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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2008

4 anu di blog

No dia 31 de Agosto de 2004, incentivada por amigo, abria Os Momentos, um blog constantemente tentado pelo jornalismo, e dado a reflectir sobre a cultura no seu sentido vivente, não descurando um olhar sobre os media, com forte enfoque na televisão. Nesses exactos quatro anos de estrada feitos de amizades, encontros, partilhas e reflexões escrevi quinhentos e cinco desabafos, alguns emprestados de penas que me são existencialmente queridas: sou tentava a nomear Pablo Neruda, Ferreira Gullar, Marguerite Duras, Clarice Lispector, Assis Brasil, Maiakovski, Nabokov, Jorge Luís Borges…
Também deixei por aqui frases soltas que alguém entendeu serem poemas, e hoje algumas figuram na Antologia poética Hora di bai, organizada por Francisco Fontes.
Fiz muitas amizades, algumas ilustres, outras também ilustres, revestidas de homem invisível, anónimo protector, amigo desconhecido, companheiros e companheiras... E assim vai continuar esse meu eterno Setembro, também aqui com outras estórias.

The world support Obama

Nada como poder dizer as coisas como elas são: ou, pelo menos, como acreditamos que sejam. Lembro-me de numa das edições do Debate Africano da RDP África, há já alguns meses, o comentarista cabo-verdiano, José Luís Hopffer Almada, alertar a um dos seus colegas que, Obama, além das suas capacidades intelectuais e políticas garantes de uma boa presidência, a sua candidatura, em si, era uma grande vitória simbólica para América e para o mundo.

Hopffer Almada sublinhou, para o refrescamento da memória do seu confrade, que ainda na década de 60 os negros americanos sofriam com barreiras primárias para aceder aos mais básicos direitos, incluindo o de ir e vir. Isto apenas para reafirmar que a nomeação, ontem, na convenção dos Democratas, de Barack Obama como candidato desse que é um dos maiores partidos dos Estados Unidos da América é uma grande vitória para os negros, e para o mundo que pode estar a se distanciar das barbaridades iniciadas com a espoliação dos novos mundos a partir do sécul…

Mudança de táctica

- Decidi que quero ser artista. Não me persegue, mulher!

Assistia, domingo, ao resumo da semana no Repórter África, emitido na RTP África, e, de repente, eis que surge numa peça sobre uma reunião camarária na Cidade da Praia, uma ilustre munícipe a dizer que os praienses são autênticos “selvagens e mal educados”, e que parecem gente que nunca lidou com a autoridade. De registar que a senhora é ilustre, mereceu ouvido, e teve até direito a entrevista para dizer essas pérolas que vão contribuir, sobremaneira, para a resolução dos problemas das construções clandestinas!

Anu!

Mas Os momentos que está prestes a completar 4 anos de vida, parafraseando Corsino Fortes, declara-se de boca concêntrica, e pretende, a partir de Setembro, reagir friamente a esses floridos de pensamento, e dedicar-se, exclusivamente, quem sabe, a uma carreira artística qualquer. Já tem em vista uma galeria na Capital, o que faz crer serem as artes plásticas o seu novo campo de eleição. Mas, dizia…

“Depois da hora zero
E…

Saudações Palmares

Num dia como hoje corria o ano de 1988, o Movimento Negro do Brasil conseguiu, depois de aturadas reivindicações socio-políticas, que se criasse, por Decreto-lei, a Fundação Cultural Palmares. Uma instituição vinculada ao Ministério de Cultura que tem por finalidade “promover a preservação dos valores culturais, sociais e económicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”. Esta poderia ser considerada, sem sombras para dúvida, como um grande sinal de maturidade e avanço numa sociedade débil que ao longo da história, optou pela exclusão e indiferença política relativamente a uma das matrizes culturais tão definidora da sua “identidade”.

Ao longo desses 20 anos, a Fundação Cultural Palmares afirmou-se como uma importante entidade de estudo, preservação, e divulgação das manifestações culturais de raízes negras, e sobretudo, trabalhou para que os afrodescendentes brasileiros tivessem uma relação, muitas vezes de catarse, com o continente berço e tomassem consc…

Há tempo que nunca passa

Santa Lúcia era uma cidade pacata, mas tinha cinema três vezes por semana. A qualidade dos filmes era duvidosa, e os frequentadores da tosca sala, na sua maioria, tinham uma preferência desmesurada por tramas de acção, a ponto dos seus gestos e piropos concorrerem, em grau e número, com os burlescos golpes dos lutadores na tela. Os gritos e os comentários inoportunos desse público faziam parte do ambiente, e os espectadores menos comuns, como a Letícia e o seu professor Gonçalo, estavam obrigados a fingir-se de distraídos nos seus assentos, ou a ensaiar um sorriso cordata de vez em quando.
Letícia era espectadora assídua dos filmes. Aquilo tudo a impelia para um mundo imaginário, mais ao largo, que acreditava poder descobrir e explorar. Nunca estava ali diante dos filmes que raramente a tocaram, mas algures para onde a sua imaginação esvoaçante a conseguia transportar. Gonçalo, jovem, bonito, solteiro e inteligente era o professor preferido da Letícia, amigo a ponto de suscitar em terc…

