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Mensagens

A mostrar mensagens de 2006

Feliz Ano Novo

© Adenor Gondim

Nossa Senhora da Conceição é a Santa mais presente na minha memória. É a padroeira do meu Concelho, e "xará espiritual" de Iemanjá, minha divindade de eleição e mãe de todos os Orixás. Iemanjá é a orixá do nascimento e da morte, e de todas as transformações que resultam em bonança, em felicidade e progresso. Nas vésperas do Ano Novo são estes os meus votos (para si) que visita este espaço... a água, a mãe, a felicidade, o trabalho, a luz ...

Nhara Santiago

Frederico Hopffer Almada, mais conhecido por Nhônhô Hopffer, lança agora o seu primeiro álbum, intitulado “Nhara Santiago”. É um trabalho que vem agregar ao mercado discográfico algo de novo e de qualidade. Nhônhô Hopffer faz uma viagem panorâmica sobre os vários estilos da música cabo-verdiana, com paragens mais demoradas pelos ritmos da Ilha de Santiago, cujo título faz uma dupla homenagem, tanto à Ilha, aqui mater, como à própria filha. O músico, que é arquitecto tem um cunho próprio e pessoal. Inconfundível. Quem conferir, confirmará estas palavras. “Nhara Santiago”, uma prenda para este Natal e qualquer ocasião. Apetece gritar “Viva a Música”…

"Nhara Santiago" é disco que lança o arquitecto Frederico Hopffer oficiamente nas lides musicais. Como é que explica o binómio músico-arquitecto?
Sinto-me perfeitamente bem na pele de um ou de outro, aliás acho que as duas áreas se complementam, é difícil encontrar um arquitecto que não goste e muito da música ou de tudo que é arte …

Bailarina Negra

A noite
(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz

A noite
Sempre a noite
Sempre a indossolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz

Um perfume de vida
esvoaça
Adjaz
Serpente cabriolante
na ave-gesto da tua negra mão

Amor,
Vénus de quantas áfricas há,
vibrante e tonto, o ritmo no longe
preênsil endoudece

Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãns de fogo
amor.

António Jacinto ... C.T. Chão Bom, 4.9.70

Da Cor

"Da Cor do Pecado" é o título da nova telenovela da Globo, agora emitida pela TCV. Para começar, não gosto do título. Em segundo lugar, sou contra a emissão desregrada de telenovelas, principalmente se vermos seus custos. Numa dessas sessões de reflexão, que ultimamente tem povoado a Comunicação Social local, me disseram que são exigências do mercado... e essa! “Da Cor do Pecado” é a primeira novela da Globo, depois de décadas de produção, a trazer uma protagonista negra. Curiosamente, o director era um novato. Outra inovação dessa produção é o cenário. Todas as novelas e séries que discutem questões raciais no Brasil eram produzidas na Bahia, o mais densamente “africano” de todos os estados brasileiros. Desta vez, escolheram acertadamente o Maranhão: um grande Estado, com o maior património colonial construído do Brasil. São Luís, sua capital, é considerado um museu a céu aberto, com um legado arquitectónico português, o mais marcante das terras de Vera Cruz. Alcântara, out…

A canção em mim

Termina o 2006 ... e são estes os meus versos.
Roubei-os da doce voz da Zélia Duncan...

Jura Secreta

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada que eu quero me suprime
De que por não saber 'Inda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Sol que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.

A África que criamos

(...) A desilusão com o “Messias brasileiro”, Gilberto Freyre, pai do luso-tropicalismo de tão grande influência e reverência entre os claridosos, e detractor confesso do crioulo caboverdiano, que, segundo ele, seria, como acima se referiu, sintoma da “instabilidade cultural dos cabo-verdianos” e prova das ‘insuficiências luso-tropicais’ da cultura caboverdiana, propiciaria a Baltasar Lopes uma oportunidade histórica para assumir o idioma cabo-verdiano como o facto identitário mais relevante em Cabo Verde, “tão radicado na terra como o homem crioulo”, de modo tal que a sua extirpação premeditada equivaleria a “crime de genocídio cultural”. Mais tarde, designadamente no “Prefácio” para “A Aventura Crioula”, de Manuel Ferreira, pôde Baltasar Lopes transitar para a compreensão da cultura caboverdiana como uma cultura estabilizada, e não condenada à dissolução na cultura europeia.

(...) A transição de Baltasar Lopes da Silva foi grandemente facilitada pela teorização culturalista de Teixei…

Para além da arte

O livro Kab Verd Band do jornalista, Carlos Gonçalves, tem como mérito trazer a questão musical da perspectiva não só de um músico, mas de um musicólogo. Diferenciar esses dois espaços terá sido o grande desafio com que o autor se terá deparado ao longo das suas pesquisas e dos seus escritos, aspecto que não deixará de saltar à vista do leitor mais atento. Abordar a música, para além da arte, mas assente na ciência, nos recoloca a novos olhares da música cabo-verdiana contemporânea. A todos os títulos, importa ler este livro, tal curiosidade levou-nos a entrevistar o seu autor.
Que razões o motivaram para um olhar científico, acrescido ao seu olhar artístico sobre a questão musical?
Esta é uma questão difícil de responder em poucas palavras. Julgo que na introdução ao livro respondo a esta questão em pormenor. Mas vou dizendo que foi um processo... primeiro fazia programas e escrevia sobre música por uma questão artística, mas a pouco e pouco foram surgindo questões e eu queria saber as…

