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Mensagens

A mostrar mensagens de 2010

Aos amigos

Se não vejo o mar
sinto falta de ti,
e do sol que nos une,
sinto falta da vida
e desta viagem ausente.

Si no veo el mar te echo de menos, y echo de menos el sol que nos une, echo en falta la vida y este viaje ausente.

pura eu: aos amigos desta longa e ausente viagem virtual, com votos de festas felizes.

As Eleições e a passividade (selectiva) da CNE

A entrevista concedida terça-feira pela Presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE) à TCV, deixou a nu a passividade preocupante desse imprescindível e superior órgão eleitoral. O primeiro pronunciamento oficial da CNE relativamente às eleições legislativas de 2011 resultou da interpretação do Código Eleitoral, nomeadamente da lei que proíbe, dois meses antes das eleições, a propaganda dos partidos em meios comerciais. Uma lei que visa garantir igualdade de oportunidade, já que nem todos os partidos dispõem dos mesmos meios financeiros. A CNE activou ainda a lei que exige a imparcialidade e a neutralidade das entidades públicas até ao dia 6 de Fevereiro, dia das eleições. E aqui entram os serviços públicos, todos, incluindo a comunicação social do estado. (ler aqui)

Depois do primeiro comunicado, os partidos retiraram os outdoors das ruas, mas os do governo continuaram. O Movimento para a Democracia já reclamou, tendo, inclusive, apresentado queixa à CNE, palavras da própria pr…

Em busca da cidade perdida

A Igreja de Nossa Senhora da Luz (foto), Concelho de São Domingos, Ilha de Santiago, é o único vestígio notório da antiga sede da Capitania - donatária de Alcatrazes. O histórico e simbólico monumento vai ser finalmente reabilitado.

A Capitania dos Alcatrazes, actualmente “Baía” é a cidade perdida de Cabo Verde. Foi criada nos anos de 1460, aquando do povoamento das ilhas. Por testamento de 28 de Outubro de 1460 legava o Infante D. Henrique a seu sobrinho, Infante D. Fernando, todos os privilégio que lhe haviam sido concedidos sobre as terras de África. Na Ilha de Santiago foram criadas duas Capitanias: a primeira a sul com Sede na Ribeira Grande – Cidade Velha era atribuída a António de Noli. A segunda a norte, com sede na Baía dos Alcatrazes, era concedida a Diogo Afonso como recompensa dos seus trabalhos no reconhecimento das restantes 7 Ilhas, descobertas posteriormente.

Arqueólogos cabo-verdianos e ingleses escavam vestígios de toda essa história no âmbito do início da recuperaç…

Poesia na (p)raia

O silêncio em nós
é um vazio preenchido.

Sereno e testemunho dos dias.
A noite é mais veloz nos trópicos, já dizia o poeta.

Para não mais falarmos do tempo.

Amigo: pura eu

MarkGmania

Basta estar atento aos novos lançamentos discográficos em França, Holanda, Estados Unidos e Cabo Verde para se perceber um denominador comum que se desponta nesses trabalhos: o teclado, a guitarra e o cavaquinho (algumas vezes) unem-se e exibem-se aos nossos ouvidos com um estilo peculiar entre os ritmos todos. Falamos da marca do jovem cabo-verdiano, 31, Mark Gonçalves. O produtor residente nos Estados Unidos trabalha com músicos de diferentes latitudes.

Começou cedo na música, para depois ingressar na Universidade de Berkeley em Boston. Depois de dois anos a estudar música, decidiu partir para o mundo da experimentação, tendo os ritmos cabo-verdianos como inspiração, ao mesmo tempo que fazia incursões em outros sons e cheiros culturais. Tocou numa banda haitiana, a ponto de ser confundido com um deles. É homem do teclado, da guitarra, do trompete...

Com essa busca, Mark G tornou-se um artista de todos “os domínios”: foi, por exemplo, produtor do segundo disco do músico e tamboreiro…

Comunicar com Ética

O mundo político procura a sua via entre um ideal da argumentação cooperativa inatingível no plano prático, mas justo no plano ético, e a renúncia à eficácia bem real, mas inaceitável, das técnicas de propaganda e de manipulação da opinião.
Philippe Breton e Serge Proulx, in: (A explosão da comunicação)


1. A frente propagandística montada pelo Governo não para de surpreender. Sem falar das incontornáveis ladainhas infra-estruturais, e outros "imponderáveis"… há dois dias seguidos que somos brindados na TV Pública (com as responsabilidade do autor devidamente salvaguardadas?!) com curtas publi-reportagens (a passos largos das eleições, nota-se) a seguir ao Jornal da Noite. Não se conhece ainda a dimensão da investida, (será diária?) apenas vê-se que começou com as obras da Secretaria de Estado da Juventude: com a clara intenção de atingir a maioria do eleitorado do país: os jovens! Uma bela democracia!

