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Mensagens

A mostrar mensagens de 2008

Da memória, dos rituais, dos sons aos livros… em 2008

1. Um dos projectos mais pendentes de que tenho memória em Cabo Verde foi o Museu Municipal de S. Filipe, daí, também, o seu ineditismo. A restauração do sobrado di nha Francisquinha (nome popular), a recolha dos objectos etnográficos e a efectivação do protocolo entre a Câmara Municipal de S. Filipe e a Câmara Municipal de Palmela (Portugal) duraram 12 anos. Finalmente, o espaço foi inaugurado no passado dia 13 de Dezembro, e a partir de meados de Janeiro de 2009 estará aberto ao público das 10H à 15H, e das 17H às 20H. De recordar que o Museu situa-se mesmo ao lado da Casa da Memória, outro espaço etnográfico de grande servidão aos turistas e estudantes na Ilha do Fogo. Expectativa: que o Museu da Cidade receba muitos turistas e curiosos e trabalhe em sintonia com a Casa da Memória.

2. Os momentos tristes também podem ser grandes, pela simbologia que carregam. No ano 2008 faleceu na Cidade da Praia, Francisco Fontes. O decano das bandeiras da Ilha do Fogo. Nhô Mulato, como era conhec…

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come,se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para gan…

Aquele abraço

Partilho contigo as palavras do meu querido amigo Gondim, e "te dedico", a ti que acompanha este blog. Adopta esta foto e Festas Felizes.

O crioulo: da diversidade à oficialização

Até hoje me lembro da expressão de estranheza de uma prima badia,
quando ouviu, pela primeira vez, de mim a palavra "karabon" na variante do crioulo do Fogo: carvão em português, e "karvon" ou "karbon" na variante de Santiago. E de forma recorrente ocorrem-me palavras absolutamente típicas, senão "endógenas", que evidenciam a peculiaridade do crioulo falado no Fogo. Mário Fonseca disse há dias, numa mesa informal, que o crioulo do Fogo é tão duro, a ponto de os foguenses optarem por falar português, mormente em locais públicos, como forma de esquivar a essa "dureza". Não concordei e nem concordo com tal afirmação, mas admito que tenhamos saídas absolutamente únicas no nosso crioulo. Há dias na zona de Ponta Verde, no Fogo, ouvi com satisfação a palavra "paranpôbu" (parasita) e ocorre-me aqui "djongôtô" (de cócoras). O geógrafo José Maria Semedo escreveu que a Ilha do Fogo é uma extensão rural de Santiago, e é uma ten…

O bilinguismo adiado

Depois de uma entrevista à linguista Dulce Almada, em Cabo Verde por estes dias, ocorreu-me escrever umas linhas sobre um argumento muito utilizado pela ala contra a oficialização do crioulo. Dizem alguns que a assumpção do crioulo passa pelo seu uso nos médiuns considerados de prestígio: na administração, nas escolas, nos tribunais, etc., e que o exemplo deveria vir dos defensores da oficialização do cabo-verdiano, ou seja, que os defensores da oficialização deviam apenas falar e escrever em crioulo.
Há falácias a desmontar nesta ideia. Antes de mais, é importante dizer que os defensores da oficialização do crioulo não almejam o desaparecimento do português, mas sim, tratamento paritário para as duas línguas veiculares em Cabo-Verde.
O que essa mesma ala parece não querer perceber é o trabalho partilhado por todos para se chegar ao desiderato da oficialização. Ninguém questiona a "superioridade veicular" da língua portuguesa face ao crioulo, devido ao seu uso preferencial nas…

Personalidade do ano

A revista norte-americana Time escolheu o Presidente eleito norte-americano Barack Obama como Personalidade do Ano 2008, na sua já tradicional escolha anual da pessoa que mais influenciou o mundo. “Ele atingiu a América como um trovão, revirou as nossas políticas, destruiu décadas de sabedoria convencional e destronou séculos de ordem social estabelecida”, refere um longo artigo publicado pela revista.

fonte: público.pt

Nós (destes tempos)

Nestes tempos
os estrangeiros
(aqueles que
investem nas nossas almas
e na sua incólume morabeza
na sua fiável amorabilidade
na sua fatal cordialidade
e nos amamentam
com a sua chuva colorida
metálica e cosmopolita)
disputam-nos
e aos pétreos adão e eva do pico de antónio
a génese da ilha e do banho baptismal nestas plagas
e declaram-se primogénitos
e legítimos donos da distância
que vai da ourela do mar
ao cume do monte mais alto
e do suor que a história
durante tantos séculos
fez escorrer nestas ilhas
e agora nus edénicos e hedónicos
(quase adâmicos)
se transfiguram
em corpos bronzeados
dourando-se sob o sol
e os límpidos céus do sahel insular