As memórias de Patrícia

"Eu sempre vivi entre o interior e a cidade". Assim respondia Manuel António às múltiplas situações de conversa e desoras a que todo homem perto da terceira idade está envolvido. Era calceteiro invicto, e mesmo quando não havia obra certa, rumava às seis da manhã à cidade das calçadas para comprar as frutas da época, e trocar dois dedos de prosa com os seus confrades. Estes, estivadores, tabaqueiros, pescadores e reformados do carreto, nunca perdiam o élan de abordar os temas eternos como as azáguas, a crise crustácea do mar, a doença de um confrade, e a morte de um mortal do seu tempo. Todo aquele cenário era de um profundo saudosismo, mesmo dos tempos em que se morria à míngua, da época em que irmãos e amigos partiram para São Tomé para o contrato nas roças. Manuel António era um homem de altura mediana, corpo firme, usava umas calças de pano de boca sino, e umas sandálias a lembrar o típico preto velho do tempo dos cativeiros, embora abdicasse do chapéu e do cachimbo. Mas…

Momentu Peixoto: Cédula Pessoal

Faço perguntas às minhas próprias dúvidas e lembro-me
de um filme antigo quando percebo que não respondem:
silêncio a preto e branco.

Procuro o meu caderno de linhas direitas. Em tempos,
andei na escola e tinha a régua mais bonita da terceira
classe. Era um menino de meias e de calções.

Encontro uma esferográfica sem tampa e sei que sou
o último kamikaze antes da derrota. É sempre assim:
um sentimento trágico oriental sentido a ocidente.

O meu coração está localizado a oeste. Quero invectivar
contra a própria rosa dos ventos que me fez nascer:
multinacional sentimento trágico: milhares de filiais.

Quando começo a anotar as minhas preocupações, tão
importantes apenas para mim, já me esqueci de tudo:
os segredos esconderam-se por trás de um muro.

Restam as metáforas, alinhadas por ordem de presumível
intensidade. Escuto-as no meu walkman tonto e desaprendo
outra vez de ser infeliz.

de Gaveta de papéis (ed. Quasi, Portugal). José Luís Peixoto

O Atentado

"Não há felicidade sem dignidade e não há sonho possível sem liberdade..."

"Não devolvemos à rosa a sua graça ao pô-la numa jarra, desnaturamo-la; julgamos embelezar o nosso salão mas, na realidade, apenas desfiguramos o seu jardim..."

"Podem tirar-te tudo, os teus bens, os teus anos mais belos, todas as tuas alegrias e todos os teus méritos, até à última camisa, mas restar-te-ão sempre os sonhos para reinventar o mundo que te confiscaram..."

Frases que ilustram dois mundos que nunca se cruzam. Estão em diferentes páginas do livro O Atentado de Yasmina Khadra. Uma narrativa fulminante que mostra o drama de um cirurgião árabe naturalizado israelita, que dedica a vida à sua esposa amada e a uma carreira distinta de cirurgião. De repente, num intenso dia no hospital, provocado por um atentado, descobre que a bombista suicida é a sua propria mulher. Daí em diante, depois do grande choque, regressa às contradições, e à humilhação de que fugira a vida toda. Uma hi…

Acontece

Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!

Neruda

Olhares e inversões...

A RTP África emitiu ontem mais um documentário de Carlos Brandão Lucas, desta feita sobre a realidade histórica e cultural de S. Tomé e Príncipe. Uma produção da RTP África com enfoques diferentes daqueles a que estamos habituados a ver sobre as ilhas do equador. “Coro das Palavras” é uma incursão pela identidade dos forros que em 1953 se recusaram a trabalhar na roça nas plantações do cacau, e, cuja sublevação, deu origem ao Fevereiro de horror. O programa incide ainda sobre o primeiro grito da negritude da África Lusófona no livro "Coração em África" do pan-africanista Francisco José Tenreiro, as questões de identidade, a oralidade, e a luta pela independência; resgata as estórias, os contos e os poemas na língua dos forros, e os autores que usam o crioulo na sua escrita.
O filme tece um olhar crítico sobre o percurso das Ilhas através da sua literatura, e foi interessante perceber a tendência evidenciada por alguns escritores santomenses, como Albertino Bragança e outros, …

