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Mensagens

A mostrar mensagens de 2011

R.I.P. (1941-2011)

 

Analogias

O profeta Isaías deixou sinais
de que Jesus Cristo era o Messias.
Um oráculo, em Delfos, indicou
Sócrates como o mais sábio
dos homens. Nenhum deles escreveu.
Para quê? Tanto Platão como Paulo
são apologistas insuperáveis.
Os dois morreram de morte cruel:
Sócrates bebeu da taça, Jesus
foi trespassado por uma lança.
Ambos sabiam que a morte
não é o fim, o espírito supera
a carne. Cristo morreu
e ressuscitou. A morte
de Sócrates foi um mal-entendido.
Quem sonha é porque está vivo.

Arménio Vieira

Recordando Brecht

nota pura: Ganhamos quando ganham todos... é urgente rever Brecht!

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Ferreira Gullar

Os Dons...e o Poder

Ouvir falar de Mário Puzo - 1920 -1999, conduz invariavelmente ao Padrinho (a saga da família Corleone), romance, adaptado ao cinema pelo realizador, Francis Capola. A abordagem da máfia italiana é retomada no último livro desse americano de origem italiana, A Família. Uma obra que narra a vida da lendária família Borgia, mais centradamente do cardeal Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre VI). Um livro fausto e perturbante sobre os primórdios da máfia na Itália. Puzo, valendo-se do seu conhecimento da Itália profunda e da história (em colaboração com o historiador Bert Fields) e de um árduo trabalho de elaboração, deixa para a posteridade “um livro fundamental”. Em plena peste negra na Europa do Séc. XIV, com a população a ser dizimada, os homens começam a perder esperança no poder celestial e depositam a sua confiança no imediatismo terreno. Pertencer à igreja católica romana não era necessariamente sinónimo de profecia de fé e temor a Deus. Era um meio de exercer o poder, para o qual, con…

A queda do monolitismo?

(...) A novidade, a grande novidade, da candidatura apoiada pela ala de Corsino Tolentino é o facto de ela resultar do fim do aparente monolitismo existente no PAICV. Ao longo da história o PAIGC/CV habituou os cabo-verdianos a uma aparência de monolitismo quase absoluto. Problemas graves, poderiam ocorrer no seu seio. Divergências muito profundas poderiam existir, mas aos olhos do público cultivava-se uma unidade monolítica. (...)


Manuel Fautino

JMN afronta “intriguistas”

(…) Amílcar Cabral foi assassinadu pa dirigentis di PAIGC. Ê dirigentis di PAIGC ki trai i ki assassina Amílcar Cabral, na basi di o kê? na basi di intriga. Ê guentis ki ta fla Mi ê Amílcar Cabral, mi ê PAIGC, ami n ta difendi Cabral. Má ê xefi di ses segurança, xefi di se guarda costa, dirigenti di PAIGC, ki mata Amílcar Cabral; pamodi intriga, pamodi sedi di poder, pamodi ca rispeta scolhas ke fêtu pa Amílcar Cabral ki luta, ki da sê vida, da sê sangui pa Independência de Guiné i di Cabo Verde. E n crê pidi nhôs. Nhôs pensa dia 7 de Agosto na kel sangui dirramadu pa Amílcar Cabral ki morri por causa di intriguistas, ki morri por causa di guentis ki ca ta rispeta, ke ca leal, ke ca amigu (…)

Vila Nova, 22 de Julho de 2011

Quando se parte...

1. O texto que vai ler foi escrito por mim e publicado neste blog em Novembro de 2007. Nha Filó morreu hoje em sua residência, em S.Filipe, por volta do meio dia.

