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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2008

A vida dos dias...

Muitas histórias poderiam ser alinhavadas e recordadas por estes dias. A tua, de certeza; a tua inteira vida que surpreende todos os dias, e irrompe os anos, e o século, mostrando-se plena para quem se segue a olhar para ti. Os dias calmos, ao som das pujantes ondas “di fonti bila” que ousas, com sabedoria, desvendar e saborear. Os dias de tumúlto que ultrapassas com gargalhadas ou um simples sorriso. O jogo de “bisca” diário que, parecendo que não, é uma forma sábia de te encarares e enfrentares os dias. “Te dedico”, pelos dias, e pelos Novembros, que hás-de pisar com a mesma sabedoria e generosidade.

Em ti

Há momentos bons, de tanto se revelarem
Novembrinos
Fortes, valentes
Luzem, o brilho azul, no teu olhar.

Vou

Em busca do meu Novembro.

nota discreta: Os momentosirá fazer uma pequena pausa…

Cidade II

in memoriam de João Henrique (Dick) Oliveira Barros e V. Fernandes Eu sei!

O cerco se aperta
e, perto,
ouve-se o ganir dos cães

Na cidade da Praia de Santiago
(nesta rochosa transfiguração
da velha e antiga metáfora de cidade santa )
deus esvaneceu-se
abatido e receoso
de ser enforcado
com as cordas
do destino e do vento

E foi então
foi só então
que os mercadores
(de estórias e de outros apetrechos
da frustração do corpo e da claudicação da alma)
decidiram escolher
um novo deus
como eles
sarcástico
e detentor
do metálico dom
da gargalhada

Eu sei!

A invisível cerca
cerra o seu eco
à volta da minha alma

Que farei
sem o meu Deus
e sem a maçã
senão estilhaçar o cerco
e a sua ameaça de estoricídio
açoitar o vento
repicar os pés no chão
e retinir um djato
na cara da consonântica arrogância
dos mercadores
e dos que bailam ao vento?

José Luís Hopffer C. Almada
imagem: Lasar Segall

Um instante

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

poema: gullar
imagem: gondim

Cultura em debate

Promover Cultura, na sua expressão múltipla e criativa. Trabalhar para a sua sustentabilidade e preservação… são as metas do Fórum Internacional sobre a Economia da Cultura que arrancou, hoje, na Cidade da Praia. O encontro organizado pelo Ministério da Cultura reúne autoridades, promotores culturais e artistas, nacionais e estrangeiros.
Quatro dias de trabalho e que, conforme o Ministro da Cultura Manuel Veiga, marcará uma iniciativa despoletadora de mudança, transformação e certezas. O financiamento, a gestão cultural, a criação artística, o diálogo inter cultural, a sustentabilidade são as linhas-mestras deste encontro.
A falta de uma política cultural coerente e de uma visão pragmática face à preservação e promoção culturais tem sido uma das críticas unânimes dos operadores e homens de cultura em Cabo-Verde.
As responsabilidades, nesse campo, devem ser partilhadas. Quem o diz é o Presidente da República. A problemática da formação dos agentes culturais, o conhecimento das obras e dos…

Penso em ti

EU PENSO em ti nas horas de tristeza
Quando rola a esperança emurchecida
Nas horas de saudade e morbidez
Ai! Só tu és minha ilusão querida
Eu penso em ti nas horas de tristeza.

Vê quanta sombra me escurece o seio!
Que palidez sombria no meu rosto!
Tu és a única luz da treva em meio
Tu és a minha estrela do sol posto...
Contigo a sombra não me tolda o seio.

Quando a teus pés o meu viver s'escoa,
Esqueço a minha sorte, o meu martírio,
Minh'alma como a pomba em sangue voa
Para ir se abrigar à tua, ó lírio,
Quando a teus pés o meu viver s'escoa ...

Bendito o riso desses lábios túmidos!
Bendito o meigo olhar tão peregrino!
Como o sol abre a flor nos campos úmidos
Crenças desperta o teu divino olhar...
E o riso, o riso desses lábios túmidos

Ai! volve! volve peregrina estrela...
Minh'alma é o templo de um amor suave
À tua espera o lampadário vela...
À tua espera perfumou-se a nave...
Ai! volve! volve peregrina estrela!

