8.5.08

a poesia e a voz

Example













Em tempos de campanha e ócio tomo como minhas as palavras do poeta e elejo "Uma voz".

Sua voz quando ela canta
me lembra um pássaro mas
não um pássaro cantando:
lembra um pássaro voando

Ilustração: Ferreira Gullar mostra os seus poemas sujos a Milton Nascimento, o dono da voz...

1.5.08

Eu

Example














Eu à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.

recordar vladimir maiakovski pela revolução que (nunca) houve. ´

28.4.08

Poema da amante

Example












Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Adalgisa Néri

22.4.08

Mendes Brothers cu nós

Example










O emblemático duo, João e Ramiro Mendes, regressa aos palcos de Cabo Verde para celebrar, em grande, os seus 30 anos de carreira. A banda Mendes Brothers, com os sete discos gravados, contribuiu de forma indelével para que os ritmos tradicionais da Ilha do Fogo fossem conhecidos e apreciados. Os dois músicos, ao longo desses longos anos de percurso, fizeram uma verdadeira incursão na etnografia da ilha do Fogo, e traduziram em ritmos únicos a vivência tradicional dessa região. Ritmos como tchoru, cola, bandera e rafodju selaram todos os discos desses músicos radicados nos Estados Unidos. País, aliás, onde ambos tiveram a rica oportunidade de entender a missão da música.

De recordar, que foi com o Semba (género musical de Angola) cantado pelos Mendes Brothers que a ligação musical entre os Países Africanos de Língua Portuguesa começou a ganhar a dimensão que tem hoje. Nesse espírito de troca muita coisa aconteceu, e um legado ficou.

Nos últimos anos, João Mendes esteve um pouco afastado das lides artísticas, ao passo que Ramiro Mendes tomou novos rumos, nomeadamente nas áreas de produção musical e cinema. A propósito, vai ser emitido na Televisão de Cabo Verde um documentário de sua autoria sobre a música das ilhas, esta quarta-feira.

Na decorrência desses engajamentos, Ramiro Mendes foi distinguido com o título de embaixador cultural da “The Sole of África” (Alma de África), uma campanha mundial da ONG “Mineseeker Foundation” que visa erradicar as minas anti-pessoal.

Mendes Brother actua na quinta-feira, 24 de Abril, às 21H30, e o espectáculo será transmitido pela Televisão e Rádio nacionais. Antes, e durante o espectáculo, decorrerá no hall da Assembleia Nacional, uma exposição sobre a gastronomia e o ecossistema da Ilha do Fogo.

Madjon Di Djarfogu

Nu selebrâ
Nu selebrâ
Nu selebrâ
Nos gentis grandi
Nu selebrâ
Nu selebrâ
Es ki é madjon di djarfogu

MB

Dia mundial da terra (na década da água)

Example








A par da energia, a água é uma das questões ainda não bem equacionadas em Cabo-Verde. Há uma grande carência em quase todas as regiões nas quais as redes de abastecimento são inferiores a 40 por cento, havendo casos em que beneficiam menos de 10 por cento dos habitantes.

Example








De acordo com um relatório da ONU, em termos de quantidade de água disponível anualmente em média por habitante, Cabo Verde está em posição 158 em 180 países do mundo, tendo-se estimado que cada cabo-verdiano beneficia de apenas 703 metros cúbicos de água por ano.

15.4.08

Os anónimos da Bandeira, e a cidade (que houve)