2. Sou uma mulher de poucos amores (devo ter dito uma blasfémia, mas é a pura verdade). Uma das pessoas que amo de coração completou esta semana 104 anos. Ela é minha madrinha, provavelmente a mulher mais velha de S. Filipe. Um monumento da Cidade. Felismina Mendes é o nome dessa madre, mais conhecida por Nha Filó, a dona de todas as estórias. É ainda lúcida. Mas lembra de cor algumas estórias, que de tanto repeti-las, podem nos induzir ao erro. É do encanto, apenas. A proeza de ter cruzado décadas feitas de tudo.
Ela cultiva uma relação especial com a televisão. As telenovelas, os filmes e o noticiário encantam-na. Nutre uma saudade eterna pelas estórias que conta do Dr. Teixeira de Sousa, um amigo e grande médico que também escreveu romances que ela nunca leu.
Nha Filó é um arquivo vivo... basta consultar. Uma senhora alegr…

Pulp Fiction (Quentin)

... tragic

As Tigresas do Funk (do Brasil) atravessaram o atlântico, deram conferência de Imprensa (na companhia de outros colegas) com a presença da midia em peso, e actuaram na FIC, na cidade da Praia. Ouvi na TV que o show foi um sucesso!

Txota Soares morreu

Txota Suares, o exímio tocador de gaita “berdiano”, natural do Tarrafal, foi, de facto, homenageado no passado Sábado, pelo Ministro da Cultura, Manuel Veiga. Foi uma cerimónia simples e directa, abençoada pelos músicos e amigos do homenageado, Kaká Barbosa, Codé di Dona e Lela Violão.
Tabanka “Tchada Grandi” e “batucaderas di monti agarro” também agraciaram o acto com uma pitada do que de melhor sabem fazer. Foi um momento alto que congregou, no mesmo espaço, vários personagens e manifestações que enformam a nossa cultura tradicional. (Os Momentos;  24 de Dezembro de 2004)


nota pura: Tchota Soares morreu ontem aos 78 anos vítima de doença prolongada

Lucidi Comunicazione

1. Aprecio o modo lúcido (ácido ou não) como Corsino Tolentino fala das questões comunicacionais em Cabo Verde, mais concretamente de um ou outro desempenho dos media; a forma fluente como articula sobre os meandros, o jeito despretensioso como percorre as gramáticas. Isso, vis-a-vis às opiniões, muitas, desenquadradas e confusas que se nos oferecesobre a área em questão. Não existe pretensa crítica (analítica), mas sim crítica, e a liberdade de se gostar ou não de uma determinada prestação. Concluindo: de Corsino Tolentino se ouviu das poucas análises consequentes sobre o debate presidencial que aconteceu na TCV no passado dia 6 de Julho. Confiram no programa Visão Global no site da RTC.

2. Quando, mas quando é que os gabinetes de imagem, assessorias de imprensa e semelhantes irão perceber que um plano ou práticas de comunicação e divulgação eficientes não são aqueles que promovem os directores e os ministros, mas sim aqueles (outros) que fornecem informações pertinentes, claras, tra…

Rios...

De volta com a ternura e a poesia dos dias claros. No leito do poeta maior, driblando o aperto de um outro momento “dos eleitos” que obriga a que os olhares se encolhem e rimam em claques de crenças viciadas e batinas ultrapassadas. Ventos que incitam as águas a banharem (de líquido) o leito. De volta da funda ribeira e do largo lago de sonhos errantes.
Rejeitando os rios… eles não têm nomes. (pura eu)

ESCÁRNIOS

Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.
Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz escavam com seus focinhos as raízes. (Maiakóvsk)

E agora, José?

Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea

Dia 19 de Maio, na Universidade Estácio de Sá/Rio de Janeiro, Ricardo Riso ministra a palestra para os alunos do curso de Letras: A POESIA DE CABO VERDE. Na sequência haverá o lançamento de “Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea”, de Ricardo Riso (Organizador).

REVISTA ÁFRICA E AFRICANIDADES
Ano III, nº 13 – maio de 2011 – ISSN 1983-2354

CABO VERDE: ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA
António de Névada – Carlota de Barros – Danny Spínola – Dina Salústio – Filinto Elísio – José Luis Hopffer C. Almada – Margarida Fontes – Maria Helena Sato – Mario Lucio Sousa – Oswaldo Osório – Paula Vasconcelos – Vasco Martins – Vera Duarte

ILUSTRAÇÕES
Abraão Vicente e Mito Elias

ORGANIZAÇÃO
Ricardo Riso

Bandeira’l praia di São Filipe…das personagens também.