Saudade

Em todos os Novembros “te dedico” peregrina estre…

Intermezzo (na tela)

No Brasil, muita gente, em determinados círculos, assume que assiste às telenovelas para as criticar. Não sei como funciona noutras paragens onde existe uma cultura de teledramaturgia. De todo o modo, este tipo de crítica é um exercício de interpretação saudável (quando for desapaixonado) que revela muito do real, ou da sua construção. O certo é que o embalo da crítica desemboca no apego, e no final estão todos a cogitar o desfecho de cada personagem. Mas há sempre aqueles que conseguem resistir tanto à crítica quanto ao passatempo.
Pessoalmente, interesso-me pela dramaturgia e consigo sempre me surpreender com um ou outro detalhe de representação. Um actor secundário que se impõe e, em se tratando de uma obra aberta, vai ganhando mais presença; um outro, cujo desempenho não encaixa como o previsto no desenrolar do trama, e vê o seu destino redesenhado, e por aí fora.
Desta feita, tenho prestado atenção em Wagner Moura, o vilão Olavo Novaes, da telenovela "Paraíso Tropical": u…

Momentos fantásticos

Inicialmente quis que esse blog se chamasse "moments", em inglês mesmo, dando ares de leveza e detalhes, mas depois tive a impressão que podia confundir e parecer um diário romântico. Nada contra o estilo, entretanto. O objectivo, de facto, era falar de assuntos que ficaram (no presente e no passado) pela sua pertinência, pelo detalhe, pelo interesse e, sobretudo, pela poesia. A ideia era, e continua a ser, um compromisso com o trabalho e a honestidade. Momentos fantásticos que, pela sua generosidade intrínseca, acabam sendo de encontros e partilhas (de toda a casta).

Por conseguinte…

"Os momentos" tornou-se um blog que emite exclusivamente pontos de vista da sua autora, além de factos, informações e entrevistas, todos publicados com sentido de responsabilidade, trabalho e respeito pelas opiniões outras. Parâmetros, aliás, que orientam a lisura de quem
escreve estas linhas na sua profissão de jornalista.
Considerar alguns dos textos aqui publicados de mais ou menos fel…

Piratas das Ilhas

“Exportação de azeite falsificado para Cabo Verde faz dois arguidos em Portugal”. É triste ler esta notícia, muito triste, porque não fica pelo azeite. O problema não está na infracção que acontece a todo o lado com qualquer um, e que pode ser minimizado com mais controlo. O problema, sempre acho, está na cabeça e na atitude das autoridades cabo-verdianas. É só ver como grupos e indivíduos chegam a este país e tornam-se empresários de noite para o dia, quando se sabe que nos seus países, alguns, não passam de fugitivos da polícia. Alguns desses casos são noticiados na Imprensa, e os larápios continuam soltos e a aldrabar tudo e todos. Slavery mentality e os seus tentáculos…

Novos escribas

Tem sido notório e crescente, aqui e acolá, a multiplicação de artigos de jornais e posts na net de jornalistas que decidem vir a Cabo Verde tentar a sorte, e mais não fazem do que espartilhar o nome do país. Já tentei pensar que talvez seja isso fruto da juventude, gana de dizer, demonstração de bravu…

O imprescindível “manduco”

Há 66 anos, falecia, na Cidade da Praia, Pedro Monteiro Cardoso, um dos mais consequentes intelectuais de Cabo Verde. Aquele que, por vezes e em plena noite colonial, tinha o pseudónimo de AFRO. Era natural da Ilha do Fogo, com mais precisão da Cidade de São Filipe.
Pedro Monteiro Cardoso pertenceu, com Eugénio Tavares e José Lopes, à chamada (por uma certa crítica escolástica, diga-se de passagem) Geração dos Nativistas. Polemista, poeta e prosador do melhor gabarito nacional, ele cantou a caboverdianidade, a insularidade crioula e a africanidade. Também se posicionou como um activista em prol da língua cabo-verdiana e do folclore de Cabo Verde, com incursões incisivas sobre o folclore foguense.
Foi fundador, proprietário, director e editor do jornal O Manduco (Fogo, 1923-1924) e, juntamente com João Lopes (S. Nicolau, 1884-1979), foi responsável pelo jornal (socialista) Cabo Verde (S. Vicente, 1920-1921), tendo colaborado em vários outros jornais cabo-verdianos e portugueses.
Sessenta …