Capote

Um dos filmes que mais desejei ver desde o seu lançamento. Mas confesso que esperava outra coisa. Truman Capote (jornalista e escritor) escreveu A Sangue Frio, em 1966, o livro que marcou terreno no jornalismo literário. Um romance não ficcionado que narra um crime múltiplo e horrendo que vitimou quatro membros de uma família, em Kansas, Estados Unidos, em 1959. Truman Capote, enquanto jornalista da Revista The New Yorker, foi destacado para cobrir a investigação, e a repercussão desses crimes. Presos e sentenciados que foram os assassinos, o jornalista resolveu fazer um outro percurso. Descobrir as reais motivações dos autores de tamanha atrocidade. Levou anos a entrevistá-los, estabeleceu uma estreita relação com Perry Smith, um dos assassinos, cujos relatos acabaram por dar corpo ao livro que chocou a América - In Cold Blod.

Já o filme Capote (2005, Bennett Miller) é diferente. Centra, do principio ao fim, na personalidade excêntrica de Truman. Sente-se pouco os assassinos, tão pres…

Retalhos

Jackson Pollock
É recorrente o uso do titulo acima neste blog, e acontece, normalmente, quando não consigo encontrar um tema fechado. Terá que ser fechado?! Pergunto, não com pouca frequência. O certo é que quando assim é, desenho retalhos, ou simplesmente confesso-os. Se interessam ou não, é uma outra história. Agradam-me, simplesmente.

Na confusão dos meus retalhos, leio as últimas páginas do Aonde o Vento me Levar, acabado de sair do forno, do jornalista e escritor, Manuel Jorge Marmelo. Serei a primeira leitora, creio. As viagens errantes de M. são proprocionais à quantidade de mundos, meta(físicos) que se nos oferece no romance. Apraz revisitar as cidades dos livros e saber que elas nunca poderão ser como nos livros. Macondo de Garcia Marquez, Praga de Kafka, Lourenço Marques de Francisco José Viegas e Santiago de Cabo Verde de M. só existem nos livros. Sobre o obcessivo amor de M. pela Atla, darei a minha opinião ao autor, no fim da linha, quando tudo ficar mais claro.

Do Brasil, d…

Ideologia...quero uma

O movimento “Slow Food”, criado há 20 anos por uma organização internacional que tem hoje cerca de 100 mil adeptos, nasceu na Itália, onde acaba de promover um encontro do qual participaram centenas de cozinheiros. Contrário ao fast-food norte-americano, o movimento tem origens em militantes de esquerda que buscam recuperar os “valores ecológicos e culturais da gastronomia”. A idéia é constituir uma visão humanista da nutrição que se opõe ao avanço da agroindústria globalizada.
Leia mais no mínimo

Cabo Verde esteve nesse encontro. O artista plástico Leão Lopes foi mostrar a cozinheiros de todo o mundo o que Lajedos tem. Uma experiência bem sucedida de transformação de alimentos, numa região pobre e isolada da Ilha de Santo Antão. O projecto foi idealizado pelo Atelier Mar, e visa também a crianção de uma economia local, através da promoção e modernização da agricutlura, do artesanato e, mais recentemente, do turismo solidário. Atelier Mar foi uma das primeiras ONG´s surgidas depois da i…

Música

Cabo Verde está de parabéns. A música cabo-verdiana soma e segue. É este o sentimento que me invade depois de assistir ao lançamento de Fragmentos de Ricardo de Deus. Um pianista brasileiro, que reside em Cabo-Verde, desde 1999, e resolveu documentar com Bossa Nova, Lundú, Morna, Jazz e outras viagens, anos de vivências, trocas e energias musicais.
Ricardo assume a sua condição de ser musical no Fragmentos – seu primeiro trabalho. Um disco sem selo, porque brasileiro, cabo-verdiano, atlântico… universal. Um trabalho feito por degraus. “Fazer um CD instrumental, independente, não comercial, não é fácil, mas o resultado está aí”, diz.
Fragmentos conta com a participação de uma plêiade de cv músicos e brasileiros e não dispensa a voz. Tété Alhinho canta a Morna Brasileira, composição de Vera Lúcia, esposa do músico.
O músico Djinho Barbosa prefere falar da contribuição estética e académica do Fragmentos e do próprio Ricardo para à música cabo-verdiana, já que ensina na escola Pentagrama. Um…

No mínimo Mayra

Dá a maior vontade de cravar aquele lugar comum: “você ainda vai ouvir falar de Mayra Andrade”. Como não sou bobo nem nada, vou me abster. Mas enquanto escrevo este post, o dedo coça quando volto a alguma faixa de “Navega”, o disco de estréia desta caboverdeana de 21 anos, com talento e beleza suficientes para tornar-se musa instantânea. (Como o disco foi lançado na França em julho deste ano pela Sony, tenho minhas esperanças de que aporte por aqui e, mais ainda, faço campanha para que isso aconteça o mais rápido) ...

Leia mais no mínimo

Só pamodi bó

Só pamodi bó (um recordai pa Luís Morais) é o título de uma exposição do Mito inaugurada, ontem, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Lisboa. Os momentos aproveitou a deixa e ensaiou um dedo de prosa com o artista plástico.

