta última polémica, o edil de São Nicolau chamara atenção, com alguma propriedade, sobre a colisão das datas. Parece ter havido conciliação, pois consta que o Simpósio da Praia foi escalonado para fins de Abril e o dia do centenário de Baltasar Lopes será festejado na sua ilha natal. O que parece ter ficado em aberto foi a polémica entre Tito Paris e Manuel Veiga. O Ministro da Cultura não deveria ter escrito aquele artigo resposta. Fazê-lo não é bem a função do Ministro, quando tem um Gabinete para prestar certos esclarecimentos na impre…