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Dias que ficam...

Carolina Maria de Jesus


























1. “Existe uma relação intensa entre Cabo Verde e o Brasil que se dá via Fortaleza, mas o Brasil, pelo menos, não sabe disso. Temos que fazer alguma coisa para inverter esse quadro.” Foi mais ou menos esta ideia que o director da TV Cultura, o nomeado jornalista Paulo Markun, me passou numa reunião que tivemos naquela que é, sem margens para dúvida, a TV que produz melhores conteúdos no Brasil. Essa ideia ainda embrionária pertence a uma realidade futura, mas com pernas para andar.

2. 1º Seminário de Estudos cabo-verdianos

É importante perceber que a ideia de Markun, apesar de tudo, não está longe do presente se atentarmos àquilo que acaba de acontecer na Universidade de São Paulo: O primeiro Seminário Internacional de Estudos Cabo-verdianos sob o sugestivo lema Contra Vento Pedra-a-Pedra em homenagem ao poeta Luis Romano, cabo-verdiano residente no Brasil há largos anos. Foram quatro dias (25 a 28 de Novembro) de conferências e debates centrados na literatura, e que incluiu mostras de vídeo, das artes plásticas, e da moda tradicional das ilhas, e uma feira de livros cabo-verdianos. O evento foi coordenado pela professora Simone Caputo Gomes, ensaísta e pesquisadora brasileira, considerada a maior especialista em Literatura cabo-verdiana no Brasil. Há vários anos, Caputo Gomes tem tematizado Cabo Verde em importantes universidades brasileiras, incluindo a USP, na qualidade de coordenadora de estudos da literatura africana em Língua Portuguesa.
Marcaram presença no certame escritores, poetas, artistas, jornalistas, professores, estudantes, e pesquisadores de Cabo Verde e do Brasil. O 1º Seminário Internacional de estudos cabo-verdianos da USP veio para ficar e terá continuidade nos próximos anos.

3. Museu afro-brasil

Carolina Maria de Jesus (1914-1977) – foto - é um nome lendário no Brasil, e deveria ser mais ainda, caso não fosse ela uma negra que morreu na miséria sem poder usufruir das suas reais capacidades de escritora. Ganhava a vida como empregada doméstica, e terminou a jornada terrena a catar papéis nas ruas de S. Paulo. Escreveu vários livros (inspirada em livros que lia, na sua vivência miserável, e na vida mais ao largo que seguia pelas páginas dos jornais). Uma das suas obras (Quarto de despejo) foi traduzida para 14 línguas, mas no cenário social de então nem ela mesma chegou a ter a devida percepção do seu talento. A sua obra completa (os manuscritos, inclusive) é parte do acervo do Museu Afro-Brasil, o espaço que alberga toda a temática da vida e da cultura negra daquele país latino-americano: a história, a sociedade, a culinária, a música, o teatro, a TV, a fotografia, o cinema. Uma grandiosa obra, cuja idealização e montagem contou com o empenho pessoal do curador Manoel Araújo, um destacado colecionador de artes do Brasil que ousou e conseguiu que a contribuição incontornável dos negros no Brasil não se perdesse na noite dos tempos, nem caísse no esquecimento dos dias. Um grande senhor que merece desta humilde que vos fala todo o axé do mundo. O museu afro-brasil situado no Parque do Ibirapuera em São Paulo é um lugar espantoso e encerra muitas raridades no seu interior. É ainda um espaço dinâmico com uma biblioteca (chamada Carolina Maria de Jesus), promove e sedia cursos, aulas práticas e conferências, e o mais interessante para nós, mantém uma relação interessada com a África, através das exposições itenerantes de artistas e instituições de alguns países africanos que recebe com frequência. Outra porta que se encontra aberta para os nossos artistas de fé.

4. A criança, a mulher e o cão (a ilusão dos dias)

Um retrato que apenas muda de lugar,
num espaço relacional,
traido em constância
pelo tempo,
pela sombra,
ilusório quando insistimos na sua condição
relacional
ilusório
como um retrato que muda de lugar
para preencher o vazio dos dias.

5. Os momentos depois da anunciada pausa regressa com o firme propósito de caminhar, sem nunca deixar de dobrar a esquina e interpelar os seus deuses (lembrando o poeta) ...

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