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O bilinguismo adiado

criança linda






















Depois de uma entrevista à linguista Dulce Almada, em Cabo Verde por estes dias, ocorreu-me escrever umas linhas sobre um argumento muito utilizado pela ala contra a oficialização do crioulo. Dizem alguns que a assumpção do crioulo passa pelo seu uso nos médiuns considerados de prestígio: na administração, nas escolas, nos tribunais, etc., e que o exemplo deveria vir dos defensores da oficialização do cabo-verdiano, ou seja, que os defensores da oficialização deviam apenas falar e escrever em crioulo.
Há falácias a desmontar nesta ideia. Antes de mais, é importante dizer que os defensores da oficialização do crioulo não almejam o desaparecimento do português, mas sim, tratamento paritário para as duas línguas veiculares em Cabo-Verde.
O que essa mesma ala parece não querer perceber é o trabalho partilhado por todos para se chegar ao desiderato da oficialização. Ninguém questiona a "superioridade veicular" da língua portuguesa face ao crioulo, devido ao seu uso preferencial nas estruturas oficiais. Em virtude de condicionalismos históricos, esta é uma realidade com que todos convivemos. Mas vale lembrar que as coisas não foram sempre assim. Com o surgimento do crioulo no século XVI, este se afirma como a grande língua veicular de Cabo Verde. Todos, sem excepção, falaram o crioulo em Cabo Verde até o século XIX, e não se tratava de um hábito menor se expressar na língua cabo-verdiana. Foi a partir de então que, por imposições e constrangimentos de ordem política, a elite intelectual assumiu e disseminou “entre os comuns” o sentimento de inferioridade face à sua língua materna.
Apesar dos “enfrentamentos” linguísticos ao longo da história, o crioulo continua pujante e a impor-se a cada dia. Mas, é claro, eu, tu, nós continuamos a escrever em português, e a falar o português na imprensa, nas universidades e na administração, e assim vai continuar a ser. Com a assunção plena do Alfabeto Cabo-verdiano (filho sedimentado do ALUPEC, diga-se) até à instrumentalização do crioulo, do seu ensino nas escolas até às decisões de ordem política, hoje, prementes, estaremos nós ou talvez os nossos filhos a escrever e a falar sem pejo algum a língua cabo-verdiana. Nikolas Quint, investigador e linguista francês, disse numa entrevista ao Jornal A Semana Online que "Uma língua que não se ensina de todas as formas está condenada no mundo de hoje".
O nosso atraso histórico: o “acantonamento” da língua cabo-verdiana à sua oralidade. E o desafio dialéctico que ora nos impende: assumir, emproar e igualar a nossa língua materna e nacional ao português que todos falamos ou almejamos falar na sua perfeição. A não ser que haja gente seriamente apostada em perpetuar tal atraso histórico, entrando assim em disputas imaginárias e agarrando no jogo labiríntico das variantes, numa alegada atrapalhação do ensino em si, através do crioulo. Pura ilusão.

Comentários

jlt disse…
Bale. Bon Natal
margott disse…
Pa nós tudu.

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