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Domingo de Páscoa























 Crónica de Domingo de Páscoa para Margarida Fontes, Manuel Alves e Daniel Lobo


Anteriormente guardada numa das sacristias, geralmente a de baixo onde também se confessava, hoje colocada na nave central da Igreja Matriz de São Filipe, a imagem de Nosso Senhor dos Passos impressiona pela sua imponência e pela sensação de dor que transmit...e: num estrado de mogno de quase dois metros de largo, o Filho de Deus feito Homem, vergado sob o peso de uma enorme e negra cruz de madeira, vestido com uma túnica púrpura que lhe cobre todo o corpo, a fronte rasgada pela coroa de espinhos, os cabelos desgrenhados e o olhar vítreo de quem já antevê a morte, arrasta-se penosamente para a remissão dos nossos pecados e para que um dia o possamos ver regressando em Todo o Seu esplendor e Glória.
As histórias á volta desta imagem são inúmeras a começar pelo seu peso de mais de duzentos quilos exigindo, por vezes, exercícios de autentico malabarismo durante o seu percurso pelas ruas íngremes de São Filipe no dia da procissão. Antigamente, como nos dá conta Teixeira de Sousa num dos seus melhores contos, “O Encontro”, as ruas eram regadas e os notáveis do burgo que disputavam o privilégio e a honra de transportarem o Filho de Deus, não o prazer pois nos dias seguintes teriam de tratar dos ombros esfolados, apoiavam-se em rijos cajados não fossem escorregar e, desta arte, aumentar o sofrimento de Nosso Senhor, escaqueirando-o todo nas pedras basálticas da calçada. Foi, aliás, com um desses cajados que um dos carregadores, esquecendo-se da nobre missão que desempenhava, furioso com as invectivas que em surdina lhe dirigia uma senhora que na fila se encontrava, não se conteve e descarregou-o com toda fúria na cabeça da coitada causando-lhe a morte e desencadeando uma sucessão de acontecimentos e animosidades que até hoje tem eco no tecido social de São Filipe.
Em meados da década de setenta do século passado pontificava na cidade um individuo de cor negra, hercúleo e valente, pescador de profissão e guarda-redes aos Domingos, nos sempre rijamente disputados “Académica versus Benfiquinha”, onde, nas balizas deste ultimo, a sua agilidade impressionava. Brigão, raro também era o fim-de-semana em que não se envolvesse em confronto com os poucos agentes da polícia de então… De uma das vezes, em plena quermesse na Praça “João Paes”, tiros para o ar interromperam bruscamente o coro de risos e a música que vinha do coreto: de pistola em punho, dois agentes desciam as escadas perseguindo o vulto negro e ágil que a uns bons cinquenta metros á frente, subitamente, enfiou-se por uma das portas laterais da Igreja Matriz, deixando, toda a gente espantada pois, encontrando-se as outras portas fechadas, seria presa fácil para os homens da lei que esbaforidos, momentos depois entraram pela casa de Deus adentro fazendo ressoar as suas botas no velho soalho. Todavia, minutos depois voltavam a sair, perplexos e desorientados: do indivíduo, nem fumo… Evaporara-se simplesmente… Tinham procurado em tudo quanto era sitio, até nas torres, atrás do altar e do velho relógio, dai estarem cobertos de poeira… Apareceu o padre, alertado por tamanho burburinho… Também procurou… Nada… Deve ter pulado a janela, aventou alguém… Mas um simples olhar para a altura das mesmas dava conta do absurdo de tal hipótese…
Nunca se percebeu porque artes e outros tantos milagres teria o energúmeno desaparecido das malhas da lei… Até que, há dias, mais de trinta anos passados, tendo-o encontrado numa visita, já sem o vigor e a irreverência de outrora, mas sempre bem-disposto, não me contive e perguntei-lhe:
- Preto, aonde foi que te meteste, naquele dia, na igreja, que a policia por mais que te procurasse não conseguiu encontrar-te?
A face negra iluminou-se, os dentes alvos abriram-se num largo sorriso e a resposta que se seguiu, fez-me descoser numa gargalhada que fez com que as caras sérias dos que nos rodeavam se virassem reprovadoramente:
- No único lugar aonde não me iriam procurar: debaixo da túnica de Nosso Senhor dos Passos… Que policia teria a coragem de arregaçar as vestes de Nosso Senhor?...

por: Fausto do Rosário

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