É quase Maio. Quem visita este blog há 4 anos, sabe que é quando escrevo sobre os personagens da bandeira, curiosamente, os anónimos da Ilha do Fogo. Os netos e bisnetos de coladeiras e tamboreiros que ao longo dos anos deram vida a uma das manifestações culturais mais emblemáticas de Cabo Verde: a Bandeira. Essas almas, são as únicas que ainda têm fé nos santos que celebram, e mostram-na ano pós ano. Nos dias de S.Filipe, S.João, S.Pedro, Santa Cruz nas diferentes localidades da Ilha do Fogo entoam-se cânticos e tambores, reafirmando a sua crença na alma dos dias, e no destino dos homens.
Assim como registo com sentido de causa esse marco, critico a instrumentalização política e económica a que a bandeira de S.Filipe vem sofrendo. A bipolarização partidária que tomou conta de Cabo Verde também invade, de forma intolerável, as festas populares. Uma apropriação que vem descaracterizando a Bandeira e afastando, cada vez mais, o povo e os verdadeiros fiéis.
Em decorrência desse facto, personagens reais das bandeiras na Ilha do Fogo têm sido abastardadas, ao contrário do que acontece na Brava, por exemplo, onde as coladeiras e os tamboreiros são os verdadeiros donos da bandeira de S. João.
Lembro-me da chefe das coladeiras da Brava dizer-me, certa vez, que nunca mais participaria na Bandeira de S.Filipe, porque não gostou da forma como as coladeiras e tamboreiros são tratados. Gente que devia ser colocada no centro das actividades: Nhô Sopa, Waldomiro, Nataniel, Maia Tchuneta, Idalina, e muitos outros, inclusive jovens, gente imprescindível dessa festa secular.
Os defensores (e empresários) desse separatismo festeiro defendem-se dizendo que a Bandeira de S.Filipe sempre foi uma festa elitista. Eis uma grande falácia histórica, já que os arreais, de que as bandeiras são parte (no sagrado e no profano) tendem as misturar as águas e a horizontalizar os entes sociais. Por isso, não compreendo que a Casa das Bandeiras seja hoje um espaço "dos novos brancos da terra" e não um espaço ancestral do povo das bandeiras.

Aqui está
num papel
a cidade que houve
(e que não me ouve)
com suas águas e seus mangues
aqui está
(no papel)
uma tarde que houve
com suas ruas e casas
uma tarde
com seus espelhos
e vozes (voadas
na poeira)
uma tarde que houve numa cidade
aqui está
no papel que (se quisermos) podemos rasgar.

poema: Gullar
imagem: s.filipe.com

14.4.08

A (ir)racionalidade de uma canção

Example













A canção...
Intensidade… viagem… melodia…. (des) construção emotiva
Causa e consequência.
Sinais ... margens.
Em suma: profundidade e eternidade.
Razão, também!

Ao meu amigo Cláudio Matraxia

Ilustração: Jackson Pollock

8.4.08

Quadro Histórico

Example


















Georges Sand, de barba e bigode,
passeando, fumava tudo
o que havia para fumar:
cachimbo, charuto e cigarro.

Num sofá de seda, uma menina
pálida e tísica, de seu nome Chopin,
sem ligar nada ao piano,
simplesmente dormia.

Longe dos seus tinteiros azuis,
na chaise-longue, um paquiderme
chamado Balzak falava, falava
e nunca mais se calava.

poema: Arménio Vieira
na ilustração
: George Sand e Chopin - Admite-se que os dois rostos pertenciam a uma mesma tela (Delacroix) cortada entre 1863 e 1872. Pensa-se que George Sand está sentada à esquerda do quadro, fitando e a escutar Chopin ao piano, à sua esquerda.