Sendo as tuas exposições temáticas, qual o fio condutor a que assiste a todos os teus trabalhos? Haverá um tema maior que seja o denominador comum da tua Arte?
O meu bordão é a minha condição de CV e a forma de lidar com o mundo. A partir deste mote vou abordando as várias nuances desta mesma temática. Todavia, a música é um pólo sempre presente em todos eles. Podemos chamar a isto tudo: a cor do som.
O tributo a Luís Morais conota aqui a uma grande identificação com esse Artista. O que representa para ti a vida e a obra de Luís Morais?
Quando tinha os meus 4 anos (mais coisa, menos coisa), enamorei-me da música do Luís Morais, que na altura era muito popular. Ficava colado à rádio, nos serões em família, torcendo, para que tocasse uma faixa do Luís Morais. Semp…

O dia que passa

O percurso de alguém é feito de momentos, de emoções e de memórias. Nós somos a amálgama do que vivemos: o nosso passado, o partilharmos histórias, o encontramo-nos e o separamo-nos. Somos o que sorrimos e choramos... e tudo isso passa no tempo, sobrevivendo no nosso íntimo e nos molda para a vida.

Em verdade, somos o que vivemos e bastam pequenos sinais, sons fugazes - um halo apenas - para que haja em nós a confluência entre o passado e o presente. E nesse momento, nos apercebemos que nada passa, mas apenas adormece na bruma do tempo... na imensidão da existência, em espírito ou matéria. Os verdadeiros sentimentos perduram por toda a eternidade e se alimentam pela voz do passado.

Laura ki sta mánda

Existem amigos e amigas, cujos convites funcionam como uma "doce intimação". Respondendo a um desses apelos, fui, ontem à noite, à Cidade Velha para assistir ao show do Beto Dias na “Gruta”. Era a primeira vez que ouvia falar nesse espaço, e andava curiosa com relação ao aspecto do novel empreendimento, erguido no berço das ilhas… modismos, diria.

A surpresa foi grande! O open space que pode ser um bar, um restaurante, ou outra coisa qualquer, nasceu no coração de um pedaço de rocha e sobranceia o mar, numa imponência admirável. A vista convida a uma viagem histórica transatlântica, ou não fosse a partir daquele mar o ataque do Corsário Inglês, Francis Drake, à Cidade Velha! Ao lado, entre casas e guentis di Cidade ergue-se uma pensão rústica, parte do projecto em andamento e com propósitos ambiciosos. A dona desse belíssimo empreendimento é uma jornalista italiana, com uma longa carreira na área desportiva, que depois de escrever histórias e mais histórias sobre estas ilhas,…

Brava Cultura

A esta ilha nunca chegará a guerra,
A antítese do canto.
Aqui a beleza foi radical e silvestre
E num princípio não coube no rosto
Nem na mão
Nem na palavra


Aprecio muito o Nascimento do Mundo, obra de Mário Lúcio, que descreve com amor táctil as ilhas de Cabo Verde. Toca-me na alma esse trecho referente à Ilha Brava, terra de Eugénio Tavares, ali conhecido por Nhô Eugénio. Hoje, Dia da Cultura é forçoso fazer referência (e reverência) a essa figura, patrono da efeméride.
Os estudiosos consideram Eugénio Tavares como um dos grandes cultores da língua portuguesa, trabalhada em suas diversas formas. Exímio na prosa e no verso, mas também como polemista consequente de panfletos cívicos e políticos, ele é sem dúvida um dos nossos grandes patrimónios humanos. Era igualmente um cultor singular, senão mesmo figura modal, da língua cabo-verdiana, sobretudo nas suas defesas em prol da língua materna e nas suas composições musicais.

Eugénio Tavares considerava o reconhecimento da língua crioula, à par d…

Mais música...

Lugares

Ontem conversava com alguém sobre a emotividade. Confesso que fora uma conversa desconcertante. Susceptibilidades à parte, mas os lugares também são sujeitos de reflexão e diálogo. Ocorrem-me sempre os lugares, sobretudo aqueles que vou seleccionando como "meus lugares". São uma espécie de contrapartida aos "meus momentos". Quem sabe até sejam a mesma coisa.
Cabo-verdiana de condição, e sobretudo de opção, amo de forma muito própria os pedaços desta terra. Tenho sido recorrente, senão mesmo obstinada, no expressar o meu amor pelo Fogo, ilha que me viu nascer e crescer. Também amo, de paixão por resolver, as ilhas de Santiago, Maio e Brava. Por sinal, todas de Sotavento, mas "sem conotação alguma", como dizia o músico Cazuza.
A esses lugares, me ligam todos os sentidos a funcionar. Percepção total. Ou quase total, pois o absoluto, além de improvável, é detestável.

Guardo réstias de encontros e diálogos. Com os mais velhos. Com as histórias incríveis. Das cate…

Djarfogo na net

Ultimamente tem-se falado muito no turismo rural em Cabo Verde. Um turismo atento às especificidades locais, garante de tranquilidade, do silêncio que tanto precisamos, e de um "ar de vida" mais terra à terra. Alguns privados solitários tem dado passos nesse sentido, mas nem sempre conseguem ir longe. Há ilhas onde o transporte ainda é um problema e as infraestruturas não se adequam minimamente às exigências do turismo. Apesar disso, existem casos de sucesso. O Djarfogo, na Ilha do Fogo é um deles. Uma empresa de turismo personalizado, cujas ofertas centram-se basicamente nas valências locais. Agnelo Vieira Andrade, um filho da ilha que viveu muitos anos em Lisboa, regressou para mostrar ao mundo o que é que o Fogo tem: um património natural e construído riquíssimo, paisagens únicas, um café como poucos, e uma tranquilidade que convida a tudo de bom. Djarfogo já tem un site na Internet. Aqui, pode fazer uma visita virtual a uma das casas mais antigas da ilha, pertencente à …