2. O televisor sem som é um belíssimo quadro,,, (CAZUZA)

A Crioulização, o Candidato e os dias

A música (e as suas nuances) vem sendo um factor primordial na internacionalização de Cabo Verde. Esse fenómeno dá-se de formas diversas, quer pelos músicos cabo-verdianos que levam o nome do país para os quatro cantos do mundo, quer pelo encanto que amiúde a nossa música vem despertando entre as pessoas (artistas, inclusive) por esse mundo ao longe. No caminho encontramos vários casos.

Desta feita, escolhemos falar de ATIM (foto): um jovem marroquino nascido em França que convive durante toda a vida com cabo-verdianos. Por causa dessa convivência, Atim conseguiu não apenas dominar perfeitamente o crioulo, como também inclinar-se completamente para uma “vida artística crioula”. Ou seja, grava o seu primeiro disco com músicas cantadas grande parte em crioulo, com músicos também quase todos de Cabo Verde, e como título para o seu disco de estreia exibe “Tudo pa Bó”: um título que diz tudo, afiança.


A última música do CD de 19 faixas é um Funaná, e será certamente o sinal mais indelével…

Chico é prémio PT 2010

(…) A MEMÓRIA É DEVERAS um pandemónio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto (…)

Este é um passeio pelo enredo de “Leite derramado”, último livro de Chico Buarque. Quando terminei de o ler balbuciei para os meus botões: espectáculo! Assim reajo quando um livro me extravasa as expectativas. As latitudes que me prenderam: a forma como o autor conta o percurso de um país, (O Brasil) através das memórias de um velho aristocrata decadente, num monólogo absoluto, nele despontando a narrativa.

Num leito do hospital do Rio de Janeiro, um velho da linhagem D`Assumpção, genealogia de família tradicional, resiste em desperdiçar os seus últimos dias como um anónimo e decide contar as suas lembranças a quem o quisesse ouvir - os médi…

O jornalismo e as legislativas de 2011

1. Os dois maiores partidos cabo-verdianos estão, há meses, em campanha eleitoral valendo-se, ambos, de todos os meios a seu dispor: tempos de antena, comícios, festivais, inaugurações, programas institucionais na televisão, facebook, autodoors, tudo… Sobre este momento particular do cenário político nacional (os dois partidos se declararam publicamente em campanha), nunca se ouviu uma única palavra (pedagógica que seja) da Comissão Nacional de Eleições.

2. Por esses dias, entretanto, essa mesma comissão está a ministrar uma formação à classe jornalística. A ideia, segundo a presidente da CNE, é ajudar os jornalistas a melhor fazerem o seu trabalho que, segundo diz, não se trata apenas de informar, mas também orientar as pessoas para o voto consciente. O facto é que os jornalistas já começaram a perder terreno no seu desafio de “orientar”, senhora presidente, simplesmente, porque os cidadãos cabo-verdianos já estão a ser bombardeados por quezílias eleitoralistas, antes da hora, pelos …

SETEMBRO

Repentina trovoada de Setembro
e depois chuvas exaustas;
ainda na praia a corrida
juvenil das ondas;
o abandono dos medronhos caídos
e um súbito olhar grave dum filho de dois anos;
vinhas que sangram,
uvas caminhando para o seu fim;
algumas folhas que descem
e as árvores, como as flores, esperando
a partida silenciosa dos insectos
e o sopro de uma breve chegada.

António Osório

Filhos da diáspora...

Interrompe a universidade onde fazia um curso de gestão de empresas, sem, no entanto, desligar-se do mundo musical que conheceu na adolescência; dá um tempo nos estudos, grava o seu primeiro single, e ruma a Cabo Verde para conhecer a terra dos pais, e apresentar-se aos crioulos no show do Akon.
Falamos de Chris Barbosa, um filho da diáspora, mais concretamente dos Estados Unidos. Os pais são do Fogo, e ao contrário do tendencial, Barbosa é pouco fluente em crioulo.
O primeiro CD do jovem músico intitulado “Grown” estará pronto ainda este mês. Um CD que nasce de um laboratório de emoções musicais protagonizado por Barbosa e outros jovens americanos: Fine Print Music, um projecto de escrita e catalogação de composições para géneros, estilos, e ritmos variados.