Orgulho e Pesar

“Os momentos” remarca com um misto de pesar e “orgulho” o falecimento hoje, aos 76 anos, da cantora sul-africana, Miriam Makeba - foto -, aquela que foi a mais combativa e internacional cantora do continente africano. Com um estilo único combinando o jazz, o folk e outros ritmos tradicionais da África do Sul, Miriam Makeba soube cantar em nome da África, e contagiar os palcos e artistas de boa parte do mundo; a dor, a opressão, mas também a liberdade, o sonho, e o futuro: Mamma África, Pata Pata e Malaika foram hinos do mundo.
“People think I consciously decided to tell the world what was happening in South Africa. No! I was singing about my life, and in South Africa we always sang about what was happening to us — especially the things that hurt us”.
Miriam Makeba cantou até ao último dia de sua vida, como sempre quis.

Premiados

José Luis Tavares, poeta, e Glaucia Nogueira, jornalista brasileira que reside em Cabo Verde, foram dois dos nove premiados no II Concurso Literatura para Todos p…

O paradigma Obama

Desde a campanha para as primárias do Partido Democrata que Barack Obama galvanizou a atenção dos Estados Unidos e do Mundo, certamente, num primeiro momento, pela cor da sua pele. Não que uma simples coloração mais pigmentada fosse, por si, indício de boas capacidades. Obama chegou onde chegou por causa do seu percurso de grande mérito, de uma capacidade de liderança surpreendente e de uma qualidade intelectual sem precedentes. Entrementes, a questão racial marca presença incontornável na América e ela não poderá ficar fora de uma análise complexa. Do meu ponto de vista, os analistas nacionais e internacionais não devem fugir a tal remarque…
A eleição de Obama, para os negros da África e a vasta Diáspora Africana, mais precisamente os afrodescendentes, é por demais histórica. É ver as lágrimas de emoção nas faces do activista Jesse Jackson e apresentadora televisiva Oprah Winfrey no momento do comício da vitória em Chicago; É ouvir a entrevista de uma centenária negra americana que in…

O poder e Obama*

Poderia começar este artigo por trocar a ordem das palavras deste título: Obama e o Poder. A retumbante vitória de Obama nas eleições norte-americanas soa para os EUA e para o Mundo com o som fonético e, sobretudo, com o valor semântico de um verdadeiro «hossana». «Hossana», do hebraico «hoshi’anna» quer dizer: «salva, peço-te». Obama, no contexto actual da situação dos EUA e do Mundo, encarna essa petição: «Salva-nos».
Quem estendeu esta passadeira para esta triunfal entrada de Obama na Casa Branca foi George W. Bush. Bush deixa a mítica branca residência com o mais baixo índice de popularidade de sempre (26%). Nos EUA e no Mundo havia um enfado muito grande por este homem que, simbolicamente, guarnecido do maior poder do Mundo estava a cavar a mais profunda onda de falta de confiança. A crise financeira actual, melhor dito, a crise do sistema financeiro foi óbito final de dois mandatos que denegriram o papel motor dos EUA face ao estado do Mundo. Iraque, Afeganistão, Irão, Palestina,…

Obama: o eleito

"Obama va régénérer la marque Amérique comme Jean Paul II a relevé la marque papauté"

Andrew Sullivan(analista francês)

Impressões... e notas

1. Hoje é o meu dia: a minha madrinha completa em S. Filipe 105 anos e vai cortar um bolo em Curral Grande. Como já tive oportunidade de escrever neste post, Felismina Mendes encerra um episódio interessante na história do Fogo e pour cause… deste país. É a última filha viva de Nhô Henrique, o dono de sete palhabotes que faziam as viagens Cabo Verde Estados Unidos, dentre os quais o navio Ernestina.

2. É também meu e nosso dia por causa de Obama: que já é, antes de tudo, o eleito da esperança.

1. Hoje é o último dia dedicado à conferência “Mestiçagem socioculturais e procura de identidade na África Contemporânea: o caso dos países africanos lusófonos” a decorrer desde ontem na Cidade da Praia. A iniciativa é uma parceria entre a Codesria e a UNICV, que, de si, é interessante porque demonstra o início de um afrontamento intelectual mais directo com o continente africano, que pode ser, inclusive, uma achega ao ideário da Integração regional. Gosto de ter pensamentos positivos.

2. De 6 a 9 …

Yes, we can!

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Mãos dadas: Carlos Drummond de Andrade