Cá vamos pois
badius e sampadjudos
todos muito kuls na preservação
das indispensáveis e urbanas rivalidades tribais
sem todavia, assevera o plástico mito,
descurar a híbrida e pan-arquipelágica
descendência de pós-coloniais sampadius
e o também híbrido harém de poetusas
docemente engajadas com a sensualidade
dos corpos bronzeados e emancipados
terra-longinquamente comprometidas …

Do crioulo aos radicais árabes

1. Terminou, ontem, na Cidade da Praia, o fórum sobre a língua cabo-verdiana que juntou linguistas fundadores do ALUPEC (Alfabeto Unificado para a escrita do cabo-verdiano), professores e escritores usuários do crioulo. Sabe-se que a meta deste momento é a instrumentalização da língua cabo-verdiana no sentido da sua assumpção efectiva (nas escolas, repartições, comunicação social) e posterior oficialização. Nessa linha, o fórum trabalhou sobre os avanços e os problemas encontrados na aplicação do ALUPEC. A variante a adoptar virá naturalmente, e já faltou mais. Para já, uma notícia se impõe, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, adoptou-se o ensino do crioulo de Cabo Verde (vide o nº de cabo-verdianos residente na América).

2. Assistindo ontem ao Telejornal da RTP chamou-me atenção o número de reportagens em áreas diversas dando conta das consequências da crise que assola a economia mundial: Instituições de caridade que recebem menos donativos, casos de vandalismo que aumenta…

Nobas di Djarfogo

1. São Filipe ganhou nos últimos tempos novos points de lazer e comércio turísticos, o que emprestou mais vida à cidade, e contribuiu ligeiramente para o virar da página do angustiante silêncio daquelas ladeiras. No interior, as pessoas estão mais contentes com o resultado da boa azágua, e nada mais contagiante do que alegria de camponês.

2. A cidade ganhou finalmente (depois de um projecto de 12 anos) o seu Museu Municipal (no sobrado da foto). Um espaço que pretende apresentar as particularidades históricas, ambientais e culturais da Ilha do Fogo. Segundo a museóloga que trabalhou na sua instalação, o Museu Municipal de S. Filipe vai ser complementar à Casa da Memória, e não tem a pretensão de substituir as valências deste espaço, o que é muito bom. A equipa criou este blog onde pretende detalhar sobre as temáticas de abordagem do Museu.

3. "Bom doc", a nova provocação da já incontornável Cá Dja´r Fogopara projectar o novo ciclo 2009. "Expor o relacionamento entre o art…

Os nós da solidão

II

Dantes havia os colonos
que alvos e algarvios
defronte das estátuas
e demais monumentos
de aquém e além-mar
bebiam sequiosos
o suco da cana
o sumo da terra
a espuma do mar
e raivosos
nos mandavam recolher
o bagaço sacarino
e as vértebras de outros restos
e em sarcasmo gregário
se reluziam ao sol
e seduziam a nua
e tisnada virgindade
dos subúrbios

II

Séculos depois
ainda alvos e algarvios
sob uma lua muito redonda
muito mais gregários e raivosos
do que dantes
por mor das colunas de fumo
que dos monumentos
se despenhavam
e despedaçavam o mar
por mor das efígies de bronze
que das penedias da cidade tombavam
os colonos
e os seus próceres islenhos
os colonos
e os seus rebentos indígenas
atravessaram o mar
velejando um ódio ainda mais amargo
e cada vez mais absentista

III

E ficámos sós
cogitando sobre os nós da solidão
e da nossa possível essência negra

E ficamos sós
reverberando ansiosos
os signos da desolação
ante o sibilino assobiar
dos alísios sobre os montes
e o oceano de todos os dias
e a sua inútil ondulação
vazia de veleiros e …

Dias que ficam...

1. “Existe uma relação intensa entre Cabo Verde e o Brasil que se dá via Fortaleza, mas o Brasil, pelo menos, não sabe disso. Temos que fazer alguma coisa para inverter esse quadro.” Foi mais ou menos esta ideia que o director da TV Cultura, o nomeado jornalista Paulo Markun, me passou numa reunião que tivemos naquela que é, sem margens para dúvida, a TV que produz melhores conteúdos no Brasil. Essa ideia ainda embrionária pertence a uma realidade futura, mas com pernas para andar.

2. 1º Seminário de Estudos cabo-verdianos

É importante perceber que a ideia de Markun, apesar de tudo, não está longe do presente se atentarmos àquilo que acaba de acontecer na Universidade de São Paulo: O primeiro Seminário Internacional de Estudos Cabo-verdianos sob o sugestivo lema Contra Vento Pedra-a-Pedra em homenagem ao poeta Luis Romano, cabo-verdiano residente no Brasil há largos anos. Foram quatro dias (25 a 28 de Novembro) de conferências e debates centrados na literatura, e que incluiu mostras de …

A vida dos dias...