O meu Agosto

10 di Agostu. É assim tradicionalmente chamada a festa padroeira de S. Lourenço, no Fogo, que acontece todos os anos nessa zona no norte da ilha. Foi sempre uma celebração fortemente religiosa seguida, ao fim da tarde, de pequenos bailes populares. O dia era também de encontros de gentes da ilha, com forte presença de pessoas que vinham das localidades mais ao norte do Fogo, e dos emigrantes. As pessoas da cidade também participavam, e havia transporte regular de diferentes localidades que fazia de S. Lourenço, nesse dia, o ponto mais movimentado da Ilha. Em todos os Agostos, lembro-me de, no dia 10, falar dessa festa em que sempre participei em criança, nas missas e no convívio paroquial, acompanhada da minha mãe e do meu irmão. O dia em que admirava de soslaio a velhice do falecido Padre Fidelis, pároco capuchinho da localidade por largos anos, naquela época fora do activo.
Lembro-me ainda, e com saudades, de, nesse dia, aproveitar sempre para pegar boleia de moto de volta a S. Filip…

(De tudo) um pouco

http://www.alfa.cv/ : seguindo esse endereço, todos os caminhos vão dar ao Jornal "A Nação" online. Mais um espaço de informação e reflexão sobre a actualidade das ilhas e a sua diáspora. Uma publicação generalista, com mostra de alguma inovação em relação aos demais jornais onlines (a introdução de flashes noticiosos). Esse item dá sinais de uma proposta diferenciada na actualização das notícias.
O semanário surgiu no mercado cabo-verdiano há cerca de dois anos com uma linha editorial peculiar orientada para os leitores cabo-verdianos, bem como para os da diáspora. "A Nação" está online, e o momento é de definição. Como contribuição, Os Momentos sugere que o jornal encontre melhores vias de explorar a interactividade com os cybers leitores e não a ditadura do anonimato que impera nos seus confrades.

Os dias passam por mim
e sempre os vejo a passar
por mim e pelos lugares que sou.

pura eu

Spiga: testemunho dos tempos

Princezito apresenta, hoje à noite, na Assembleia Nacional, o seu primeiro álbum, intitulado Spiga (Espiga, em português). Um nome táctil que está ligado, do ponto de vista simbólico, à realidade sociocultural cabo-verdiana (as estórias, os contos, as personagens, as fomes, as esperanças e os mitos) e à sua própria trajectória enquanto músico. Essa tem sido uma das muitas respostas que flui nas entrevistas que Princezito tem concedido sobre o disco. Tendo havido uma cobertura intensa, digamos assim, desse trabalho, suponho que as leituras jornalísticas sobre o disco foram feitas. Faltam agora, eventualmente, resenhas mais analíticas que ajuízem a devida dimensão do músico e do seu disco.
Spiga me parece um disco maduro e genuíno enquanto projecto; do ponto de vista estético, está muito bem conseguido: a profundidade (ainda que aparentemente informal) das letras e a versatilidade na interpretação não se deixaram ofuscar pelo aturado arranjo de Hernani, fazendo de Spiga um disco cheio de…

Ode ao gato

Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça. Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem, adquirindo pintas, graça, vôo. O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso: nasceu completamente terminado, anda sozinho e sabe o que quer.

Neruda

L(atitudes) precisa-se

"Latitudes" é um programa semanal concebido por uma produtora independente e emitido pela RTP África (canal aberto em Cabo Verde), que explora conteúdos ligados aos emigrantes africanos em Portugal. Esse programa é feito por jornalistas interessados, com reportagens pertinentes, mas o mesmo não se poderá dizer das apresentadoras escolhidas para o espaço. Desde o afastamento, por motivos de doença, do malogrado jornalista Raúl Durão que "Latitudes" não conseguiu uma apresentação à altura. As entrevistas variam entre o terreno movediço do desconhecimento e as armadilhas do preconceito. As reportagens sempre conseguem alavancar o espaço a ponto de cativar a atenção dos telespectadores mais interessados. Mas quero crer que existem deslizes imperdoáveis e, ontem, aconteceu um deles.
O convidado era Jorge Carvalho, Chefe da Missão Para-olímpica Portuguesa e a edição era dedicada aos atletas de origem africana que irão representar Portugal nos Jogos Olímpicos de Pequim. Ha…

Gato beato

Adorava acompanhar a vizinhança à igreja, não perdia uma missa. Comia correndo em sua bandeja e seguia a Clarissa, a Melissa...
Chegava de mansinho, ouvia a reza com atenção. Não fazia nem um barulhinho, até queria tomar a comunhão.
Era bonito, garboso, elegante e faceiro. Andava pelos bancos orgulhoso, achando-se o mais bonito do mundo inteiro.
Assistia a casamento, não perdia um sermão. Estava na igreja a todo momento, fazendo a adoração.
Josete Maria Vichineski