“Meu primeiro álbum... sairá entre 15 e 17 de Novembro... nessa semana. Já tenho um single com três canções: "Hear that song", "So fine", e "Dance with me”, o mais novo. Vai ser um bom álbum, terá uma…

A propaganda, o prestígio, a reacção bomba, e o salve-se quem puder

Semanas antes do debate parlamentar sobre o Estado da Nacão, numa investida de propaganda sem precedentes, o Governo produziu programas televisivos mostrando trabalhos de ministério a ministério; na mesma senda, os embaixadores (na contramão da diplomacia) apareceram no programa palaciano, em fila de rosário, tecendo rasgados elogios a Cabo Verde, sub-entende-se governação de José Maria Neves. Em toda essa empreitada, não adivinhava o governo que estava a dar um tiro no pé (em democracia actos do género são um tiro no pé, porque a reacção não tarda e o efeito se desarma). O mais insólito desta sanha política foi a ideia de eleger os embaixadores como vozes da legitimação do sucesso governativo, e eco do prestígio internacional. Algumas embaixadoras ainda hoje aparecem na imprensa, mais do que qualquer ministro, candidato, artista ou cidadão deste país...
O fim da missão da embaixadora dos EUA contribuiu para diminuir a intensidade do desfile. Em nenhuma outra missão da sua vida futu…

Vargas Llosa é Prémio nobel de literatura

"Acreditava que havia sido completamente esquecido pela Academia Sueca. Nem sequer sabia que o prêmio seria entregue neste mês", disse Vargas Llosa à agência sueca "TT"."A verdade é que foi uma surpresa muito grande (...) pensava que era uma brincadeira", disse Vargas Llosa, que está nos Estados Unidos, em declarações à radio peruana RPP.

Segundo o filho do escritor, Álvaro Vargas Llosa, o pai foi informado oito minutos antes do anúncio oficial em Estocolmo e "duvidou até o último momento". "Nunca mais teremos que responder àquela maldita pergunta: por que o Nobel de Literatura nunca é entregue a Vargas Llosa?", comentou.

in Folha Online

Para quem pensa em regressar...

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! Minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!

Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.

REGRESSO: Miguel Torga

Emancipate yourselves

Provoca imensa confusão acompanhar análises de alguns comentaristas nacionais, entenda-se, cabo-verdianos, inseridos neste Continente, o africano, que passam a vida a referir que isso ou aquilo está a ser defendido por grandes analistas europeus e americanos, e que por esse motivo são situações dignas de crença e abraço.

Nós, mortais crioulos, alguns com acesso àquilo que dizem os analistas lá fora, queremos ouvir e fazer o nosso juízo a partir daquilo que o digno comentarista nacional formula; olhares construidos de um comentarista que não se deixa abalar por aquilo que se escreve ou se diz nos jornais, televisões, ou "grandes" agências internacionais.

Apenas para reforçar que o debate sobre a “invasão” chinesa vers l´afrique precisa ser tematizado e esmiuçado, de forma desabrida, à luz das vontades locais, nacionais, e regionais, e não estribado no desespero de analistas, crenças e governos europeus que temem perder o seu quinhão africano. Em relação a um país como Ango…

Quando a propaganda invade o campo simbólico do jornalismo

... existe uma relação simbiótica entre jornalismo e democracia, residindo no núcleo dessa relação o conceito de liberdade, fulcro do desenvolvimento do jornalismo. (Nelson Traquina)

À luz da afirmação acima, pergunto: com que liberdade “o jornalista” (ou aquele que invade o seu território simbólico) faz perguntas num tempo de antena partidário? Entendendo o perguntar como um recurso fiscalizador, de interpelação com vista a um melhor esclarecimento da opinião pública, e colocando o jornalista na bancada do contra poder.


1. Quinta à noite, numa tentativa forçada de imprimir ares de confronto num espaço de propaganda do PAICV/Governo (as margens são tênues), o “ideólogo” da peça brindou aos cabo-verdianos com um tempo de antena encapotado de jornalismo. Por duvidar de que se trata de um recurso puramente estético, e por defender as balizas de uma comunidade interpretativa, a jornalística, numa sociedade que dela bem precisa, partilho livremente a minha opinião sobre a matéria. Senão ve…

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Project Salt – preservando a música tradicional de Cabo Verde

“A minha relação com Cabo Verde surgiu a partir do dia em que escutei um CD de Cesária Évora. Comprei um bilhete de avião e decidi que queria conhecer este país.” Foram mais ou menos nesses termos que Johnny Fernandes me respondeu, quando o interpelei sobre o seu intenso interesse por Cabo Verde. Antes pensava tratar-se de mais um cabo-verdiano da diáspora que não sabia se expressar em crioulo. Mas estava enganada.
Fernandes é moçambicano, nasceu em Zimbabué e a partir de um certo momento de sua vida decidiu trabalhar em prol das crianças mais necessitadas um pouco pelo mundo. Em Cabo Verde, mais concretamente no Sal, criou o Project Salt - preserving the rich musical traditions of cabo verde e trabalha em parceria com a Câmara Municipal apoiando, por meios diversos, a formação de crianças e jovens na área musical.
A vinda do grupo Publish The Quest ao Festival de Santa Maria 2010, enquadra-se nesse plano pedagógico, multicultural e humano que, para além da arte pura, move os proje…

You never know who you´re gonna meet

“A tradição” de há 21 anos se cumpriu e aconteceu mais um festival de música de Santa Maria, nos dias 17 e 18 deste mês. Um evento que ficou marcado por uma diversidade de estilos e de presenças musicais, a par de um ambiente humano e natural notáveis (incluindo a chuva). Há dez anos, quando conheci o festival guardei comigo as melhores impressões desse certame. O espírito persiste. A chuva melindrou o segundo dia e a sua insistência na manhã de domingo obrigou a que se cancelasse a actuação do colectivo da Holanda, onde se previa a actuação de Grace, Zé Delgado e Kino. Pena!
Gilito, Kido, Cordas do Sol, Cabossom, Tecla 2, Boss AC e outros brindaram os festivaleiros de Santa Maria com uma bonita “celebração” da música.

