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Só pamodi bó

Só pamodi bó (um recordai pa Luís Morais) é o título de uma exposição do Mito inaugurada, ontem, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Lisboa. Os momentos aproveitou a deixa e ensaiou um dedo de prosa com o artista plástico.

Sendo as tuas exposições temáticas, qual o fio condutor a que assiste a todos os teus trabalhos? Haverá um tema maior que seja o denominador comum da tua Arte?
O meu bordão é a minha condição de CV e a forma de lidar com o mundo. A partir deste mote vou abordando as várias nuances desta mesma temática. Todavia, a música é um pólo sempre presente em todos eles. Podemos chamar a isto tudo: a cor do som.
O tributo a Luís Morais conota aqui a uma grande identificação com esse Artista. O que representa para ti a vida e a obra de Luís Morais?
Quando tinha os meus 4 anos (mais coisa, menos coisa), enamorei-me da música do Luís Morais, que na altura era muito popular. Ficava colado à rádio, nos serões em família, torcendo, para que tocasse uma faixa do Luís Morais. Sempre adorei a energia da música dele e, quando pela 1ª vez tive a oportunidade de o ver ao vivo, em 1974, tocando o seu instrumento às fatias, como ele fazia sempre nos shows ao vivo, fiquei extasiado. Em casa comecei a imitar o mestre, fabricando cornetas de PVC, com teia de aranha. A minha 1ª experiência pelo universo do scat, foi imitando os sons do seu clarinete.
Utilizas técnicas mistas e recursos combinados na feitura dos teus quadros. Em que medida os elementos compostos são meio ou fim da tua linguagem plástica?
Nos tempos que correm o mixed media parece ser a técnica ideal para se comunicar. Sempre utilizei todas as ferramentas q me estivessem ao dispor. Fotocópias, stencil, betão armado, computadores, os recursos são vários e todos eles servem. Por uma questão de sobrevivência, não existe em mim uma opção estanque.
És muita coisa – pintor, poeta, gráfico, fotógrafo, documentarista, enfim. Como definir o Mito em uma palavra? Já agora, um artista é definível em uma palavra? Justifica-te.
Em inglês diz-se: visual artist - uma definição particularmente feliz, para definir os propósitos da profissão de quem trabalha a imagem. Em português não soa tão bem. Artista visual em português, dá sensação de ser, quem ensina ballet aos ceguinhos, com o devido respeito aos portadores da deficiência. Por isso, digo sempre que sou um artista da imagem. Desde pequeno soube que seria um artista da imagem quando crescesse. Não sabia porém, os caminjos turtuosos a que isso me obriga a trilhar. Ter que lidar com um mundo desleal, oportunista, invejoso, desinformado, e pouco dado à reflexão. Sou apenas um artista visual, e não um insuspeitado anjo branco polifacetado.
O Mito é uma artista plástico cabo-verdiano ou apenas de Cabo Verde? Há elementos intrínsecos da cabo-verdianidade nos teus traços e na tua linguagem?
As duas coisas servem. Todo o meu trabalho é uma busca incessante da espiritualidade CV, sem no entanto, recorrer ao cromo postal ou ao zouk visual.
"Só pamodi bó" é um título enigmático. Qual a história ou a lenda por trás deste título? Estamos aqui perante um Mito a dizer algo que o mundo desconhece?
Nada que seja muito complicado ou subliminar. Apenas uma prova de amor, para alguém que sempre admirei, embora tivesse privado com ele, apenas meia dúzia de vezes. Apenas um cartão postal para o mestre Luís Morais, ele q quando se aproxima a época do natal, brinda-nos sempre com a sua música festiva. Quando se fala de boas festas, lembramo-nos todos, nem que por um instante o nosso barba branca – Luís Morais. Não me esqueço, de q no dia 8 de Maio 1995, no Mindelo, encontrei-o num boteco q fica junto do palácio do povo, onde ía inaugurar a minha exposição MITOmorfoses, convidei-o a tomar parte e confessei pra ele de que seria uma honra. Ele foi pontual, visitou a exposição, escreveu no livro de visitas e à saída deu-me um grande abraço e disse-me: BÔ Ê UM BULDÔNHE! Esta é uma forma de retribuir o amor e o carinho com q ele sempre nos brindou.
Quais são as outras causas do Mito, para além da Arte?
Família, desporto, comida vegetariana, computadores (...)

Comentários

Anónimo disse…
Hey , Margott

Mito è un grande intellettuale. Il pittore più specializzato nel mondo caboverdeano. Anche, questa intervista è stato condotto bene. Congratulazioni, ragazza.

Arrivederci,

Pasqualino Settebellezze
Pura eu disse…
Grata pela consideração.

Um abraço da Margott

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