1.4.08

Em nome do puro cinema

ExampleO americano Quentin Tarantino, actor, realizador e roteirista, é sobretudo um amante desvairado do cinema. Sabemo-lo do Pulp Fiction, filme que lhe abriu as portas para a imortalidade. Sabemo-lo também, já como consagração, pela obra À Prova de Morte (Death proof, 2007), trama de alta intensidade sobre as referências e as paixões fílmicas de Tarantino.
A história, aparentemente básica e linear, é um polígono de terror: um psicopata (Kurt Hussel) segue pela noite quatro lindas raparigas e acaba por assassiná-las num brutal acidente premeditado. O "crash" dos carros é propositadamente macabro. A recorrência a um psicopata, que se apresenta como duplo de filmes, é outra homenagem ao cinema dos anos 70, assim como a alusão à paixão dos australianos por carros, através de uma das personagens da segunda parte do filme.
Os diálogos entre lindas raparigas com telemóveis e revistas modernas repescam o cliché da cultura pop-anglo saxónica. Dir-se-á o mesmo da trilha sonora onde inclui "Laisser Tomber les Filles", popularizada por France Gall. Tais referências divertem e activam a memória.
A cena (inovadora) das perseguições de carro é também uma linda homenagem à Sétima Arte: o suspense é notório e prende-nos como parte do drama. Na primeira parte do filme, o embate mortal é sentido por cada uma das personagens: pontos de vista difíceis de conciliar (aos níveis da realização e da montagem). A segunda parte com outro grupo de meninas da moda é menos tensa, mais divertida e surpreendente, porque viram o jogo, e perseguem o psicopata até à morte.
A violência é definitivamente o elemento que excita Tarantino (Pulp Fiction como ápice). No Death proof , Tarantino retalha o tempo em nome do puro cinema.

28.3.08

Pablo Neruda

Example













Neruda, por acaso,
detestava os livros.
Daí que os deixava,
em casa, sem nunca os abrir

E, saindo à rua,
que é onde a vida começa,
só parava à beira-mar

E, à beira-mar,
esquecendo que é na estreita
vereda entre o umbigo e o ânus
que os paraísos começam e findam,
Neruda enlaça a mulher,
pelo nome (que assim
ela cabe melhor no poema)

E, sem que de lábios,
mamas e coxas
ele faça menção,
nem ao licor
com que a mulher
embriaga, antes do sono,
o poeta navega e dorme

Arménio Vieira

27.3.08

Mudjeris

ExampleA mulher saiu da fila, deu uma volta e, aproximando-se de outro empregado, fez nova tentativa.
- Veja se Domingas Lopes tem carta.
Nova procura nos cacifos e nova negativa:
- Não, Domingas Lopes não tem carta.
Ela saiu com ar desconfiado e resmungão:
- Ter, tenho a certeza que tenho carta... Eles é que não ma querem dar.
E lá se foi, caminho de casa, impertubável na sua fé."

Destaco o trecho acima (sublinhado meu), parte de uma crónica publicada em Agosto de 1955 no jornal Cabo Verde por Maria Helena Spencer, a primeira jornalista cabo-verdiana (falecida no ano passado). Celebrar o dia da mulher cabo-verdiana é também ter a capacidade de aceitar, ainda que criticamente, a história, e assumir as referências que ela nos legou. Acredito que seja essa a tentativa da compilação que a professora Ondina Ferreira lança hoje na Biblioteca Nacional, assinalando o dia da mulher cabo-verdiana. “Elas Contam” é o título do livro que cruza épocas e mostra o cabo verde feminino em bocados, por fases, por olhares com Maria Margarida, Orlanda Amarílis, Maria Helena Spencer, entre outras.

25.3.08

Example













Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Neruda

18.3.08

Cinema e cinema

Example















Falemos d´«Orquestra da Piazza Vittorio », um filme documental do realizador italiano Agostinho Ferrente (2006). Assisti ao filme, e a outras tantas dezenas no Festival Internacional de Cinema de Alba, em Itália. Acresce a isso, um debate sobre o trabalho com o realizador. O filme conta com entrevistas e outros apanhados, o percurso da criação de uma orquestra, num distrito de Roma, composta por músicos desconhecidos de várias culturas e línguas. Os 4 anos que Mário Tronco, compositor e pianista, levou para criar a orquestra são recheados de flashes da vida dos próprios «músicos»/personagens que hoje fazem parte da orquestra. O interessante, a meu ver, foi o caminho percorrido por entre linguas e culturas, tendo a música como guia. O que poderia ser uma babel, acabou numa sinfonia...O proprio realizador que provavelmente se surpreendeu com o efeito (a criação efectiva de uma orquestra) afirmou que caso isso não tivesse sido possível, concluiria ser impossível organizar uma orquestra em Roma. Mas o documentário mostrou que não: o realizador, enquanto tal, com arte e visão, pode mudar a realidade, interferir-se nela com uma camara de filmar. A Orquetra de Piazza Vittorio que se formou com a conclusão desse filme, ora actua em várias partes do mundo.