Intercâmbio

Um dos fundadores dos Kings, o emblemático grupo dos anos 70, de fresco nas lides dos festivais, é da opinião de que a festa deveria explorar mais a componente intercâmbio artistas/artistas. Um facto que, entretanto, também se altera, com iniciativas dos pr…

Profundamente Borgeano

"Estou só e não há ninguém no espelho"

Jorge Luis Borges

Momentos Cafeanos do Jornalismo Cultural

nota pura: o debate sobre o Jornalismo Cultural começou, ganhou tentáculos no Café Margoso, e, à par dos mimos de sempre, e de reacções mais circunstanciais, eis que surgiram boas sugestões que, do meu ponto de vista, desbravam o caminho, e ajudam a estreitar os olhares sobre o próprio jornalismo e a sua endogeneização. Confiram!

1. Vejam a Cultura como um todo e não como uma elite. O mal é precisamente esse e continua a ser.Não queiram trazer modelos europeus do que é ou deve ser o modelo de jornalismo cultural. Deixa o país encontrar o seu próprio modelo porque a questão da abordagem ao povo para o poderes formar, aos poucos, é que interessa. (anónimo)

2. ... em Cabo Verde, ainda estamos muuuuito longe. A nossa realidade, são redacções ‘pressionadas’ pelos ‘donos’ (que vão desde Governos, Partidos, a grupos económicos, religiosos…) sem a vontade e nem os meios necessários – humanos, financeiros – que ‘tratam’ o que ‘mais interessa ao respectivo’, normalmente a política e interesses …

Do Jornalismo Cultural

nota pura 1: Depois de semanas de interregno, passei pelo blog de João Branco e deparei-me com uma entrevista que fizera a Alex Silva no Jornal A Nação. Nela encontro duas questões repetentes nas entrevistas que o autor de Café Margoso tem feito ultimamente, não sei se como jornalista ou como alguém que entende de cultura.

João Branco: Costuma-se dizer que Cabo Verde é um lugar onde os artistas nascem com demasiada facilidade por via da comunicação social...

Alex Silva: A comunicação social tem uma grande responsabilidade no actual estado de coisas. Não sabem diferenciar, não há especialização, acabam por gerar mal-entendidos. Vê-se um miúdo a tocar e temos a comunicação social a dizer que é dos melhores guitarristas de Cabo Verde. Não há pessoas formadas nessa área cultural. Especializadas nessa área. Um jornalista que muitas vezes está a entrevistar um jogador de futebol é o mesmo jornalista que vai entrevistar um artista. Acaba por ser natural que ele tenha as suas limitações.

João …

Tarde no mar

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

Florbela Espanca

note pure: bonne weekend a tous mes amis

A Internet e os Candidatos

Carlos Veiga lança na terça-feira o seu site de combate para as legislativas de 2011. O motivo dessa nova frente digital é confesso e assumido no próprio endereço do site. José Maria Neves ainda não anunciou o seu site. Ele criara há meses um blog que não teve continuidade, já que não passou de dois posts. Se bem que o blog de Neves não parece ser um instrumento de campanha. A marca do Primeiro-Ministro, candidato à sua sucessão em 2011, parece ser o Facebook, onde os pedidos de amizade já ultrapassam o limite permitido e o mesmo, como confessou em tempos, cogita a possibilidade de abrir um “fan space”. Debates sobre vários assuntos da actualidade governativa com a participação do próprio autor, têm acontecido no mural do Primeiro-Ministro.

Carlos Veiga também está no Facebook. A sua conta é gerida por alguém próximo e o número de pedidos de amizade também tem aumentado vertiginosamente.

As redes sociais com o recurso às NTICs não são apanágio apenas dos candidatos a Chefe do Govern…

A lição de Cícero

A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos." (Cícero)

fotu: cidade velha: Kay

Tarantino, Eli Roth, e o gosto (vermelho) de sangue

Da estética: Volto a Quentin Tarantino, provocador-mor do cinema. É daqueles astros, herméticos e misteriosos, no propósito estético e psicológico da arte que praticam. Na sexta-feira passada, a TCV exibiu Hostel: part II, uma realização de Eli Roth, com participação de Quentin Tarantino na escrita original do argumento e na produção. Um filme que percorre todos os labirintos de loucura (habitués) do realizador. A fotografia é irrepreensível: a cinza do silêncio, a luz e a sombra, a ponte e as extremidades do terror (entre a clausura e a liberdade), as figuras pálidas de feições expressivas na sua diversidade (todas), os cães de andar serpenteado, a cama de ferro, a morte ensanguentada, a “ética” do pacto no sub mundo do crime. Só visto! A corrupção, a degradação humana, a decadência da vida da terra, e o teatro da morte a vermelho, como a celebração do fim.