Bandêra di Praia era a bandeira dos escravos, que depois da bandeira grande (restrita e elitista) juntava o povo na praia de Bocarrom, daí esse nome “Praia”. É o que nos conta João José Lopes Silva (Jota Jota), um dos nomes incontornáveis da história recente da Bandeira de San Filipe. Discorria-se sobre isso em casa de Nhônhô di Ilda, (no passado, um dos famosos jóqueis da Bandeira), na zona de Lém.

Há três anos, esses dois emblemáticos senhores decidiram reerguer a Bandeira di Praia di cá Cumanzinha (senhora já falecida que promoveu a festa durante muitos anos). À mesa, xerém e bode, e depois o tradicional caldo de bode e cuzcuz (prato de pobre). À volta dessa mesa simples, mas simbolicamente rica, estão alguns dos verdadeiros fazedores das bandeiras do Fogo: Waldomiro Dias, Idalina, Daniel Alves (Nhô Sopa), Nataniel e muita juventude. Espontâneos e alegres contam as mais diversas e rocambolescas histórias. À volta dessa mesa, onde todos são servidos, os significados e significantes…

Domingo de Páscoa

Crónica de Domingo de Páscoa para Margarida Fontes, Manuel Alves e Daniel Lobo


Anteriormente guardada numa das sacristias, geralmente a de baixo onde também se confessava, hoje colocada na nave central da Igreja Matriz de São Filipe, a imagem de Nosso Senhor dos Passos impressiona pela sua imponência e pela sensação de dor que transmit...e: num estrado de mogno de quase dois metros de largo, o Filho de Deus feito Homem, vergado sob o peso de uma enorme e negra cruz de madeira, vestido com uma túnica púrpura que lhe cobre todo o corpo, a fronte rasgada pela coroa de espinhos, os cabelos desgrenhados e o olhar vítreo de quem já antevê a morte, arrasta-se penosamente para a remissão dos nossos pecados e para que um dia o possamos ver regressando em Todo o Seu esplendor e Glória.
As histórias á volta desta imagem são inúmeras a começar pelo seu peso de mais de duzentos quilos exigindo, por vezes, exercícios de autentico malabarismo durante o seu percurso pelas ruas íngremes de São Filipe…

Poema novo

Tem dias que estou botânica, afoita à flor, assim rosa.

Tem dias que estou em doida, adormecida, de ambulante.

Tem dias que estou radioactiva, átomos de versos, bomba.

Animal, às vezes de lasciva, outras vezes em toca e troca.

Mulher, que dentro me passeia, em sua estranha prosa.

Poeta que se evade da matéria, em tanta pedra, sou eu.

Poeta dos dias em que estou, afoita à dor, enfim rosa.

pura eu

Vamos celebrar a Bandeira

"Os momentos" foi durante anos um portal de divulgação cultural, e as Bandeiras da Ilha do Fogo sempre foram abordadas neste sítio. Primeiro, porque são manifestações tradicionais de uma riqueza cultural e simbólica que extravaza a ilha; segundo, pela movimentação que provocam, constituem um motivo incontornável de união da nação global cabo-verdiana.

Hoje, apenas uma identificação pessoal traz-me para esta conversa sobre a Bandeira de S.Filipe. Um convite emotivo, diria!

S.Filipe, na segunda quinzena de Abril, distancia-se, de todas as formas, da cidade pacata do dia-a-dia que todos conhecemos. Diariamente, nesta época, chegam "a bila" uma média de 300 pessoas; as pensões e os hotéis ficam super lotados, as ruas enchem-se, a noite a o dia confundem-se! É simplesmente maravilhoso.