O Festival…

Não é a primeira vez que escrevo sobre o Festival Internacional de Cinema de Alba, fundado por Octávio Fasano, padre capuchinho que vive entre a região de Piemonte e a Ilha do Fogo. Um visionário e homem do seu tempo.
Esse certame, apesar de local, tem uma abordagem extremamente pertinente e actual no que se refere à produção cinematográfica e audiovisual, a nível mundial. Este ano, sob o tema « Rir», o certame programou filmes em competição a nivel da Itália, e internacional (dos 4 continentes) uma série de debates, e workshops, tendo como convidado de honra o canadiano Paul Haggis, um dos mais aclamados realizadores hollywodianos do momento. Além dessa grelha própria, o Festival exibou os 10 filmes da vida de Haggis, onde não poderiam faltar, claro está, os seus maiores sucessos como Million Dolar Baby (2004, Clint Estwood), Crash – Contacto físico (2005, Paul Haggis).
Os clássicos como Ladrão de bicicleta (Vittorio De Sica, 1948) e Rear Window (Alfred Hitchook, 1954) também fazem parte da lista dos dez mais de Haggis.
A Televisão de Cabo Verde marcou presença no acto, e vai, oportunamente, mostrar esse Festival, e claro está, uma conversa exclusiva com Paul Haggis que girou, entre outros assuntos, em torno do seu último estrondoso sucesso In the Valley of Elah - foto (2007).

25.2.08

Da escravatura














Quando viviamos no auge da blogosfera, com o senso crítico apurado, e muita energia à mistura, lembro-me de ter dito muito sobre a escravatura, e frisado, reiteradas vezes, a forma pouco assumida como Cabo Verde lidava com o assunto. Prova disso, é a inexistência de um único dossier cabo-verdiano financiado pelo projecto Rota dos Escravos da UNESCO “projeto de pesquisa internacional sobre o comércio de escravos na África lançado em 1994 no Benin”.

Ultimamente, alguém terá aventado que Cabo Verde não constava da rota do regresso/passagem do emblemático navio Amistad. Na sequência disso, houve reacções indignadas. Terá sido tudo um equívoco, (como parece ter sido) ou apenas uma (in)verdade (in)conveniente ? Perdoem-me a força de expressão. É que neste momento ando a fazer uma série de entrevistas sobre o documentário de Al Gore «Verdade Inconveniente», e pode ser isso reflexo de alta exposição à repetição.

Voltemos à questão do incómodo sobre Amistad. A histórica embarcação dos chamados escravos esteve ancorada timidamente há vários dias no cais da Praia vindo da Libéria. Desse país era suposto seguir para o Senegal, mas tal não aconteceu por alegados problemas técnicos. Neste momento, a embarcação encontra-se nos mares do Fogo e parte amanhã rumo a Santiago.

Longe desse sentimento de diluição pressentido, deveriamos estar, em verdade, a revisitar memórias históricas, a celebrar laços e reencontros simbólicos, e não perdidos que nem um patinho longe do seu lago de estimação.

De todo o modo, esperemos a nave, ainda que novamente vá.

23.2.08

Invicto margoso

Example



















Angústia Tragédia Paura Momento
Dispadicê Saqué I
nstante
Lua Encanto Innocence
Poesia P
âpia

Respondo ao desafio do João, com as 12 palavras que mais me encantam. Paura, para quem não sabe, significa medo em italiano. Três palavras sta na criolu di Fogo. Si arguém ka sabê sés significadu, podê purguntan.

Foto: colagem de Susanna Gordon

A partir de 26.03.05