Do enredo: a narrativa serve de ponto de partida e de chegada para as provocações estéticas de Eli Roth/Tarantino, (discípulo e m…

Antes de amar-te

Antes de amar-te, amor,
nada era meu:
vacilei pelas ruas
e coisas:
nada contava,
nem tinha nome:
o mundo era
do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que
insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua luz, teu sorriso
encheram minha alma.

Nomes e prenomes tive
beijos, carícias e
carinhos me deste,
e tua beleza e tua
pobreza de dádivas
encheram meu outono,
meu inverno,
minha primavera,
meu verão

e agora,
sem o outono de volta...

Pablo Neruda

Coetzee: o poliedro dos espelhos

J.M.Coetzee é um escritor surpreendente. Prova-o os seus livros.
“Verão”, a sua última obra, é parte da trilogia de suas memórias ficcionadas e iniciadas com Boyhood e Youth. Em verdade, ousa um terceiro olhar sobre uma África do Sul insular, sem perspectiva humana comum, nem rumo ou esperança. A obra é diferente de tudo, tão existencial quão extensivamente intrigante e desafiante. Onde começa e termina a ficção em "Verão"? Ninguém consegue dizer e muito menos perceber as fronteiras que o texto insinua, tal a carga táctil da realidade narrada.

O escritor faz uma autobiografia ficcionada de Coetzee, o próprio, entre os anos 1972-75. Um biógrafo viaja até África do Sul, França, Estados Unidos e Brasil e entrevista cinco pessoas que teriam marcado a vida do escritor sul-africano. Os relatos caminham entre temas de carácter pessoal, íntimo, familiar e literário. O curioso é que em nenhum desses retratos Jonh Coetzee é descrito como uma alma bem sucedida, muito pelo contrário: …

Quando passo

Sou como você me vê,
posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando,
e como você me vê passar.

Clarice Lispector

"Lá e Cá" inspira

O programa “Lá e Cá”, co-produzido pela TV Cultura (Brasil) e pela RTP (Portugal), foi emitido inicialmente nesses dois canais e, agora, já pode ser visto também na RTP África, até para servir de inspiração.

O projecto, da autoria do jornalista brasileiro Paulo Markun e com participação especial de Carlos Fino, funciona como uma rede interior que cobre duas culturas: a brasileira e a portuguesa. O desafio é mostrar, em cada episódio, onde começa e termina a presença de Portugal no imenso mundo brasileiro. Dir-se-ia o cumprir o vaticínio de Fernando Pessoa de ser o Brasil “um Portugal à solta”.

No programa de ontem, por exemplo, fica-se a saber que muitas lendas sobre bruxas chegaram ao Brasil com a emigração açoriana: os cristãos novos que desembarcaram nas terras de Vera Cruz, fugindo à inquisição.

Todo o imaginário que percorre o imenso Brasil, de norte a sul, acerca de Dom Sebastião, que desaparece na batalha do Alcácer Quibir, foi também explorado no programa. “O messianismo reinterp…

J.M.Coetzee, for ever!

“Tem de acreditar quando lhe digo que nada – mas mesmo nada – estava mais longe do meu espírito do que namoriscar com aquele homem. Porque ele não tinha qualquer presença sexual. Era como se tivesse sido pulverizado da cabeça aos pés com um spray neutralizador, um spray castrante.”

nota pura: uma passagem de “Verão”, último livro do Nobel J.M. Coetzee: A fala é de Julie e refere-se ao próprio Coetzee numa inabalável escrita deste. Uma narrativa em que o escritor sul-africano se reinventa para si e para a literatura. Voltamos com mais detalhes, ainda andamos a meio do "Verão".

Sobre o livro de Françoise Asher

Uma comunidade que, apesar de diferente, vivia o seu tempo numa realidade que apenas carecia de uma contextualização, principalmente por aqueles que a viam de fora. Foi esse trabalho que, de espírito aberto e de forma aturada, faz Françoise Asher no livro “Os Rabelados de Cabo Verde”.

Está-se perante uma obra de investigação jornalística, por conseguinte de pesquisa científica, pelos métodos que apresenta e pelo claro desafio ao empirismo que a temática tende a impor aos leitores.

Indo para além da tentação da mistificação do fenómeno antropológico e sociológico dos Rabelados, a autora faz um autêntico trabalho de campo e problematiza, a partir dos dados que obtém, as causas, as origens, a forma de ser e de estar dessa comunidade que ainda se mantém à margem do fulcro social cabo-verdiano.