A Bandeira de S.Filipe coincide com a festa do município que também culmina no dia 1º de Maio. A Casa da Bandeira e a Câmara Municipal, cada um a seu modo, e numa espécie de concorrênci…

Flash (black)

(...) Sinto uma forte melancolia, um sentimento especial e inesperado quando ando pelas ruas desta cidade. Confidência de Alain Jean-Marie. O pianista de Guadalupe disse que irá transformar esse estranho sentimento em música."Cresci com cabo-verdianos em Rhode Islands"... (Marc Cary, pianista da banda de Cindy Blackman Santana)(...) what a beautiful place and such warm lovely people. Can´t wait to come back! (Cindy Blackman Santana sobre Cabo Verde)

Portal Atlântico, o Filme

Festival Vis a Vis vai ser anual

Cabo Verde recebeu na semana passada o Concurso Vis-a-Vis, iniciativa da Casa de África, numa parceria entre cabo-verdianos e espanhóis (com várias instituições envolvidas), visa recrutar novos talentos cabo-verdianos do mundo da música. Esta primeira edição escrutinou mais de cem concorrentes para uma selecção de 16 propostas artísticas. Sobressaiu deste certame, que não deixou de ser inédito nestas paragens, a variedade das ofertas musicais em palco e ficou patente que os artistas cabo-verdianos percorrem hoje um vasto naipe de estilos e géneros, dos tradicionais aos contemporâneos. Outro aspecto a sublinhar nesta espécie de casting alargado, que aconteceu na Praça Luis de Camões no Plateau, foi a montagem dos espectáculos com interacção do público que, em certos momentos, reagiu como se um festival de música se tratasse. A par disso, a 'movida' criada na Cidade da Praia, em véspera do Kriol Jazz Festival.















O Director da Casa de África, Armando Rua, diz-se fascinado com Cab…

Claire Andrade-Watkins: um abraço à Terra Mãe


























"Some Kind of Funny Porto Rican? A Cape Verdean American Story” (SKFPR ). Este filme mereceu uma nota há poucas semanas nesta página, mas o melhor estaria certamente por vir, depois de uma conversa com a cineasta, Claire Andrade-Watkins. Cabo-verdiana de segunda geração, professora na Emerson College, docente visitante na Brown University, e fundadora /directora de SPIA Media Produções.

No começo da nossa conversa quisemos saber quais as razões, à par do fazer cinema, que ditaram a estrada desta tão aclamada e tocante produção. Um filme que conta a saga dos cabo-verdianos em Fox Point, estado de Rhode Islands. Da sua fundação pelos cabo-verdianos à sua destruição, por motivos de urbanização, ela desfia a história de Fox Point.

Num universo onde as minorias nunca foram protagonistas, Andrade-Watkins quis quebrar as regras e contar a memória do seu povo em primeira pessoa - literalmente, é o que faz ela no filme. “Na qualidade de estudante de história /PhD, passei a conhecer o …

Carlos Matos: Crioulidade na Conservatória























“Os momentos” conversou com o pianista e professor de música Carlos Matos via facebook. Ele, na sua residência na Holanda, e nós, por cá, algures, no arquipélago.

Aos 5 anos, quando acompanhado da mãe foi assistir a um show do grupo Voz de Cabo Verde, soube que rumo dar à sua vida. Queria ser músico e um homem do piano. Começou a estudar música aos 9 anos. Fez conservatória, basicamente para música clássica, mas veio despertar-se para a música cabo-verdiana bem depois, após um repto da própria conservatória. Do retorno às raízes, Matos leva a música cabo-verdiana à conservatória, e surge o primeiro projecto World Music Orchestra Codarts de que se torna maestro.

O músico que admite que na adolescência “não gostava da música de Cabo Verde”, descobriu depois um mundo de possibilidades rítmicas, estéticas e culturais. “Eu descobri que você pode desenvolver a música cabo-verdiana, em muitos aspectos”, diz. “Comecei, em 1995, com a minha primeira banda acústica Nostalgia onde aprendi o …

Cabo-verdiana mulher...

I (...)


II

A minha mãe vendia pão ao luar
E mel às crianças da beira-mar
                     Pagavam moeda
Moeda de carvão
E marulho da moeda
                      no mergulho do mar alto
E por vezes
A fidúcia do rosto
                       sem timbre de selo branco

III

Antes da manhana
                         Ela ia
De baía em baía
                      peregrina
Amando
            no útero das veias
                  a voz uterina dos navios
Na ilha
A minha mãe é ilha nua
Por Dezembro rasgando
              o seu inverno chita.