Muitas histórias poderiam ser alinhavadas e recordadas por estes dias. A tua, de certeza; a tua inteira vida que surpreende todos os dias, e irrompe os anos, e o século, mostrando-se plena para quem se segue a olhar para ti. Os dias calmos, ao som das pujantes ondas “di fonti bila” que ousas, com sabedoria, desvendar e saborear. Os dias de tumúlto que ultrapassas com gargalhadas ou um simples sorriso. O jogo de “bisca” diário que, parecendo que não, é uma forma sábia de te encarares e enfrentares os dias. “Te dedico”, pelos dias, e pelos Novembros, que hás-de pisar com a mesma sabedoria e generosidade.

Em ti

Há momentos bons, de tanto se revelarem
Novembrinos
Fortes, valentes
Luzem, o brilho azul, no teu olhar.

Vou

Em busca do meu Novembro.

nota discreta: Os momentosirá fazer uma pequena pausa…

Cidade II

in memoriam de João Henrique (Dick) Oliveira Barros e V. Fernandes Eu sei!

O cerco se aperta
e, perto,
ouve-se o ganir dos cães

Na cidade da Praia de Santiago
(nesta rochosa transfiguração
da velha e antiga metáfora de cidade santa )
deus esvaneceu-se
abatido e receoso
de ser enforcado
com as cordas
do destino e do vento

E foi então
foi só então
que os mercadores
(de estórias e de outros apetrechos
da frustração do corpo e da claudicação da alma)
decidiram escolher
um novo deus
como eles
sarcástico
e detentor
do metálico dom
da gargalhada

Eu sei!

A invisível cerca
cerra o seu eco
à volta da minha alma

Que farei
sem o meu Deus
e sem a maçã
senão estilhaçar o cerco
e a sua ameaça de estoricídio
açoitar o vento
repicar os pés no chão
e retinir um djato
na cara da consonântica arrogância
dos mercadores
e dos que bailam ao vento?

José Luís Hopffer C. Almada
imagem: Lasar Segall

Um instante

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

poema: gullar
imagem: gondim

Cultura em debate

Promover Cultura, na sua expressão múltipla e criativa. Trabalhar para a sua sustentabilidade e preservação… são as metas do Fórum Internacional sobre a Economia da Cultura que arrancou, hoje, na Cidade da Praia. O encontro organizado pelo Ministério da Cultura reúne autoridades, promotores culturais e artistas, nacionais e estrangeiros.
Quatro dias de trabalho e que, conforme o Ministro da Cultura Manuel Veiga, marcará uma iniciativa despoletadora de mudança, transformação e certezas. O financiamento, a gestão cultural, a criação artística, o diálogo inter cultural, a sustentabilidade são as linhas-mestras deste encontro.
A falta de uma política cultural coerente e de uma visão pragmática face à preservação e promoção culturais tem sido uma das críticas unânimes dos operadores e homens de cultura em Cabo-Verde.
As responsabilidades, nesse campo, devem ser partilhadas. Quem o diz é o Presidente da República. A problemática da formação dos agentes culturais, o conhecimento das obras e dos…

Penso em ti

EU PENSO em ti nas horas de tristeza
Quando rola a esperança emurchecida
Nas horas de saudade e morbidez
Ai! Só tu és minha ilusão querida
Eu penso em ti nas horas de tristeza.

Vê quanta sombra me escurece o seio!
Que palidez sombria no meu rosto!
Tu és a única luz da treva em meio
Tu és a minha estrela do sol posto...
Contigo a sombra não me tolda o seio.

Quando a teus pés o meu viver s'escoa,
Esqueço a minha sorte, o meu martírio,
Minh'alma como a pomba em sangue voa
Para ir se abrigar à tua, ó lírio,
Quando a teus pés o meu viver s'escoa ...

Bendito o riso desses lábios túmidos!
Bendito o meigo olhar tão peregrino!
Como o sol abre a flor nos campos úmidos
Crenças desperta o teu divino olhar...
E o riso, o riso desses lábios túmidos

Ai! volve! volve peregrina estrela...
Minh'alma é o templo de um amor suave
À tua espera o lampadário vela...
À tua espera perfumou-se a nave...
Ai! volve! volve peregrina estrela!

Saudade

Em todos os Novembros “te dedico” peregrina estre…

Intermezzo (na tela)

No Brasil, muita gente, em determinados círculos, assume que assiste às telenovelas para as criticar. Não sei como funciona noutras paragens onde existe uma cultura de teledramaturgia. De todo o modo, este tipo de crítica é um exercício de interpretação saudável (quando for desapaixonado) que revela muito do real, ou da sua construção. O certo é que o embalo da crítica desemboca no apego, e no final estão todos a cogitar o desfecho de cada personagem. Mas há sempre aqueles que conseguem resistir tanto à crítica quanto ao passatempo.
Pessoalmente, interesso-me pela dramaturgia e consigo sempre me surpreender com um ou outro detalhe de representação. Um actor secundário que se impõe e, em se tratando de uma obra aberta, vai ganhando mais presença; um outro, cujo desempenho não encaixa como o previsto no desenrolar do trama, e vê o seu destino redesenhado, e por aí fora.
Desta feita, tenho prestado atenção em Wagner Moura, o vilão Olavo Novaes, da telenovela "Paraíso Tropical": u…