Do cruzamento das fontes várias, Françoise Asher informa sobre uma franja de cabo-verdianos que, em certa medida, decidiu valer-se de reminiscências como argumentos de afirmação de uma identidade relig…

São tantos momentos...

1. “Nesse contexto social em que a democracia é mais senso-comum e ambiência cotidiana do que paixão ideológica, os meios de comunicação adquirem um novo estatuto cultural e uma posição de poder sem precedentes na História do mundo” (Sodré 1996:70).

Este debate não existe neste país onde as televisões (do mundo e da terra juntos) representam poderes (sem vontade fundadora) e interesses incalculáveis, e confrontam-se impulsivamente para o eterno inconformismo dos telespectadores que têm aquilo que não querem, e estão longe de ter o que precisam.

2. Enquanto isso, a RTP África emite no Repórter África uma peça com José Maria Neves, em que este fala da sua adesão ao facebook, e “dos grandes propósitos desse feito”. Um desses propósitos é quebrar o “isolamento” do primeiro-ministro que na rede partilha grandes decisões, de poesia às questões de governação, admite. Já atingiu o limite das amizades na rede social, e cogita a possibilidade de criar um club de fãs, à moda dos grandes artistas. …

Jornalismo para quem precisa

1. Nos últimos dias temos sido varridos por uma vaga de acusações vinda do jornal Liberal, e ontem das hostes do MPD, relacionadas ao cerceamento da liberdade de imprensa. Todas as balas estão sendo gastas com a TV Pública, tendo como alvo os serviços noticiosos do canal. Nesse avalanche de críticas, houve, e ouve-se muito equívocos: relativamente ao trabalho dos jornalistas, o papel dos media publicos e privados, os meandros do serviço público, os sujeitos... e o mais grave, uma tirada partidária sem o mínimo de preparo, num debate que deveria interpelar, em primeira instância, a classe jornalística, (quando se pensa no foco do problema). Razões existem ... a começar, por exemplo, pelo (s) lugar(res) da informação, (o conceito; os sujeitos; os interesses;), e termina nos limites e implicações da publicidade institucional do governo nos órgãos públicos. Se o momento é quase eleitoral, o recorte da problemática é ainda maior.

2. Nessas horas, em que os ânimos partidários se levantam, e …

Ode ao Tempo

1. Patrícia pressente o viver como o vagar por uma estranha e imprevisível estrada: nunca encara as vias; algumas, ela ignora, pisa, e o caudal arrasta-se, prossegue, persegue-a, para em seguida desviar-se do estarrecido fim. Nunca escreveu uma história, nunca viveu uma história, nunca subiu a um palco, tal o pavor que lhe encerra os finais. Decidiu estar num lugar qualquer onde o princípio e o fim são um nada entrelaçados e desvanecidos num tempo acabado.

2. Olha, parada, o horizonte que se recusa a alcançar: o que faz dela uma alma conformada com o tempo que nunca se abriu.

3. Um dia decidiu partir sem destino, mas com a certeza do tempo e do nada que nele paira.

4. Enquanto os dias passam, com ele junto...

Patrícia: dias ao largo

1. Retomo as histórias de Patrícia.

2. Ela continua a viver o mundo, mas em toda e qualquer avenida apenas alcança as calçadas da sua ruela, as ribeiras do seu chão, e os olhares familiares que a viram sendo. Insiste naquele tempo inicial só dela, que não pertence a mais ninguém, insiste em ser menina, hoje, entre rugas e tempos cruzados, entre dores e alegrias vividas. As derrotas, e também as vitórias, para a jovem mulher, continuam indiferentes. É como sente a própria vida: dias que passam ao largo de tudo.

Uma experiência privada (da vida pública de Arendt)

“No seu estilo inimitável, Heidegger escreveu a Arendt que o reatar da amizade entre ambos se devia a Elfride, e que o amor dos dois era sustido pelo amor da esposa. A imagem das duas mulheres a abraçarem-se à despedida era a imagem que ele idealizada para o futuro: um vínculo emocional entre as duas alimentado pelo amor que tinham por ele. Depois disso, Elfride estava presente em quase todas as cartas de Heidegger, enviando beijos, saudações, cumprimentos a Hannah. Os três encontravam-se no limiar de uma nova experiência, em que Hannah Arendt pertenceria a Martin e a Elfride Heidegger.”*

nota pura: Martin e Elfride Heidegger (nazi) eram marido e mulher, e Arendt (alemã judia) aluna e amante do filósofo alemão. Anos depois de um caso amoroso secreto, desafiante e movido a impulsos, (que chegou a terminar, Arendt (foto) teve outros casamentos de permeio) Heidegger ensaia uma aproximação entre as duas mulheres de sua vida, e chega a idealizar uma cumplicidade a três que se revela no fim …

Sentimento 35 (e outros)

