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A África que criamos

(...) A desilusão com o “Messias brasileiro”, Gilberto Freyre, pai do luso-tropicalismo de tão grande influência e reverência entre os claridosos, e detractor confesso do crioulo caboverdiano, que, segundo ele, seria, como acima se referiu, sintoma da “instabilidade cultural dos cabo-verdianos” e prova das ‘insuficiências luso-tropicais’ da cultura caboverdiana, propiciaria a Baltasar Lopes uma oportunidade histórica para assumir o idioma cabo-verdiano como o facto identitário mais relevante em Cabo Verde, “tão radicado na terra como o homem crioulo”, de modo tal que a sua extirpação premeditada equivaleria a “crime de genocídio cultural”. Mais tarde, designadamente no “Prefácio” para “A Aventura Crioula”, de Manuel Ferreira, pôde Baltasar Lopes transitar para a compreensão da cultura caboverdiana como uma cultura estabilizada, e não condenada à dissolução na cultura europeia.

(...) A transição de Baltasar Lopes da Silva foi grandemente facilitada pela teorização culturalista de Teixeira de Sousa e Gabriel Mariano, depois largamente difundida por Manuel Ferreira, particularmente no livro A Aventura Crioula.

(...) É Gabriel Mariano o intelectual caboverdiano que, a par de Baltasar Lopes da Silva, Félix Monteiro e Teixeira de Sousa, mais demoradamente se debruçou no tempo colonial sobre a cultura caboverdiana.

(...) Para esse intelectual, a cultura caboverdiana é fruto de circunstâncias específicas no quadro do império colonial português e do colonialismo, em geral. São essas circunstâncias específicas que teriam determinado, por um lado, a formação da identidade caboverdiana como nacional e teriam condicionado, por outro lado, a formação do povo caboverdiano como povo biológica e culturalmente mestiço. Escreve o ensaísta: “Em Cabo Verde, acontecimentos especialíssimos, e de nenhum modo preconcebidos, quase que anularam aquilo que é a essência própria da colonização: a subordinação integral do colonizado ao colonizador e a consequente destruição da personalidade em favor deste. Quer dizer, o que explica, possivelmente, o caso caboverdeano é a pouca consistência dos vínculos de subordinação colonial aí estabelecidos. Pouca consistência que me parece ser obra não dos métodos de governação, mas antes do simples fluir das coisas”.

Excertos de uma profunda indagação identitária, e fundamentalmente política de José Luis Hopffer Almada. Ler na íntegra, aqui!

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