Corsino Fortes

Falal Manu...

pura eu: diálogo intergeracional...Dj Baby T, Boy Ge Mendes, Mark G, e Manu Lima: é o futuro.

Morna

“Canto que evoca
coisas distantes
que só existem
além
do pensamento,
e deixam vagos instantes
de nostalgia
num impreciso tormento
dentro
das nossas almas…
Morna
desassossego
voz
da nossa gente,
reflexo subconsciente
em nós
das vagas ao longo das praias;
(…)
musicando rapsódias em surdina
nos tectos das casas pobres…»

(teu) Jorge Barbosa

Nesta casa pobre que gostavas de visitar... agora sem ti... descanso eterno.

Notas minhas

1.Some Kind of Funny Porto Rican. A Capeverdean American Story. Não falarei da opção estética que poderia ser tanta e inumerável para uma realizadora do calibre de Claire Andrade-Watkins. A própria faz-se de narradora e, de certa forma, personagem deste filme (cabo-verdiana americana de segunda geração). Parte da sua casa, da sua família e das suas inquietações profundamente existenciais para nos contar uma história emocionante da diáspora cabo-verdiana. Localiza Cabo Verde como espaço de identidade, narra traços fundamentais da sua história e enquadra a conjuntura socioeconómica da vaga da emigração de cabo-verdianos para os Estados Unidos. Os primeiros africanos a entrarem nos Estados Unidos fora do contexto migratório da escravatura. Lança um olhar sobre a América do século XIX, percorre os seus meandros, para depois centrar-se em Fox Point, pequena cidade no Estado de Rhode Islands - a Capverdean land. A vida desses crioulos portugueses, o trabalho, a sociedade, o lugar da música,…

Democratas...

Escrevi em dezembro do ano passado este postonde dizia que Manuel Inocêncio seria o candidato apoiado pelo PAICV, e ontem tudo se clareou. O Ministro das Infra-estruturas, transportes e telecomunicações aparentava estar demasiado confiante e sereno. Era ele o escolhido de José Maria Neves. Os sinais eram muitos. Em São Vicente, durante a campanha para as eleições legislativas, Manuel Inocêncio era referenciado como a mão invisível que dentro do partido catapultou José Maria Neves para a liderança, e na chefia do governo, o seu braço direito. Percebe-se, portanto, que Neves tinha uma dívida para com Inocêncio. Ela já foi paga. O problema está no caminho percorrido: uma dita disputa interna no seio do PAICV que revelou ser tudo, menos democrática.
Contra fortes ventos e marés, José Maria Neves, tal como fez para a presidência da mesa da Assembleia Nacional, impõe o seu escolhido. Fá-lo e remete a um sofrimento sucumbido os apoiantes de David Hopffer Almada, e sobretudo, os de Aristide…

Benin em marcha democrática

O Parlamento do Benin aprovou, na sexta-feira passada, uma lei, promulgada pelo Presidente cessante Yayi Boni, que adia para 13 de Março as eleições presidenciais que estavam agendadas para este domingo. É a segunda vez que se muda a data deste pleito, depois da primeira alteração de 28 de Fevereiro para 6 de Março. Na base de toda a polémica está a lista eleitoral permanente informatizada (LEPI) com a chifra de 1 milhão e 300 mil eleitores não inscritos, instrumento introduzido pela primeira vez no país. Esta questão pontuou, quase por inteiro, os debates, durante os 15 dias de campanha.

A LEPI, segundo a oposição, a crer nas tendências regionais do voto, beneficia a força que apoia Boni Yayi. A longa marcha até ao Tribunal Constitucional (TC) organizada pelos 11 partidos coligados que apoiam a frente “União faz a Nação” de Adrien Houngbédji, principal opositor de Boni Yayi, foi o ponto alto dos protestos.
Como causa directa da decisão do TC, estará também uma solicitação de prorr…

Sodade, nova versão

In November 2010, Seattle band Publish The Quest recorded 'Sodade' with Cape Verdean vocalist Laise Sanches. The song, made famous by the barefoot diva Cesária Évora, has a special meaning for all Cape Verdeans living on the islands and those in the diaspora.

nota pura: o disco vai estar no mundo este mês...