1. Uma certa azáfama à volta das comemorações do 35º aniversário da Independência Nacional fez-me lembrar Caetano Veloso e o seu dito em relação aos que desejam matar amanhã o “velho” que morreu ontem. O espavento, em plena bonança, deixa a descoberto aqueles que não se deram conta do vendaval, e alguns que só agora ouviram falar des "femmes" e des "hommes". À par do resto, que é sempre igual e que, inclusive, já teve mais brilho, a valer mesmo será nos abraçarmos todos aos reptos com equilíbrio, diga-se de passagem, no acto solene: (lucidez, pés no chão, futuro, juventude, emprego, combate à pobreza, etc.), sendo a história dinâmica e, por isso mesmo, de se lhe reinventar compromissos novos; a independência nacional (já) foi uma etapa decisiva na história de Cabo Verde, porque a soberania de um povo é vital para a sua consciência. Os personagens desse momento histórico, muitos deles, tomaram rumos diferentes. Outros, também muitos, engendraram novas e importantes …

Quintana: o poeta dos dias

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

poema: canção do diade sempre

À brava ilha de nhô Tatai… aquele abraço

A festa da Bandeira de S. João, na Ilha Brava, este ano, excepcionalmente, prolonga-se para além do dia 24 de Junho: a grande sexta-feira foi emendada com o fim-de-semana, (vai dar Terra Samba) e a ideia é boa. Não fossem as deficiências de transporte, já habituais na ilha, o brilho seria diferente, garantiu o edil à TCV.

A tradição se cumpriu e a edilidade homenageou Armando de Pina, compositor bravense de muita nomeada, a viver largos anos nos Estados Unidos. Das suas mornas, as mais emblemáticas são “Mar ê morada de Sodade” e “Oh Djabraba N Ca Negabu”

A nota curiosa da festa deste ano é a tomada da bandeira por um filho do Fogo. João Pedro é proprietário do conhecido restaurante de S. Filipe, Sea Food, um fervoroso amante das bandeiras e um devoto de S. João. Desde meninice que acompanha a Banderona em Campanas baixo (Fogo), que acontece em louvor ao mesmo Santo, tendo sido cavaleiro dessa bandeira.

Apesar da alegria pela passagem da bandeira, é pena perceber que depois de anos e anos…

Os poemas ...

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana

A memória… do imaterial ao visual

1. Decorre no IIPC (23 e 24 de Junho) um atelier de formação em técnicas de transcrição do património imaterial, no âmbito do projecto “Multiculturalidade e Plurilinguismo: tradição oral e educação plurilingue”. Este projecto é financiado pela União Latina e propõe-se à recolha de contos populares para posterior publicação de materiais didácticos. Em Cabo-Verde foram recolhidos 30 contos nas ilhas do Fogo, Santiago e Santo Antão. O projecto engloba ainda países como Guiné-Bissau e Senegal. Consolidar a ideia de cidadania e respeito pela diversidade cultural é o desafio da iniciativa.

2. A propósito da memória, ocorre-me falar do descalabro que é a não preservação do património visual (entende-se arquivo) da Televisão de Cabo Verde, a TV Pública. Ouve-se falar de trabalhadores que comercializam imagens, a torto e a direito, mas nunca se aponta o dedo a responsáveis (Directores, Chefes de Departamentos e Conselhos de Administração) que, nos seus reinados, autorizam cópias ao sabor dos ve…

Saramago, a força literária da lusofonia

Faleceu, hoje, aos 87 anos, em Lanzarote, nas ilhas Canárias, o escritor José Saramago, o único prémio Nobel de literatura da língua portuguesa. Prolixo e polémico, o romancista português ora falecido deixa uma vasta obra, traduzida em dezenas de línguas e lida por milhões de pessoas em torno do mundo.

Não escondendo as suas profundas convicções ideológicas, Saramago deu azo a uma polémica com alguns acérrimos do catolicismo ao escrever “Caim”, pontuando uma interpretação filosoficamente irreverente sobre a parábola bíblica do Caim e do Abel. Igualmente terão sido polémicas as suas posições sobre o posicionamento dos ibéricos em face do desafio da Europa com o romance “Jangada de Pedra” e sobre o absurdo da modernidade com “Ensaio sobre a Lucidez” e “Ensaio sobre a Cegueira”, este último transformado em filme pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles, em 2008.

Para muitos, o seu melhor romance é “Memorial do Convento”, publicado em 1982, dois anos antes de ter escrito “O Ano da M…

Cabo Verde aos pés de Portugal: a Imprensa vai junto

1. Aconteceu há dias em Lisboa a I Cimeira Luso cabo verdiana. Duvido que o acontecimento tenha merecido destaque nos telejornais portugueses. Entre nós, assuntos do tipo são considerados notícias de primeira monta, mesmo quando alguns desses acordos assinados não passam de mera cosmética, ou as palavras da hora, puro ímpeto de circunstância. A imprensa cabo-verdiana aprecia esses teatros e participa do "folclore" que muitas vezes acaba sendo esses reforços de cooperação, aprofundamento das relações, etc. Quando José Sócrates visitou Cabo Verde (só visto!) a correria atrás do senhor ministro. Terá faltado fôlego para tanta disponibilidade.