Momentos fantásticos

Inicialmente quis que esse blog se chamasse "moments", em inglês mesmo, dando ares de leveza e detalhes, mas depois tive a impressão que podia confundir e parecer um diário romântico. Nada contra o estilo, entretanto. O objectivo, de facto, era falar de assuntos que ficaram (no presente e no passado) pela sua pertinência, pelo detalhe, pelo interesse e, sobretudo, pela poesia. A ideia era, e continua a ser, um compromisso com o trabalho e a honestidade. Momentos fantásticos que, pela sua generosidade intrínseca, acabam sendo de encontros e partilhas (de toda a casta).

Por conseguinte…

"Os momentos" tornou-se um blog que emite exclusivamente pontos de vista da sua autora, além de factos, informações e entrevistas, todos publicados com sentido de responsabilidade, trabalho e respeito pelas opiniões outras. Parâmetros, aliás, que orientam a lisura de quem
escreve estas linhas na sua profissão de jornalista.
Considerar alguns dos textos aqui publicados de mais ou menos fel…

Piratas das Ilhas

“Exportação de azeite falsificado para Cabo Verde faz dois arguidos em Portugal”. É triste ler esta notícia, muito triste, porque não fica pelo azeite. O problema não está na infracção que acontece a todo o lado com qualquer um, e que pode ser minimizado com mais controlo. O problema, sempre acho, está na cabeça e na atitude das autoridades cabo-verdianas. É só ver como grupos e indivíduos chegam a este país e tornam-se empresários de noite para o dia, quando se sabe que nos seus países, alguns, não passam de fugitivos da polícia. Alguns desses casos são noticiados na Imprensa, e os larápios continuam soltos e a aldrabar tudo e todos. Slavery mentality e os seus tentáculos…

Novos escribas

Tem sido notório e crescente, aqui e acolá, a multiplicação de artigos de jornais e posts na net de jornalistas que decidem vir a Cabo Verde tentar a sorte, e mais não fazem do que espartilhar o nome do país. Já tentei pensar que talvez seja isso fruto da juventude, gana de dizer, demonstração de bravu…

O imprescindível “manduco”

Há 66 anos, falecia, na Cidade da Praia, Pedro Monteiro Cardoso, um dos mais consequentes intelectuais de Cabo Verde. Aquele que, por vezes e em plena noite colonial, tinha o pseudónimo de AFRO. Era natural da Ilha do Fogo, com mais precisão da Cidade de São Filipe.
Pedro Monteiro Cardoso pertenceu, com Eugénio Tavares e José Lopes, à chamada (por uma certa crítica escolástica, diga-se de passagem) Geração dos Nativistas. Polemista, poeta e prosador do melhor gabarito nacional, ele cantou a caboverdianidade, a insularidade crioula e a africanidade. Também se posicionou como um activista em prol da língua cabo-verdiana e do folclore de Cabo Verde, com incursões incisivas sobre o folclore foguense.
Foi fundador, proprietário, director e editor do jornal O Manduco (Fogo, 1923-1924) e, juntamente com João Lopes (S. Nicolau, 1884-1979), foi responsável pelo jornal (socialista) Cabo Verde (S. Vicente, 1920-1921), tendo colaborado em vários outros jornais cabo-verdianos e portugueses.
Sessenta …

Orgulho e Pesar

“Os momentos” remarca com um misto de pesar e “orgulho” o falecimento hoje, aos 76 anos, da cantora sul-africana, Miriam Makeba - foto -, aquela que foi a mais combativa e internacional cantora do continente africano. Com um estilo único combinando o jazz, o folk e outros ritmos tradicionais da África do Sul, Miriam Makeba soube cantar em nome da África, e contagiar os palcos e artistas de boa parte do mundo; a dor, a opressão, mas também a liberdade, o sonho, e o futuro: Mamma África, Pata Pata e Malaika foram hinos do mundo.
“People think I consciously decided to tell the world what was happening in South Africa. No! I was singing about my life, and in South Africa we always sang about what was happening to us — especially the things that hurt us”.
Miriam Makeba cantou até ao último dia de sua vida, como sempre quis.