Christian Lagnidé

Acompanhado do seu staff de comunicação, (foto) recebe-nos em sua casa com uma simplicidade notável, mas a quantidade de carros topo de gama que acolhe no pátio interior da imensa residência no bairro de JAK, agride a visão e mostra que o indivíduo afável que nos encara não se trata de um comum beninense. Falamos do ilustre empresário africano Christian Lagnidé, 47 anos, o mais jovem dos candidatos às presidenciais no Benin.

Depois de uma carreira futebolística internacional, Lagnidé decidiu lançar-se no mundo dos negócios, uma aventura de sucesso e recheada de ousadia, senão vejamos: implementou e desenvolveu com sucesso o telemarketing no Benin; em 1997, numa altura em que a liberação audiovisual não era uma batalha ganha, fundou o primeiro canal de TV privada da África francófona, LC2 Télévision. O canal é generalista, emite 24 horas sobre 24, produz três telejornais. Possui ainda uma antena internacional em Paris.

Além de várias iniciativas empresariais no Benin, a maior parte be…

Os Zemidjans de Cotonou

Em Cotonou, capital económica de Benin, o frenesim dos moto-taxistas é uma realidade que se impõe ao visitante ao primeiro olhar. São claramente a opção para o transporte público na cidade. Designados de zemidjans, os moto-taxistas rodam a chifra de 80 mil, e constituem uma importante força eleitoral. Os 14 candidatos para as eleições presidenciais de 6 de Março no Benin sabem disso, e durante o período de campanha, esses homens ambulantes transformam-se em verdadeiros “chouchous” para os políticos.

Os zemidjans estão filiados em centenas de sindicatos, mas durante a época eleitoral organizam-se em  movimento político e declaram o seu apoio a partidos e candidatos. É o caso de AMICALE, um dos movimentos que congrega no seu seio mais de 10 mil zemidjans, e que já manifestou o seu apoio ao candidato da oposição da coligação União faz a Nação, Adrien Houngbedji.

O presidente cessante, Boni Yayi, conta com o apoio de Mouzebe, (Movimento dos zemidjans por um Benin emergente) outro movime…

"A crioulização do mundo é irreversível"*

Edouard Glissant : Nous vivons dans un bouleversement perpétuel où les civilisations s'entrecroisent, des pans entiers de culture basculent et s'entremêlent, où ceux qui s'effraient du métissage deviennent des extrémistes. C'est ce que j'appelle le "chaos-monde". On ne peut pas diriger le moment d'avant, pour atteindre le moment d'après. Les certitudes du rationalisme n'opèrent plus, la pensée dialectique a échoué, le pragmatisme ne suffit plus, les vieilles pensées de systèmes ne peuvent comprendre le chaos-monde.

Même la science classique a échoué à penser l'instabilité fondamentale des univers physiques et biologiques, encore moins du monde économique, comme l'a montré le prix Nobel de chimie Ilya Prigogine. Je crois que seules des pensées incertaines de leur puissance, des pensées du tremblement où jouent la peur, l'irrésolu, la crainte, le doute, l'ambiguïté saisissent mieux les bouleversements en cours. Des pensées métiss…

A Festa acabou. E Agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José ?

e agora, você ?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José ?

(...)

Carlos Drummond de Andrade

Dos debates ... históricos!

A Estação de TV Pública inaugurou uma série de debates temáticos, tendo em vista as eleições de 6 de Fevereiro. O debate é mediado pelo Chefe de Informação, acontece às quartas-feiras, e, se a memória não me falha, já vai na sua quinta edição.

Depois dessa iniciativa, segue uma outra, desta feita da RTC, com transmissão simultânea na rádio e na tv: uma série de três debates, com todos os partidos, (inaugurada no dia 14) e o último, marcado para 18 deste mês, entre os líderes dos dois maiores partidos, José Maria Neves e Carlos Veiga.

Os dois debates com os partidos concorrentes serão mediados pelos Chefes de Informação da Rádio e da Televisão. O último debate vai ser mediado por Carlos Santos, Director da RCV, e Álvaro Ludgero Andrade, Director da TCV e ex. administrador da RTC. Uma iniciativa louvável, que envolve apenas a cúpula das duas estações públicas.