Da imagem

Ontem assistia com prazer à entrevista do infecciologista brasileiro, Anástácio Queirós Sousa, no Jornal da Noite, da TCV. Este demonstrou ser um profissional de referência na sua área, estando de parabéns todos aqueles que estiveram por detrás da sua vinda a Cabo Verde, sobretudo nesta hora crítica para a Saúde Pública. Mas o homem surpreendeu-me também pela sua postura frente às câmaras de televisão: respostas curtas e fechadas, e sentido atento à jornalista. O entrevistado que dá respostas longas e cheias de ideias intercalares, o que se tornou norma nestas paragens, diga-se, cansa o público e quebra o ritmo da entrevista. Forçoso que se saiba que o entrevistado que olha para a câmara em vez de olhar para a jornalista está mal assessorado.

E falando em assessoria, dá para perceber que existe uma lacuna crescente nesta matéria em Cabo Verde, o que tem dado azo a outras leituras, um tanto ou quanto errôneas, do meu ponto de vista. Pessoalmente, gostaria de direcionar a atenção para a …

Baden Powell

Todas as quintas feiras, à tardinha, o Centro cultural Francês da Praia organiza um Open Bar Café com projecções, no âmbito do Ciclo de Música Brasileira. Nesta quinta vai ser exibido o documentário Velho amigo - O Universo musical de Baden Powell. Um trabalho do realizador francês Jean Claude Guiter, velho amigo do artista. Baden Powell foi um exímio e respeitado guitarrista que conseguiu com suas pesquisas e execuções que muitos ritmos brasileiros, predominantemente de raízes negras, não caíssem no esquecimento. O documentário foi produzido durante três anos, e revela o percurso de um homem notável. Baden Powell já fez parcerias musicais com Vinícius de Morais, Pixinguinha, João da Bahiana só para citar alguns nomes. Morreu aos 63 anos, no dia 26 de Setembro de 2000.

Outubro

sem margens
Roubei de ti o titulo acima, diante de uma assumida preguiça de nomear a minha livre, dir-se-ia que pássara, condição neste blog. Reservar-me ao direito de nada dizer, e sorrir apenas, quando assim me der na telha. Sorrio para as boas almas que me visitam, simplesmente.

fragmentos
Decididamente não sei se fazer anos, significa, de facto, algo nas nossas vidas. Juro que não sei. Já pensei muito neste assunto, e até já tentei ler algo a esse respeito. Nunca soube de nada. Não sei se com os anos tornamo-nos mais felizes ou infelizes, mais maduras ou amargas, mais calmas ou receosas, mais bonitas ou nem por isso. De repente, dei-me conta que não tenho grandes noções dos anos que passaram por mim. Tenho lembranças fragmentadas de momentos importantes da minha vida... também não sei se cresço com a idade. Apenas sei que do menino poeta recuso fragmentos... quero tudo, até ao fim da linha. Meus parabéns, sempre.

ainda fragmentos
A eles e elas que conseguiram surpreender.

p.s
Bem vindo

O livro e a cidade

“Ao acordar-se e eram dez horas, sentiu-se afortunado com a sua nova manhã, que era de sol e de uma leveza que abstraía a materialidade das coisas.”

“… o sorriso amável trocado entre um homem e uma mulher significa o fim de qualquer paixão. As pessoas que se desejam são muito sérias.”

Dois trechos que me ficaram de uma aventura romanceada pelo escritor brasileiro (de Porto Alegre) L.A de A.B no livro “O pintor de Retratos”.

Ela regressa e nada a prende às matérias daquela Cidade, apesar de bonita. É grande a repulsa que sente por aquele lugar… é lá onde as tristes lembranças todas se afloram. É lá onde ela retoma as lágrimas e com a dor volta a conviver.

Perdão se pelos meus olhos

Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
- monótomo é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré
- assim é minha solidão -
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.

Pablo Neruda - Últimos Poemas -

Saudade do futuro

No embalo da lembrança das tardes que eu vivi, penso nas tardes que quero viver e duas cidades me vêm à mente: Rio de Janeiro, (conheço e das tardes não me recordo) e Nápoles. Essa cidade italiana é considerada o Rio de janeiro do mediterrâneo, o que sela a minha paixão por longas e apaixonantes bahias, e por cidades banhadas. Nesse grupo não entra a bahia de todos os santos, cujas tardes de mim também fazem parte. Dessas lembranças vivo, e outras persigo. É a tal saudade do futuro que um dia a todos invade.

1.1. Nada é mais sublime do que as lembranças ... nas minhas vivem muitos momentos, lugares e pessoas... ele não. Nada ficou da imensidão dos dias que passaram por nós.

2. A música toca no rádio depois da meia noite... aquela voz ecoa dir-se-ia que só para ela, a quem um dia cantara. É eterna e separa-a do abismo da dor.

3. Gosto da tua voz, da tua boca, das tuas mãos, dos teus olhos ... gosto, sem mesmo saber se gosto. Quero gostar mais, depois de gostar.

