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As memórias de Patrícia

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"Eu sempre vivi entre o interior e a cidade". Assim respondia Manuel António às múltiplas situações de conversa e desoras a que todo homem perto da terceira idade está envolvido. Era calceteiro invicto, e mesmo quando não havia obra certa, rumava às seis da manhã à cidade das calçadas para comprar as frutas da época, e trocar dois dedos de prosa com os seus confrades. Estes, estivadores, tabaqueiros, pescadores e reformados do carreto, nunca perdiam o élan de abordar os temas eternos como as azáguas, a crise crustácea do mar, a doença de um confrade, e a morte de um mortal do seu tempo. Todo aquele cenário era de um profundo saudosismo, mesmo dos tempos em que se morria à míngua, da época em que irmãos e amigos partiram para São Tomé para o contrato nas roças. Manuel António era um homem de altura mediana, corpo firme, usava umas calças de pano de boca sino, e umas sandálias a lembrar o típico preto velho do tempo dos cativeiros, embora abdicasse do chapéu e do cachimbo. Mas a alma era de um preto velho.
Entre as conversas e umas rondas pelos mesmos locais da cidade, Manuel António nunca dispensava um café às 10 horas em casa de Joana, uma senhora mais velha, corpulenta, e dona de todas as memórias: Joana estivera em São Tomé e nunca chegara a trabalhar nas roças, por causa da doença que a importunava, e isso constituía uma das maiores relíquias da sua estada na linha do Equador. A filha que morrera aos 4 anos nas plantações envolvia-a numa profunda melancolia de que nunca conseguira libertar. Manuel António conhecia esta e outras histórias de Joana que, entretanto, faleceu, interferindo, em partes, na sua rotina impulsiva.
Os anos se passaram e a vida de Manuel António foi tomando rumos diferenciados. Deixou de ser calceteiro, a profissão de sua vida, e passou a ser guarda-nocturno nas lojas da cidade.
Patrícia conhecia Manuel António em criança, e depois de anos, passara por ele e nem o breu puro da noite o impedira de a reconhecer. A voz firme e intacta do preto velho perfurava os ventos frescos da noite, e de uma berma a outra descobriram de que fora feita a vida deles pelos anos adentro. Patrícia voltara a cruzar-se com Manuel António, desta feita, num fim de tarde, hora habitual em que Manuel António passara a vir à cidade para a sua profissão de guarda-nocturno. A jovem fitou os mesmos pés largos do velho, as rugas que apenas se insinuavam, e o porte destemido de um homem que vivera entre o interior e a cidade.
Num dia como um outro qualquer chegou à Patrícia, a triste notícia do falecimento de Manuel António. Fora encontrado tombado numas das eternas rochas em cone da Cidade de S. Pedro, depois de permanecer três dias desaparecido.
Manuel António presenciara por aqueles dias como guarda-nocturno, um assalto, e terá sido esta a causa da sua morte na cidade em que vivera e ajudara a ser.

foto: daqui

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