Premiados

José Luis Tavares, poeta, e Glaucia Nogueira, jornalista brasileira que reside em Cabo Verde, foram dois dos nove premiados no II Concurso Literatura para Todos p…

O paradigma Obama

Desde a campanha para as primárias do Partido Democrata que Barack Obama galvanizou a atenção dos Estados Unidos e do Mundo, certamente, num primeiro momento, pela cor da sua pele. Não que uma simples coloração mais pigmentada fosse, por si, indício de boas capacidades. Obama chegou onde chegou por causa do seu percurso de grande mérito, de uma capacidade de liderança surpreendente e de uma qualidade intelectual sem precedentes. Entrementes, a questão racial marca presença incontornável na América e ela não poderá ficar fora de uma análise complexa. Do meu ponto de vista, os analistas nacionais e internacionais não devem fugir a tal remarque…
A eleição de Obama, para os negros da África e a vasta Diáspora Africana, mais precisamente os afrodescendentes, é por demais histórica. É ver as lágrimas de emoção nas faces do activista Jesse Jackson e apresentadora televisiva Oprah Winfrey no momento do comício da vitória em Chicago; É ouvir a entrevista de uma centenária negra americana que in…

O poder e Obama*

Poderia começar este artigo por trocar a ordem das palavras deste título: Obama e o Poder. A retumbante vitória de Obama nas eleições norte-americanas soa para os EUA e para o Mundo com o som fonético e, sobretudo, com o valor semântico de um verdadeiro «hossana». «Hossana», do hebraico «hoshi’anna» quer dizer: «salva, peço-te». Obama, no contexto actual da situação dos EUA e do Mundo, encarna essa petição: «Salva-nos».
Quem estendeu esta passadeira para esta triunfal entrada de Obama na Casa Branca foi George W. Bush. Bush deixa a mítica branca residência com o mais baixo índice de popularidade de sempre (26%). Nos EUA e no Mundo havia um enfado muito grande por este homem que, simbolicamente, guarnecido do maior poder do Mundo estava a cavar a mais profunda onda de falta de confiança. A crise financeira actual, melhor dito, a crise do sistema financeiro foi óbito final de dois mandatos que denegriram o papel motor dos EUA face ao estado do Mundo. Iraque, Afeganistão, Irão, Palestina,…

Obama: o eleito

"Obama va régénérer la marque Amérique comme Jean Paul II a relevé la marque papauté"

Andrew Sullivan(analista francês)

Impressões... e notas

1. Hoje é o meu dia: a minha madrinha completa em S. Filipe 105 anos e vai cortar um bolo em Curral Grande. Como já tive oportunidade de escrever neste post, Felismina Mendes encerra um episódio interessante na história do Fogo e pour cause… deste país. É a última filha viva de Nhô Henrique, o dono de sete palhabotes que faziam as viagens Cabo Verde Estados Unidos, dentre os quais o navio Ernestina.

2. É também meu e nosso dia por causa de Obama: que já é, antes de tudo, o eleito da esperança.

1. Hoje é o último dia dedicado à conferência “Mestiçagem socioculturais e procura de identidade na África Contemporânea: o caso dos países africanos lusófonos” a decorrer desde ontem na Cidade da Praia. A iniciativa é uma parceria entre a Codesria e a UNICV, que, de si, é interessante porque demonstra o início de um afrontamento intelectual mais directo com o continente africano, que pode ser, inclusive, uma achega ao ideário da Integração regional. Gosto de ter pensamentos positivos.

2. De 6 a 9 …

Yes, we can!

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Mãos dadas: Carlos Drummond de Andrade

Diálogo musical

"Os momentos” recorda o livro Kab Verd Band do jornalista Carlos Filipe Gonçalves, e convida os interessados a relerem aqui uma entrevista sobre o livro que o autor nos concedeu em 2006.
“Julgo que só agora é que nos tomamos consciência da força da nossa música, a potência que nós somos, porque antes, havia a noção do clássico... a literatura era arte nobre, a música nobre seria a música clássica e nós não tinhamos a música clássica, música erudita...”
Ainda que pouco actualizado, indicamos o blog do jornalista que pretende ser um espaço de diálogo musical. Quem sabe com mais visitas, o espaço ganhe ritmo, já que assunto certamente não faltará ao autor.

Obama: one World. one Dream

(...) mesmo que somente para ultimar
as orações os cantos fúnebres as odes
aos aguardados bárbaros aos bufallo soldiers
aos coveiros da penúria e da humilhação
aos secularmente esperados libertadores da pátria

finalmente acampados e aclamados
no bíblico e breve coração da opressão
tais cavaleiros de samory e menelik
tais porta-estandartes de al-mahdi abdel kader e alboury ndjay
entretecidos com as redemption songs de marley
o sonho de frederick douglas e martin luther king
as palavras límpidas e fraternas de amílcar
nos multicoloridos e proféticos tempos de mandela
nas inesperadas pós-invernais estações de obama

(...) mesmo que somente para chorar e cantar
mesmo que somente para rezar e dançar
defronte das urnas temerárias
e das suas sombras destemidas (...)

extrato de Australidades
autor: José Luís Hopffer C. Almada

Toxic system

A Electra é uma empresa que presta com muita deficiência o serviço de fornecimento de água e energia em Cabo Verde. Isso todos sabemos, e sentimos na pele. Pior do que o serviço é a falta de tacto dos seus responsáveis nos seus contactos com a imprensa ( e por via, com os cidadãos). É só ver o jeito desinteressado como um dos engenheiros dessa empresa nos serviços da Praia enfrenta os jornalistas: as vezes que decide falar à imprensa, abdica do entusiasmo, revisita o seu lado antipático e assume as avarias técnicas da Electra com frieza sem demonstrar o mínimo de esforço para a resolução do problema. É assim todas as vezes que resolve falar à comunicação social. Porque não arranjam um porta voz? Sim, porque o engenheiro deve ser bom no que faz, não nas relações públicas!