Tardes que eu vivi

hotel xaguate num dia que passou a ilha brava defronte... do eterno presídiofoto : manuela alves

Um domingo qualquer

À primeira vista, e desprevenido, quando alguém se dispõe a assistir Um domingo qualquer de Oliver Stone, acha que vai perder o seu tempo com um filme violento sobre o futebol Norte-americano. Longe disso. O filme tem como pano de fundo os bastidores de uma partida de futebol americano nas suas várias vertentes: a imprensa sensacionalista, as apostas milionárias, os treinos, a vitória a qualquer preço, sonhos desfeitos, a ilusão do sucesso, enfim! Um conjunto de situações que perfazem o apetecível mundo do sucesso.
Para mim, o encanto desse filme reside na narrativa, na montagem, e na actuação de Al Pacino, claro!
Um olhar nada linear, (muito flashback, muito paralelismo) fortemente apostado em planos fechados (expressões, detalhes), uma luz confidente, ritmo, poucos planos abertos (longos). A montagem é de uma mestria tal de que não ousaria aqui falar, mas sim recomendar, por isso escrevo esta nota, e por esta mesma razão volto sempre ao trama.
Al Pacino é o homem de sempre. Agarra para…

Dois...

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito...”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas. Pablo Neruda

Aos santos e à noite

O disco Ao vivo e aos outros de Mário Lúcio é um gesto confesso de gratidão para com as pessoas, vivas e mortas, que influenciaram e olharam para o seu percurso. Um desafio ao tempo mostrado ontem no Farol da Praia.

O CD é uma homenagem a lugares fisicos e simbólicos: Tarrafal, Mindelo, Cidade Velha, Santiago, orixás da Bahia, Cuba, ancestrais...

O vulcão do Fogo foi o cenário que Mário Lúcio escolheu para gravar o seu teledisco. Uma escolha, a todos os níveis, significativa. Esse sítio, mercê da sua força cultural, das suas gentes, do seu café, do seu vinho, é segundo o músico, o único lugar de Cabo Verde que poderá ser declarado “amanhã” património mundial. Ao pé do vulcão do Fogo Mário Lúcio atravessou também a crise dos quarenta. São as razões de uma escolha.

A noite

Os santos da noite continuaram a ser evocados na Casa Bela, no Plateau, na tal porta 29. Um espaço à primeira vista acolhedor, com propósitos nobres. Acho que todos gostaram de ouvir aqueles que ousaram exprimir os seus p…

Top Criolo

A música cabo-verdiana está definitivamente in top. Vários lançamentos, muitas criações e inovações, ousadias, jovens artistas a despontarem. Ousados são igualmente alguns produtores da praça. O programa da TCV, Top Criolo, apresentou-nos, ontem, Augusto Gugas Veiga. Além de um produtor que podemos apelidar de bom, nunca é demais evidenciar a sua sóbria personalidade: fina estampa, como dizia a minha dor antiga, e ciente daquilo que quer, dentro das limitações de um mercado como o nosso.

Gugas teve um "faro de cão" quando há dez anos produziu os Ferro e Gaita, levando para as ilhas e para o mundo, os sons de um funaná vibrante, uma tabanka que nunca morre, a força de Santiago. Há dois anos, dentre outras ousadias, uniu, num só CD, as vozes dos dois únicos pilares do Finaçon, Nácia Gomi e N´toni Denti Doro. Agora, com uma fina percepção de um novo movimento urbano pungente, está a apostar, inteligentemente, no hip hop. Capital Produções é uma referência na música Cabo Verdiana…

Ao vivo e aos outros

O músico Mário Lúcio lança amanhã, dia 7, o seu segundo álbum intitulado Ao vivo e aos outros. Um trabalho exclusivamente a sólo (guitarra e voz) que certamente dar-nos-á a conhecer uma outra faceta desse multi instrumentista.

O show de lançamento acontece no Farol Maria Pia, na Cidade da Praia, às 18 H30. Além de canções inéditas, o disco traz-nos novas sonoridades da emblemática Doce Guerra do compositor Antero Simas, e Rifan Baré de Codé di Dona. Hásta Siempre Comandante Che Guevara de Carlos Puebla é outra canção desse trabalho inovador.

Mário Lúcio é um dos fundadores dos Simentera, o grupo que liderou a viragem acústica da música cabo-verdiana, e resgatou uma certa vertente africana (lírica e sonora) da identidade cultural das ilhas. Ao vivo e aos outros é mais uma pedra na carreira a sólo do artista que arrancou em 2004, com o lançamento do disco Mar e Luz. Um trabalho que contou com as prestigiadas participações de Gilberto Gil e Luís Represas.

Farol Maria Pia
Um espaço infinito e…

Retalhos

1.

À noite sempre escuto a Rádio Educativa. Fazem uma boa seleção musical, o que denota uma certa noção do momento e do silêncio. Mesmo durante o dia, quando a ocasião se impor lá estou eu a sintonizar essa frequência. Numa época em que os profissionais da imprensa cabo-verdiana são tratados por alguns iluminados como ignorantes franciscanos vale trazer este e outros exemplos. Fico por aqui...

2.

Depois de tudo,
ela retoma o seu caminho
e segue sorrindo

ele, da dor é vizinho cativo
dá e recebe, sempre
é a lei da vida.

