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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2005

Teixeira de Sousa lança livro

“Nós pensávamos que seria sem dúvida mais aliciante se, por exemplo, o livro de Teixeira de Sousa tivesse como título "A última viagem do capitão Hilário Cardoso", afinal das contas o personagem principal do romance. Não só como dono do navio Nossa Senhora do Monte, como também, e sobretudo, um herói que, durante dois meses, luta e sofre no estreito e fechado espaço do seu camarote, entre o sagrado principio de se manter fiel à legítima esposa que o espera em S. Filipe, e as provocações de uma bela passageira que todos os dias inventa novas maneiras de tentar quebrar essa fidelidade persistente...”

Foi com estas palavras sugestivas que o escritor Germano Almeida começou a apresentar, no Mindelo, Oh! Mar de Túrbidas Vagas, último livro de Henrique Teixeira de Sousa. A obra é uma homenagem ao poeta Eugénio Tavares, não fosse o seu título o nome de uma das mornas mais belas desse ilustre filho de Cabo Verde. Foi por esta razão, está claro, que o autor não aceitou a sugestão da e…

Lírios

Uma casinha branca entre a verde espessura
A recordar de longe um navio do mar,
Ou formosa capela alvinitente e pura
A subir como uma ave ou uma núvem no ar;


Casto ninho de amor, alvo e perfumado, onde,
Em terna comunhão vivêssemos os dois
Ouvindo às tarde, quando o sol além se esconde,
O murmúrio da linfa e a voz dos rouxinóis…


Uma casinha assim é que ambiciono e quero
Para longe do mundo erguermos nosso lar,
Sob a bênção de Deus e dum amor sincero;

Uma casinha assim em plena solidão…
Dentro, alegres, os dois de ventura a cantar:
Eis, meu Amor, a minha última aspiração!

Pedro Cardoso, Lírios e Cravos, 1951

Parabéns, Mário Lúcio

É o selo dos encontros, desencontros e reencontros. O dono dos olhares todos que perpassam meras fronteiras materiais. Cultiva uma relação primordial com as divindades, e através delas se sente e se mostra na arte.
Os momentos dá, assim, os parabéns ao músico Mário Lúcio que num dia como hoje de 64 nascera na Vila do Tarrafal de Santiago.


Margarida: Quando lançou, no ano passado, o seu livro Vidas paralelas e o CD a solo Mar e Luz anunciou uma crise da meia-idade, e todas as implicações que daí advém. Continua, ainda hoje, nessa curva existencial?

Mário Lúcio: Continuo. Antes, os meus desassossegos tinham a ver com o tempo. Em Chã das Caldeiras apreendi uma nova noção do tempo e foi uma grande libertação. Partilho tais reflexões num livro ainda não publicado que se chama “Se eu fosse um cuco”. Hoje, os meus desassossegos têm a ver com o espaço, com os espaços pequenos, dentro e fora das pessoas. Às vezes até parece que nada valeu a pena, se o crescimento implica não caber mais.

M: Mário L…

TabankaMar homenageia Ildo

Uma gala intitulada “Nôs morna”, em homenagem ao malogrado Ildo Lobo, selou a inauguração do TabankaMar na noite de ontem. O espaço que marcou a vida da Prainha nos anos 70 e 80 renasce, em força, com uma proposta ousada. Promete movimentar a capital cabo-verdiana com música ao vivo, exposições e tertúlias literárias. Uma provocação.

A abertura do TabankaMar é um convite ao público praiense em apoderar-se, de novo, da Prainha e transformá-la num ponto vital das convivências da Praia Paixão Atlântica.

Um espaço agradável, vizinho do mar, mergulhado em cores e motivos sugestivos.
A noite de ontem funcionou, sobretudo, como um motivo para se recordar Ildo Lobo que num dia como hoje de 2004 nos deixava. As músicas que marcaram a sua carreira ecoaram das vozes de Tito Paris, Rosa Mestre, Djoya, Mirri Lobo, Albertino e muitos outros. Foi uma noite de emoções fortes, presenciada pelos familiares do malogrado, e por tantos outros que reconheciam no Lobo solitário uma das maiores expressões music…

Encontros

Iolanda de Pablo Milanez, fechou, sob o signo de mestiçagem, o encontro, na Praia, entre Mário Lucio e Luis Represas. Um encontro que resulta dos tantos desencontros que a vida nos proporciona. A própria mestiçagem, neste caso musical, na proposta de Luis Represas, nada mais é, do que uma síntese de um percurso de história, e de vivências.
O concerto UniVersus foi um momento de reencontro de povos, de cultura, de ritmo e de lugares. Tarrafal é revisitado com alma e espiritualidade na voz de Mário Lúcio e cruza com o sabor lusitano oferecido por Represas.
Filhos de Ogum e Oxum, Mário Lucio e Luis Represas selam no plano de suas divindades o cruzamento entre espiritualidades transversais que perpassam as especificidades espaciais, e reflectem os mil olhares do mundo.
O show de ontem confessou alguns lugares, outros nem por isso. Era preciso? Cada um viajou ao seu universo interior. Cuba de Pablo Melanez é, entretanto, assumidamente, um berço infinito dessas duas figuras.
O grupo de dança co…

Força de Cretcheu

Ca tem nada nes' vida
mas grande qui amor,
se Deus ca tem medida,
amor inda é maior,
amor inda ê maior
maior que mar, que céu
ma de entre otos cretcheu
di meu inda ê maior

Crecheu más sabe,
É quel que é de meu.
El é que é chabe
Que abrim nha ceu...
Crecheu mas sabe
É quel
Que q'rem...
Se já'n perdel
Morte já bem...

