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Spiga: testemunho dos tempos




















Princezito apresenta, hoje à noite, na Assembleia Nacional, o seu primeiro álbum, intitulado Spiga (Espiga, em português). Um nome táctil que está ligado, do ponto de vista simbólico, à realidade sociocultural cabo-verdiana (as estórias, os contos, as personagens, as fomes, as esperanças e os mitos) e à sua própria trajectória enquanto músico. Essa tem sido uma das muitas respostas que flui nas entrevistas que Princezito tem concedido sobre o disco. Tendo havido uma cobertura intensa, digamos assim, desse trabalho, suponho que as leituras jornalísticas sobre o disco foram feitas. Faltam agora, eventualmente, resenhas mais analíticas que ajuízem a devida dimensão do músico e do seu disco.
Spiga me parece um disco maduro e genuíno enquanto projecto; do ponto de vista estético, está muito bem conseguido: a profundidade (ainda que aparentemente informal) das letras e a versatilidade na interpretação não se deixaram ofuscar pelo aturado arranjo de Hernani, fazendo de Spiga um disco cheio de personalidade. As suas estruturas rítmicas, melódicas e harmónicas, apesar das linguagens do disco, foram bem doseadas e lhe deram características inconfundíveis e de muita consonância.
Do ponto de vista de conteúdo, movida não por um gosto pessoal, mas por algum distanciamento a que tento me habituar, não deixaria de sublinhar aqui a complexidade transcultural do disco: o entrecruzar de referências que vai desembocar numa cabo-verdianidade pós-moderna (enquanto síntese) e pujante, raramente demonstrado nos trabalhos discográficos que têm surgido entre nós. Um Cabo Verde que nasce da escravidão, mas que nunca descurou o azul do mar, um Cabo Verde badio, preto e civilizado, um Cabo Verde que até consegue a proeza de "tirar" um "Tchoru Cantadu".
Princezito é, de facto, um genuíno Batucador, um transformador desse ritmo originário de Santiago num misto de culturas, de estórias, de dor, de alegria, e de cores. O batuko que entoa as letras de Princezito é cabo-verdiano, cubano, negro, branco, macho, fêmea. Esse batuko dá a cadência e a clave da marcha de Cabo Verde.

O quê: Lançamento de Spiga
Local: Assembleia Nacional, Cidade da Praia
Hora: 21 horas
Músicos: Princezito (vocal) Edson Danny (Baixo), Duka (teclados), Aurélio dos Santos (Guitarra) e Márcio Rosa (bateria).

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