2.1

Os escritores que escrevem sobre livros deveriam ser lidos repetidas vezes por todos aqueles que prezam a leitura. Não só aconselham os caminhos existenciais da leitura (nada que se assemelha às 100 obras imperdíveis), como apresentam os autores, a sua humanidade, a sua relação com a vida. Isso é tudo muito mais complexo do que parece. Depois de ler esses homens (Ítalo Calvino e Henry Miller são alguns) os livros que lemos (e sobretudo aqueles que relemos) ganham novos signifi…

momentus

Creio ser o show de Maria de Barros, ocorrido no Sábado passado, uma celebração da cabo-verdianidade no sentido mais puro e simples da questão. O país global e diasporizado estava ali naquele palco. A cantora que nem nasceu nas ilhas ofereceu-nos uma noite cabo-verdiana, das mais genuinas vistas por estas bandas. Morna, coladera, funaná, presença, voz, charme, simpatia, the last, but not the least, competência. A cantora que nasceu no Senegal, canta também em francês, e balança o corpo dir-se-ia que dos ventos da Mauritânia, onde cresceu. Celebra a sua latinidade. Abraça as suas origens.
A banda de Maria de Barros é também uma pérola. Além dos Cabo-verdianos Djim Job (baixo), Zé Rui (cavaquinho) e Calú Monteiro (drums) supreende com o californiano Mitchell Long (guitarra e pandeiro) os brasileiros Sandro Rebel, e Grecco Buratto (teclado e guitarra, respectivamente). Antes de terem sido apresentados pela diva, dava para imaginar que eram estrangeiros, mas o ritmo cabo-verdiano, e o coro…

As belas histórias de África

Assistia, ontem, pela Televisão Nacional, à entrega do prémio Jornalista Africano CNN Multichoice. Uma iniciativa de 10 anos que tem prestigiado a competência e a ousadia jornalísticas em África. Uma boa ideia, sem dúvida. Em Cabo Verde também a associação dos jornalista, AJOC, já criou um prémio para distinguir a qualidade. Perfeito! No decorrer da entrega, percebi, com alguma inquietação, que todas as reportagens premiadas falavam de pessoas violentadas, crianças estrupadas, vítimas da Sida, dificuldades mil. Até o prémio destinado às Artes e Cultura estava relacionado a uma agrura qualquer. Não se sabe de que lado está o pessimismo. Se do lado dos concorrentes que acreditam mais no impacto desses trabalhos, ou do júri que só premeia desgraças bem narradas. Sem qualquer desprimor pelos assuntos premiados, que indiscutivelmente fazem parte do quotidiano de alguns países, e devem ser denunciados, questino a uniformidade da agenda, num continente tão diverso como o Africano. É motivo d…

"Maria cheia de graça"

Há cerca de dois anos, o jornal americano Boston Globe fez uma reportagem sobre esta mulher intitulada Maria full of grace. O que li aumentou o meu interesse por ela, e cada vez que a ouvia, gostava mais. Alguma coisa na sua música me transportava aos anos 80, periodo áureo da música cabo-verdiana. Ela é Maria de Barros - a diva cabo-verdiana na diáspora. Encontra-se em Cabo Verde para uma mega digressão pelas Ilhas de S.Vicente, Boa Vista, Santiago, Brava (provavelmente), Fogo e Sal. Esta cantora que em 2003 explodiu, pelas mãos da gravadora Virgin, só agora pôde mostrar às ilhas a sua música. Um encanto! São dois super discos gravados, Nhâ Mundo (2003) e Dança ma mi (2005) - compostos predominantemente por mornas e coladeras, interpretadas por uma voz límpida e singular, com estilo próprio, roçando ao de leve às grandes divas deste país.
Quando decidi gravar pensei na minha mãe. Queria que ela sentisse que gravei um disco genuinamente cabo-verdiano, disse-nos. Crioula cidadã do mundo…

Dias se passaram...

Impressionante. Há momentos em que por razões várias (tristes ou insondáveis), optamos por uma hibernação tácita. Por uns dias é como se ausentássemos do mundo. Estranhas sensações. As coisas nos passam ao lado. A última semana, para mim, funcionou nesse ritmo. Desconectada mesmo! Mas aqui sei que estou à vontade para falar dos vacilos que sequer tive, das intenções desconhecidas, e porque não das imaginações (algumas metafísicas). Estou livre, inclusive, para me punir (não será decerto necessário) pelas ausências, ou pelos silêncios imperdoáveis. Tive os meus motivos e continuo a tê-los tenuamente.

Do final de semana, não poderei falar do show Trás de Sonde Djinho Barbosa, no Palácio da Cultura, porque não fui. Já vi que perdi. Fiquei em companhia de Julie London, Dianne Reeves, Nina Simone...
Os livros da minha vida de Henry Miller, é outra companhia que venho apreciando há uns dias. Um escritor sem margens, de facto. Ler por prazer é a sua máxima. Não alinha em dogmas classissistas e…

A nossa música...

"No que respeita à música cabo-verdiana, ela simplesmente “É”. O seu lugar está conquistado, já adquiriu estatuto. Faz falta à cultura portuguesa! Nas ruas, sem programação ou aviso, ouvem-se com frequência, das janelas de carros velozes, os sons do funaná ou os ecos da morna que saem das discográficas, em vozes bem identificáveis.
Nas chamadas “catedrais” da música cabo-verdiana - Casa da Morna, B.Leza, En’Clave, mas também “Musidanças” e “Speakeasy” - passam habitualmente Tito Paris, Bana, Celina, Titina, Ana Firmino, Maria Alice, Dany Silva, Leonel, Hermémio, Mayra, Nancy Vieira (foto), Lura, Sara Tavares." Leia mais aqui.