Ó força de cretcheu,
Abri nha asa em flor
Pam pode subi ceu,
Pam bá pidi simenti
De amor coma es di meu,
Pam bem da tudo gente,
Pa tudo conchê céu!

No dia nacional da cultura, Os momentos lembrou da canção de amor que encerra a dimensão lírica do nosso grande Eugénio Tavares. Uma força qualquer...

Recordar Eugénio Tavares

Eugénio de Paula Tavares nasceu na Ilha Brava a 18 de Outubro de 1867, filho de Eugénia Roiz Nozolini Tavares e de Francisco de Paula Tavares.
Foi um poeta popular e erudito que deu uma grande contribuição para Cabo Verde no plano do nativismo.
Enquanto intelectual, teve um percurso paradigmático do intelectual cabo-verdiano nos fins do século XIX.

Os estudiosos consideram Tavares um dos grandes cultores da língua portuguesa, trabalhada em suas diversas formas. Exímio na prosa e no verso, mas também como polemista consequente de panfletos cívicos e políticos, alguns dos quais explicam as perseguições que teve durante a vida.
Era igualmente um exímio, senão mesmo, uma figura modal no concernente à língua cabo-verdiana, sobretudo nas suas opiniões em prol da língua materna e nas suas composições musicais.

Eugénio Tavares considerava o reconhecimento da língua crioula, à par da portuguesa, como uma questão da cidadania. Um bilinguismo que simboliza, em todos os títulos, a complementaridade do…

Mayra: a global

A cantora cabo-verdiana, Mayra Andrade, residente em França, participa, no próximo dia 17, num debate sobre cultura na Associação Francesa da Acção Artística.
Pequeno país, pequena cultura? É essa a pergunta, no caso de Cabo Verde, que cabe à jovem artista responder. Nesse encontro estarão presentes personalidades da cultura de países como Bolívia, camarões, Arménia e outros.

O tema do debate gira em torno do papel das pequenas culturas na era global, em que as grandes indústrias e infra-estruturas culturais dominam o mercado. A globalização parece, na visão de muitos, aproveitar-se dos pequenos países. A penetração internacional da música, do cinema, e da literatura dos países pequenos será uma das preocupações do encontro.
A diferença entre um pequeno país pobre e um pequeno país rico é um outro debate que se impõe.

A Associação Francesa da Acção Artística foi criada em 1922, por intelectuais e diplomatas franceses, com a ideia de melhorar os contactos artísticos entre a França e os out…

Ela é linda

18 de Outubro na Brava

Tudo isso me parece uma luz no fundo do túnel. A que vai iluminar, não se sabe se de vez, a cinzenta ilha da Brava. A proposta do deputado do PTS, Jorge Silva, passou no parlamento, e 18 de Outubro – data do nascimento de Eugénio Tavares – é o dia nacional da cultura. Nesse dia começam as obras de recuperação da Casa de Eugénio Tavares, sita na Vila Nova Sintra. A mesma que em Junho passado recebia noites ”rijas” de festas de jovens bravenses, com a permissão da Câmara Municipal, claro!

O Presidente do Instituto de Investigação e Promoção Culturais – Carlos Carvalho, avançou na última edição impressa do A Semana que a ideia é construir igualmente uma estátua. De frisar que o único monumento erguido, até hoje, na Ilha, em memória de Eugénio Tavares, é o busto da praça central, construído pelos Amigos da Brava nos Estados Unidos.

Ainda no dia 18, vai ser atribuído, provavelmente, nas terras de Luís Loff de Vasconcelos (é bom lembrar) – falamos ainda da Brava – o prémio Cidade Velha. São v…

Viagem ao miolo de Cabo Verde

Foto: Jorge Marmelo
Cabo Verde não é África, lemos e ouvimos dizer por mais de uma vez. É capaz de ser certo. Mas “nun tardinha na kambar di sol”, conforme diz uma morna de B. Leza, vendo os rostos dos negros brincando na areia escura das praias da cidade da Praia, conversando com os camponeses que regressam das fazendas da costa Leste da ilha de Santiago, com as moças equilibrando baldes de água no alto da cabeça, ou deixando o olhar flanar pelos mocetões que fazem ginástica diante do mar da Laginha, no Mindelo, apetece que África pudesse ser toda como Cabo Verde. Pobre, é certo, mas também morna, amena, bela, sem pestes nem guerras. “Terra sabi”, como no poema de Joaquim Manuel Andrade.
Os turistas são como são. E, quando se lhes fala de Cabo Verde, imaginam, como se acometidos por um reflexo pavloviano, praias de areia branca e mar azul, habituados que estão aos folhetos turísticos dos operadores que instalaram nos arredores de Santa Maria do Sal uma cidade de hotéis e “resorts”, “bu…