In(digna)ção

É no mínimo estranho a capacidade selectiva de indignação de alguns gatos pingados deste país, e pode ser considerado a qualquer momento mais um caso típico destas paragens. Escandalizados com a denúncia do…

Setembro

Obcecado face ao verde
eis-me aqui acarinhando
a tôssa
(a tosse vegetal
ondulando ao vento)
a bordolega
(legado de fome e finura
do cadáver ilhéu
das contendas das estações)
a seta
a pega-saia
(que nos pregam o estômago
ao verde vómito do louco deus
dos nossos céus)

a ora-porra

Ora porra, é mesmo isso!

(...)

José Luís Hopffer C. Almada

Uma questão de tempo...

Foi curioso assistir, ontem, no Jornal da Noite ao apelo do Ministério da Educação e do Bispo D. Arlindo Furtado, obviamente em situações completamente dispersas, ao resgate dos valores familiares e ético-sociais. É evidente que a situação da insegurança e do estrangulamento social que se vive em Cabo Verde estão na base desse desespero. Lamentável mesmo é perceber que as instituições se acomodam no seu pedestal e deixam de cumprir o seu papel com naturalidade. A cidadania desde a tenra idade e o fair play devem ser uma constante, na teoria e na prática, da agenda do Ministério da Educação. E a Igreja católica em Cabo Verde só agora é que percebeu da perda vertiginosa da sua capacidade de mobilização?

Valor sentimental

Nunca me desfaço de uma escova de cabelo azul já velhinha que tenho desde os meus nove anos. Foi uma das prendas da minha madrinha que no próximo dia 4 de Novembro completa 105 anos. Se eu fosse o presidente da Câmara de S. Filipe promovia uma festa de aniversário à Nha F…

Gil desafia a banda

Um disco sem banda, sem cor, sem limites. São os termos que descrevem Banda larga cordel, o último trabalho do músico brasileiro Gilberto Gil. Em síntese, Gil celebra, encerra, congrega, desconstrói, aproxima mundos, pessoas, ritmos, culturas, sexos. Mas alguém dirá certamente que essa é a marca do baiano mais famoso do mundo. Sim, é. Mas desta vez, Gilberto Gil relativiza ao extremo, esbarra fronteiras, aproxima tudo: está à frente do seu tempo quando canta os novos dilemas da civilização. Os pais estão preocupados demais/com medo que os seus filhos caiam nas mãos dos narcomarginais/ou então nas mãos dos molestadores sexuais/e no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades actuais ...
As fragmentações, e reformulações de Gil se dão ao nível das letras, e através de uma profunda provocação rítmica que desafia toda e qualquer linearidade. Sente-se isso num arranque manhoso que oscila entre o forró e o reggae, para se entrar num frevo, num baião; de um samba canção, passando por um…

Dos consensos ao dissenso

1.

Um debate inédito entre Carlos Veiga, antigo primeiro-ministro, e actual chefe do governo, José Maria Neves, marcou em força a retomada do Jornal A Semana, e este semanário está de parabéns por esse feito. Questões estruturantes estiveram em cima da mesa, e curiosamente muitas foram alvo de consenso, contradizendo, em muitos casos, posições defendidas pelo actual líder do maior partido da oposição, o que não deixa de ser estranho.

Relativamente à diplomacia, uma questão continua a dividir as opiniões do MPD e do PAICV, e a condicionar os actos destes partidos, tanto na oposição como na situação: a relação de Cabo Verde com a África, mais concretamente com a sub-região.

É quase chavão dizer que Cabo Verde se fez por causa da sua posição geo-estratégica. Mas torna-se urgente fazer crer a muita boa gente que o interesse em relação a Cabo Verde da Europa, dos Estados Unidos, da China e do Brasil, advém única e exclusivamente da sua posição privilegiada na encruzilhada do mundo e às portas…

Setembro

Inútil face ao verde
eis-me aqui perscrutando
a acácia
o djiguilangui
o nhara-sakedu
(o corropio da memória
pela escura pele de Nhara
alevantando-se com as ravinas dos engenhos
calcorreando a turva e indómita cal
da adversidade colada às rusgas da morte
e às veredas do vertical parentesco
aos pés descalços do martírio)

Atónito face ao verde
eis-me aqui observando
o spinhu-katxupa
o spinhu-pretu
o spinhu-branku
(ah! os vários espinhos
cobrindo a cabeça de adão
crucificado em plena ilha
como as crísticas argilosas criaturas do tempo
condenadas à fugaz transitoriedade da bonança
à ardilosa efemeridade da esperança)