Bazofu

Beto Dias está a preparar o seu Best of, que deverá ser lançado em meados de Setembro. Um disco que revisita a sua carreira de dezassete anos, e traz para a actualidade temas como SantoAmaro, Unidade e amor, Sin Sabeba, Ki Vida e muitas outras surpresas. O cantor diz que este projecto responde, sobretudo, a anseios de alguns apreciadores da sua música, e fans do extinto grupo Rabelados de que foi lider durante anos. De referir que o artista gravou, ao longo do seu percurso, dois discos com os Rabelados, e quatro trabalhos a sólo. Dias encontra-se entre nós para participar de uma campanha da marca de roupas desportivas Bazofu, e participar no novo programa de TV produzido pela Agência Cabo-verdiana de Imagens, Top Criolo.

Boy Gé

O sono tarda... Boy Gé Mendes canta. Preenche a noite. Embala...
Melodias, sons das ilhas e do deserto, a paixão, a beleza, a ancestralidade, os santos da Bahia, "elements"..., e finalmente a morabeza criola. A África na sua diversidade, cantada pelo mininu criolo di Senegal. Um músico universal e profundo que precisa cantar mais para nós. Escute os seus dois últimos discos: Lagoa e Noite de Morabeza. Doux Miel.

La nuit Une voix... une présence...
une chaleur amie...
sont toujours souhaitées
dans les nuits oú
le temps nous trahit

Boy Gé

momentu

Muitos dos meus posts surgem assim, do nada. De uma palavra, um olhar, uma situação, ao acordar... Assistia hoje à edição do programa musical "Top Criol". Era uma entrevista com a Danae. As suas respostas flutuavam, e ela falava sempre em momentos. De repente, surgiu-me a densidade dessa palavra, a depender, claro, de quem a pronuncie. Do Latim momentu, a expressão momentos significa, num primeiro sinal, tempo ou ocasião em que alguma se faz ou acontece, pode também significar instante. Surfando pela net, reparei que todos os blogs que adoptaram esta palavra retratam, sobretudo, os bons momentos, as sensações leves, retratam formas de beleza. E percebi, com a entrevista da Danae, e em outras situações, que independentemente da acepção original da palavra momentos, ela tem um sentido convencional positivo muito mais apropriado.
O meu blog é apenas mais um exemplo. Com um olhar pessoalíssimo, não descurando da jornalista (e as suas inerências) em mim, falo, aqui, de bons fluído…

À espera da luz

Volta e recomeça, apesar do imutável, apesar daquele ser eternamente seu, apesar de tudo, e por tudo. Volta para nas últimas palavras do poeta encontrar a resposta. Volta, à espera da luz.

"Não um caso doentio
nem a ausência de grandeza, não,
nada pode matar o melhor de nós,
a bondade, sim senhor, que padecemos:
- bela é a flor do homem, sua conduta
e cada porta é a bela verdade
e não a sussurante aleivosia.

Sempre ganhei, por ter sido melhor,
melhor que eu, melhor do que fui,
a condecoração mais taciturna:
- recuperar aquela pétala perdida
de minha melancolia hereditária
- buscar mais uma vez a luz que canta
dentro de mim, a luz inapelável".

Pablo Neruda. in: Últimos Poemas (O Mar e os Sinos)

Silêncio

Uns dias de ausência até o regresso de um ponto qualquer.

Confidências

Vi o show em êxtase. A interpretação de Apocalipse de Manuel d` Novas, transportou-me aos momentos do primeiro disco de Dudu Araújo. Foi uma viagem. Pidrinha revisitado. Tanha de Renato Cardoso, e muitos outros.
De Nôs cantador, Dudu Araújo passou, definitivamente, para Nha cantador. Um estilo inconfundível e uma postura garbosa no palco. Interioriza a poesia lírica na sua plenitude e interpreta-a com alma. Fala com amizade e admiração dos seus compositores, fala das músicas, e interage com a plateia. Pareceu-me tímido, dir-se-ia que da sua densidade artística. Apetece-me também falar da voz, a voz do Dudu: convida a viagens, dá vida a lugares, a personagens, a detalhes do quotidiano...
Nhelas Spencer e Betú são, para mim, dois pilares fundamentais desse disco. Composições únicas numa sintonia perfeita com o intérprete. Nôs Cantador é um disco imperdível e Dudu no palco é uma outra história. Na banda que ontem acompanhou Dudu, destacava também Voginha e Bau. Um delírio bem ao estilo cri…

Dudu

Dudu Araújo é considerado, por muitos, o cantor da actualidade. Eu diria mais. Uma voz inconfundível, que desde os primeiros passos (início dos anos noventa, se não estou em erro) mostrou para que veio. O seu primeiro trabalho foi, durante anos, muito ouvido e apreciado entre nós, mas não aconteceu o mesmo com os dois seguintes, editados no Canadá onde reside. O quarto disco, "Pidrinha", foi muito celebrado, mas soube a pouco, tendo em conta a sua dimensão poética.
Neste momento o artista encontra-se na Capital cabo-verdiana a promover o seu último disco “Nôs Cantador” – título de uma morna do Betú incluída no disco, em tributo a Ildo Lobo. O último trabalho de Dudu Araújo é uma prenda e reúne, de uma sentada, os mais consagrados músicos e intérpretes cabo-verdianos: Bau e Hernâni na guitarra, Zé Paris no baixo acústico e Tey Santos na percussão. Dos compositores, Betú, Vlú, Nhelas Spencer, Teófilo Chantre e Manuel D`Novas impressionam com o seu lirismo.
"Nôs Cantador&quo…