Com que roupa?

Cabo Verde vai a votos no dia 6 de Fevereiro, e a pergunta é: a comunicação social (do estado) vai com que roupa? Ou seja, qual será e tem sido o seu papel efectivo, a sua contribuição genuína, vis-a-vis o interesse público. Ela vai continuar com a sua atitude acrítica, servil e simpática perante a máquina? Aqui pouco importa o palco da retórica montado para confundir!!!

Noel Rosa escreveu e o mundo cantou:

Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Eu hoje estou pulando como sapo, pra ver se escapo
desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar
ficando nu...

Praga mesmo são as redacções deste país, Abraão Vicente! Quando o núcleo de base (se permite) é  minado e se dobra a troco de migalhas (ki ca ta dura), não há nada a fazer... às tantas, é calar-se e lutar (salve-se quem puder) contra a praga de urubu! Você se livra, mas os gados morrem!

ps: o rei vai nú...

Reinventar o Futuro

Afinal, o «ano maldito» não foi ainda este 2010. Vem aí, segundo dizem as previsões mais optimistas, um 2011 ainda pior. Mas a atitude certa para quem queira contrariar o destino dos tempos não é a de entregar-se ao desconsolo destes presságios. Sempre que olho para estas previsões, apetece-me voltar a dizer: afinal, o futuro foi ontem. O futuro foi ontem, porque o presente não nos anima para o que aí vem. A prometida Europa, a «revolução dos cravos» de uma democracia em liberdade, com bens melhores distribuídos, saúde, educação e justiça mais garantidas, foram promessa. E as promessas incluem sempre grande percentagem de futuro À medida que vão falindo, o futuro fica para trás.

Somos chegados aos tempos que não deveremos delegar só nos outros, seja no Estado, seja nas instituições de quem dependemos, o contrariar estes destinos. Cada um de nós, o que quer que faça, onde quer que esteja, terá de ser co-autor de procurar o futuro. Não estamos no «fim da História». Mas estamos no fim d…

Norberto Tavares: O Trovador da Esperança

Uma frase de Eugénio Tavares, patrono da Cultura Cabo-verdiana, descreveria o falecimento de Norberto Tavares, um dos grandes cultores da música e da cidadania cabo-verdianas.

(…) Korpu katibu bai bo ki é escravu; oh alma bibu kenha ki al lebabu (…)

Norberto Tavares, paradigma da frase de Eugénio Tavares, nasceu em 1956, em Santa Catarina, e faleceu em 2010, em New Bedford, Estados Unidos da América, aos 54 anos de idade e com 35 anos de carreira. A sua vida breve deixou marcas profundas na música cabo-verdiana e a sua forma de ser cidadão igualmente deixou marca indelével na Nação.

Para ver Quinta-feira: 22 horas: na Televisão de Cabo Verde
Com as participações de Carlos Gonçalves (Jornalista e Músico); Charles Akibódé (Historiador); Zé Rui de Pina (Músico e ex. integrante dos Tropical Power); e Calú Monteiro (Músico).

Por uma nova década….

Nos últimos dez anos, temos uma situação grave. Fico desesperado e angustiado de como é que a sociedade cabo-verdiana em geral e as autoridades se acomodam a uma realidade que é dramática. O alcoolismo é um dos problemas graves de Cabo Verde em termos de saúde pública. O consumo começa numa idade cada vez mais precoce, e o avanço das mulheres no consumo é impressionante, e em bebidas de qualidade péssima. (…)

Temos consequências familiares, na violência, ao nível da saúde mental. Mas não tem sido feito nada.Verificamos, contrariamente ao que diz a lei, espaços de venda de bebidas alcoólicas proliferam junto das escolas. Há uma publicidade de uma agressividade incrível, dirigida dominantemente para jovens. Muitas bebidas são mais baratas que sumos. O problema devia ser objecto de políticas educativas agressivas, ligadas aos preços, ao acesso, à venda de bebidas, fiscalização, etc. Porque estamos a acabar com o que temos de melhor, que é a nossa juventude.

Manuel Faustino em entrevista…