2. A participação de José Maria Neves nas comemorações do dia de Portugal (10 de Junho) foi considerada, por cá, uma honra. Segundo se noticiou, é o único chefe de governo da África lusófona a participar nessa importante festa para aquele país. Em vez dessa exaltação, os media que devem ser, antes de mais, críticos, deviam questionar porque…

Momento Gullar

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

nota pura: "Mau Despertar" (Agosto 1977) de Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010 (o meu e nosso poeta sujo)

Ca tem ninguém sima él

Fiquei com o refrão “ca tem ninguém sima bó” na cabeça desde que ouvi a versão da música “One Love” de Sara Tavares, interpretada por Daniela Mercury: a diva baiana que encanta com a sua alma de artista a todos quantos reconhecem no chão da Bahia uma síntese cultural com selo atlântico. A origem desse encontro pela via atlântica, como se sabe, foi em Cabo Verde, em Santiago, o interposto do novo mundo, mas não existe corredor mais possante do que aquele que se vive em Salvador da Bahia.

Daniela Mercury, nas últimas duas décadas, tem sido uma das traduções (em seu tempo, a seu ritmo, e em semblantes diferentes) desse universo complexo e profundo que nos interpela a todos quantos existimos através desse (e nesse) corredor do mundo. Nós, a quem pouco interessa o centro ou a periferia. A música de Daniela Mercury, toda ela, tem raiz profunda nessas melodias atlânticas de que se fez o Brasil, ou concretamente, a Bahia de todos os Santos.

Um show de Daniela Mercury como presente do Brasil aos…

A minha insensatez futebolística

Este post cumpre um propósito sui generis: o de confessar a minha ignorância franciscana em matéria futebolística. No passado sabado, enquanto decorria o jogo Inter deMilão x Bayern de Munique, não tinha a mínima noção de que se estava no final da Liga dos Campeões da Europa.
Na estrada Milão, Torino, (aqui na Itália) depois de entrar em dois restaurantes diferentes, e ter notado a mesma euforia, cheguei à conclusão que, sim, estava realmente a passar ao largo de um grande evento. Em Fossano, no pitoresco “Mania di Pizza”, sugeri que parássemos e assistíssemos aos momentos finais da partida. Soletrei à entrada na camisola de um cidadão, a palavra Milito que na hora não me disse coisa alguma. Terminou a partida, e tudo o resto foi surpreendente: da reacção das pessoas à dimensão da transmissão na RAI 1. Aquele choro de Mourinho que não acabava mais, o treinador considerado pelos comentadores “o deus desta noite”. Curioso: o dono do restaurante, Toninho, que não ligava a nada disso, apen…

Equívoco estético e ético

Quem de direito que mande suspender a emissão do spot intitulado “Cidadania em 1 mn” emitido insistentemente nas TV´s nacionais: a cena começa com o enquadramento de uma casa colorida, em off ouve-se uma discussão de casal seguida de agressão, gritos estridentes de filhos e da mulher vítima, e sons de objectos que se partem. Enquanto isso, do lado de fora, curiosos se juntam, e chegam finalmente colegas jogadores do agressor que o excluem da equipa e lhe dão um cartão vermelho.
No fim, fica em todos: jovens, adultos e crianças, homem e mulher: (tive o cuidado de perceber isso) uma sensação de muito desconforto, fruto da excessiva agressividade da cena que se ouve, para não falar em alguma banalização da violência (o cartão vermelho, que se pretende uma condenação, pouco convenceu) e da falta de subtileza, tão essencial no jogo de comunicar.

Sinais que ficaram!

Desde o Kriol Jazz Festival que não escrevo uma nota neste espaço, sem deixar, entretanto, de contar os dias em outras paragens:

1. (Bandeira S.Filipe) Passaram à história as festividades de São Filipe e não tive a oportunidade de escrever sobre uma das melhores bandeiras dadas nos últimos anos. Os festeiros (familiares de Dinis Dias da Fonseca) fizeram jus a uma das festas populares mais rijas e complexas deste país. Alguns momentos, principalmente aqueles do baile de violino e de homenagem aos coladores e tamboreiros, foram horas de boas recordações e rememoração de uma cidade que já foi, e pode vir a ser. Outra nota vai para o lado religioso que este ano, muito ao contrário dos anteriores, foi cuidado e celebrado com muito sentido de fé no Santo.

2. (media 1) A 3 de Maio celebrou-se o dia da Liberdade de Imprensa: daquilo que pude ler e ouvir, deu para perceber que não se fez, em momento algum, a ligação necessária entre o pacote legislativo da comunicação social aprovado no parlamen…