Em busca do "meu clássico"

Terminei de ler "Riso na Escuridão" de Vladimir Nabokov, releio "O Amante" de Marguerite Duras e inicío uma viagem por "Porque ler os clássicos?", de Ítalo Calvino. Este último livro fez-me pensar nas minhas leituras de adolescência. Leituras desajeitadas, porque não orientadas, leituras ao acaso, algumas indicadas, é certo. A minha grande decepção residia na memória nublada que tenho de alguns livros. Nos meus 13, 14 anos devorei a magra coleccão juvenil, e não só, da biblioteca municipal da minha cidade. Era conhecida do responsável pela Biblioteca, um rapaz que tomava conta apenas daquele espaço, já que mal sabia escrever. Tinha entrada e circulação livre pelas estantes, via e revia os titulos, lia e relia as introduções. Aquilo que me agradava à primeira, levava.
Revistas e jornais também contam. O pároco de S.Filipe era assinante da revista Família Cristã. Eu era a segunda leitora assídua de cada número daquela publicação. Ia à casa do Pároco, religio…

Africa Rainbow

Africa Rainbow é o blog criolo mais recente da web. É suportado por uma banda de reggae que existe em Brockton, Massachussets, há 5 anos, formada por um grupo de jovens de origem cabo-verdiana. "Rapazis di Rainbow" estão com o pé na estrada, daí esta incursão bloguista, a promover o seu primeiro demo gravado no estúdio da própria banda. Esse lançamento tem um carácter puramente promocional, como frisa a banda na sua página. O grupo está aberto a espectáculos e espera o seu contacto.
De referir o espírito irreverente e a incondional ligação à terra do Africa Rainbow. É só visitar o blog e conferir.

Poesia

Danae no Tabanka Mar

"Condição de Louco"é o título do primeiro CD da Danae, lançado no ano passado. Um disco diferente, solto, e sem selo. As músicas cantadas predominantemente com sotaque brasileiro revelam uma voz melódica e doce, ainda em processo de busca, pareceu-nos. Danae nasceu, há 26 anos, em Cuba, filha de mãe cubana e pai cabo-verdiano, cresceu nestas ilhas, e recentemente foi estudar em Portugal, onde conseguiu gravar o seu primeiro disco. Um trabalho que espelha essas geografias todas, numa síntese muito pessoal. O criolo, a bossa nova, um balanço que incide entre a coladera e o samba; uma certa manha e universalidade que atestam o nascimento de mais uma estrela cabo-verdiana com os olhos postos no mundo.
"Condição de Louco" dá-nos ainda a conhecer uma escritora de sons sem precedente. As composições do disco são simplesmente surpreendentes. Danae já actuou no Mindelo e vai estar na Sexta-feira e no Sábado no Espaço Tabanka Mar, na Praia, para dois shows que prometem.

Tabank…

Vidas passadas

As ladeiras
As calçadas
Os olhares
O mundo
O sonho
A saudade
A igreja
O terreiro
As lembranças
Vidas passadas

Sandjon na Brava

24 de Junho, Sábado, festa de S.João, Ilha Brava. É o dia mais importante para a Ilha das flores. Um dos poucos dias em que Cabo Verde lembra desse pedaço de arquipélago esquecido na bruma dos tempos. É o dia em que os filhos de nhô Tetei usam as suas melhores roupas, participam na passeata matinal com os presentes para o mastro, e celebram no meio a um colorido estonteante a missa dedicada a S.João Baptista, padroeiro da Ilha. É o dia de encontros entre os que ficaram e aqueles que partiram para sempre regressar.
É à volta dessa festa que a Câmara Municipal assinala o dia do município com actividades recreativas várias, inaugurações, e espectáculos musicais nos dias que antecedem o 24 de Junho.

A festa de Sandjon 2006, na Brava, reservou também espaços para homenagens: a título póstumo, o intelectual Luis Loff de Vasconcelos, pertencente à lista dos chamados protonacionalistas e contemporâneo de Eugénio Tavares, foi um dos contemplados. O seu bisneto Luís Vasconcelos viajou de S.Vicent…

Mayra

A cantora Mayra Andrade encontra-se em Cabo-Verde, vinda de Paris onde reside, e traz na bagagem uma grande novidade: o seu primeiro álbum “Navega”.

A cantora surpreende pela interpretação e pela composição, pois o álbum marca a estreia de uma compositora a se afirmar.

As doze faixas do álbum “Navega” denotam uma Mayra Andrade mais madura e mais dona de recursos do canto e da interpretação. Enraizada nos valores musicais de Cabo Verde, ela acrescenta à cabo-verdiana um toque sofisticado de quem também já se habitou em outras claves, harmonias e arranjos. Para lá de tanta graça e alguma originalidade, é a Mayra Andrade compositora que nos surpreende desta feita. Este disco marca, nas suas nuances intangíveis, uma cantora já saída da adolescência e inaugurando a idade adulta com elegância e sentido estético.

Ressalta-se também em “Navega”, o bom gosto do repertório. Tanto na selecção de compositores como Betú, Pantera e Kaká Barbosa, como na ousadia dos arranjos, ora com simplicidade acúst…