(...) José Luís Hopffer C. Almada

Intermezzo

No dia em que se conhece mais um Nobel Prize da Literatura, recordo-me do primeiro nobel de literatura africano, Wole Soyinka, e da sua sábia máxima: “O tigre não se gaba da sua tegritude, assalta e devora a sua presa.” Lembro-me também de uma frase de autor desconhecido que diz: "Quem pensa segundo a opinião dos outros, está muito longe de ser um homem livre."
E finalmentepenso que manter um blog é simplesmente ser parte desse freevibe.com, sem amarras, meu caríssimo, diria o poeta…

1. Os anónimos existem e são frutos dos seus progenitores
2. Os leitores comentam quando se revêem no post
3. O blogger é livre, ou pelo menos deve sê-lo, porque blogspot e os seus confrades ainda não decidiram cobrar taxa e nem indigitaram nesse sentido.
4. Portanto, não percamos tempo a olhar para o lado, e nem sejamos deuses da própria crença… make it happening!

Angela Adonica

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

Pablo Neruda

FESMAN pode vir para Cabo Verde

Uma comissão senegalesa fez, hoje, um convite formal ao Ministro da Cultura, Manuel Veiga, apelando à participação de Cabo Verde no Festival Mundial de Artes Negras 2009: a ideia é descentralizar o certame, e ter um ou mais palcos também em Cabo-Verde, além do Senegal, a sede do evento. Desde Janeiro que a comissão organizadora tem mobilizado vontades para a IIIª Edição do FESMAN que acontece em Dezembro do próximo ano sob o lema Renascença dos países Africanos.
O Brasil é o grande parceiro desta festa: está a participar na definição do projecto e prometeu mobilizar a participação de países latino-americanos. Para já, uma das suas propostas é “repassar a experiência brasileira para organizar o Carnaval de encerramento da III FESMAN”.
O programa está em definição, mas espera-se no FESMAN, além de artistas africanos, nomes da diáspora negra como o trompetista americano Wynton Marsalis (foto), Stevie Wonder, Gilberto Gil e tantos outros.
O Ministro da Cultura de Cabo Verde não respondeu ain…

Jorge cada vez mais responsável

Javier Marías, o escritor espanhol, proferiu ontem uma conferência na Fundación Juan March a que deu o título de “La paulatina pérdida de la irresponsabilidad”, o qual supostamente resume a sua obra literária. A perda paulatina da irresponsabilidade, portanto. Às vezes creio que sofro do mesmo mal, dessa mesma doença lenta e progressiva que nos vai tornando velhos, crescidos, adultos, responsáveis e, se calhar, chatos. Sei que acabou ontem de ser impresso um novo livro a que apus o meu nome e que esse livro é, outra vez, uma demonstração de irresponsabilidade, de inconsciência e de uma estranha vaidade. Hei-de arrepender-me de tê-lo escrito e de tê-lo feito publicar, eu sei. Serei, nesse dia, uma pessoa responsável. M.J.M.

O próximo livro do jornalista vai se chamar "Sereias do Mindelo" e conta a história de um português que se apaixonava por cabo-verdianas.

Alcatrazes: na fímbria do tempo

Para quebrar o "equilíbrio" ecológico e ontológico descrito pelo poeta Jorge Barbosa de "nem homens nus, nem mulheres nuas", chegaram os navegadores ao serviço do Infante D. Henrique, António de Noli (genovês ao serviço da Coroa Portuguesa) e Diogo Gomes, navegador português, no iniciático ano de 1460 às Ilhas de Cabo Verde.
Os dois descobridores, como prémio da Coroa Portuguesa, tiveram então direito a povoar a Ilha de Santiago, dividida em duas capitanias: a da Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, para António de Noli, e Alcatrazes, hoje Nossa Senhora da Luz (Concelho de S.Domingos), a Diogo Afonso. As duas capitanias da Ilha de Santiago, transformaram-se também em dois municípios: um com sede na Ribeira Grande e o outro em Alcatrazes . A estrutura de poder terá permanecido por muito tempo incipiente, dominada por uma reduzida mas forte oligarquia local.
Não nos é possível rastrear a rápida ascensão e queda de Alcatrazes uma vez que nos faltam engenho (mas não arte…

A balzaquiana de Setembro

Sinto saudades de mim, de ti, deles, das ladeiras, das mangueiras, dos meus avós, do Solar do Unhão, da Amaralina, e até do futuro. Mas as balzaquianas são a minha vida, e fazem parte dela. Ontem fartei-me de rir: a Martine recorda-me de cada rosto, de todos os sotaques, até dos detalhes de uma vida cheia de peças e cores, com deslizes, mas sem queda. La strada é longa... mas voltar ao Black cat, não! Peter ou alguém no seu lugar há-de abrir um novo pub pela redondeza.

Pudesse Eu*

Pudesse eu não ter laços
nem limites
Ó vida de mil faces
transbordantes
Para poder responder
aos teus convites
Suspensos na surpresa
dos instantes!

* Sophia de Mello Breyner Andresen

A (à) imagem de Cabo Verde

Em tempos falamos aqui da diluição do mercado, retratando pontualmente a ineficácia de uma publicidade da manteiga planta emitida na TCV (da responsabilidade da empresa revendedora) em que a família pivô era portuguesa. No mesmo bojo se inclui a promoção do Azeite Galo e do Caldo Knorr, produtos oriundos de Portugal, vendidos no mercado nacional, e publicitados diariamente por intermédio de spots feitos para serem emitidos no mercado de origem. Um autêntico nonsense se atentarmos às regras e ao jogo sensorial que fazem parte do acto de promoção de um produto. Nesse post dizíamos que esse tipo de publicidade no qual os consumidores não se revêem, é absolutamente ineficaz. O que se nota é que todos esses produtos são importados, e simplesmente vendidos em Cabo-Verde. É bom saber que no dia em que uma dessas marcas forem adaptadas à imagem dos cabo-verdianos, ou seja, que os códigos para a sua promoção forem nacionais, a venda superaria, certamente, a expectativa dos seus comerciantes re…

Acontece, dicas ...

No dia 2 de Outubro, na Fnac Colombo, a jornalista da TVI, Conceição Queiróz, lança o seu segundo livro intitulado Os meninos da Jamba, uma grande reportagem que Queirós fez, há dois anos, nas terras de Angola. Jorge Sampaio, o prefaciador do livro, escreveu que “As histórias reais que a Conceição Queiróz nos relata prendem a atenção do leitor da primeira à última página”.

O primeiro livro da jornalista intitula-se Serviço de Urgência, e a reportagem que esteve na base desse título mereceu uma distinção do Prémio AMI – Jornalismo Contra a Indiferença.
Numa entrevista concedida a propósito d´ Os meninos de Jamba, a autora disse o seguinte: "foi a reportagem que mais me marcou. Despi a capa de jornalista e envolvi-me imenso. Aquelas crianças eram carentes de tudo.”

Conceição Queiroz é moçambicana, trabalhou na Televisão de Cabo Verde, inicialmente na Delegação do Sal, e posteriormente como Chefe de Informação, e apresentadora do programa Jornal Desportivo. Actualmente pertence à equip…

Com Paulo Abrunhosa

Dá-se recompensa

Não haverá ninguém que castre
este nosso desastre
à nascença?
Dá-se grossa recompensa!

Dever Astral

Saibamos ser dignos
dos nossos signos!

J.M. COETZEE, o autor de "Desgraça"

“Perdeste o emprego, o teu nome anda de rastos, os teus amigos evitam-te, escondes-te na Torrance Road como uma tartaruga com medo de meter a cabeça de fora da carapaça. Pessoas que nem aos teus calcanhares chegam dizem piadas a teu respeito. Não tens a camisa passada a ferro, sabe Deus quem te cortou o cabelo. Vais acabar como um desses velhos a remexer os caixotes do lixo.”

É desta forma sentenciada que Rosalind reprova a atitude do ex. marido David Lurie. Um professor universitário da cidade do Cabo que se envolve com uma aluna muito mais jovem. “Desgraça” de M.J. Coetzee é uma intensa narrativa de rendição perante uma viragem existencial, primeiro na vida de David, segundo, numa África do Sul pós apartheid.
A violência perpassa a obra de Coetzee, antes quando o professor se envolve com a jovem e é vilipendiado e expulso da universidade. Ao mudar-se para o campo, refugiando-se de tudo e de todos, presencia outra violência junto da filha Lucy (violações e chantagens) perante uma passi…

O negro, a história (o cabo-verdiano)

Há duas semanas trouxe para aqui a visão rácica do crítico literário Pires Laranjeira trazida a lume num artigo denominado “O Stock negro na Claridade”. Por uma questão de interesse, que gostaria de compartilhar com todos, resolvi publicar a visão síntese do sociólogo e historiador António Correia e Silva sobre esta questão. Uma outra vertente analítica que nos recorda um bocado a narrativa de Teixeira de Sousa que eventualmente, por caminhos diferentes, deixou laivos disso mesmo no seu livro "Ilhéu de Contenda".

“Gostamos de ser cabo-verdianos”. Não existe neste arquipélago a reinvenção de uma “beleza negra combativa e reactiva”. Isto porque o projecto branco foi derrubado em Cabo Verde. É certo que houve ensaios para reerguer esse projecto: a chegada dos degredados da colónia ao longo do século XVIII, a vinda nos anos 40 dos militares da metrópole para a promoção de casamentos brancos, mas essas tentativas não vingaram.
A elite resiste, sempre: são curiosos os dizeres dos te…