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Parabéns, Mário Lúcio

Mário LúcioÉ o selo dos encontros, desencontros e reencontros. O dono dos olhares todos que perpassam meras fronteiras materiais. Cultiva uma relação primordial com as divindades, e através delas se sente e se mostra na arte.
Os momentos dá, assim, os parabéns ao músico Mário Lúcio que num dia como hoje de 64 nascera na Vila do Tarrafal de Santiago.


Margarida: Quando lançou, no ano passado, o seu livro Vidas paralelas e o CD a solo Mar e Luz anunciou uma crise da meia-idade, e todas as implicações que daí advém. Continua, ainda hoje, nessa curva existencial?

Mário Lúcio: Continuo. Antes, os meus desassossegos tinham a ver com o tempo. Em Chã das Caldeiras apreendi uma nova noção do tempo e foi uma grande libertação. Partilho tais reflexões num livro ainda não publicado que se chama “Se eu fosse um cuco”. Hoje, os meus desassossegos têm a ver com o espaço, com os espaços pequenos, dentro e fora das pessoas. Às vezes até parece que nada valeu a pena, se o crescimento implica não caber mais.

M: Mário Lúcio se projecta, hoje, como um artista universal, com referências místicas muito difusas. Neste enquadramento despontam realidades como a cubana, a baiana, ou mesmo a lusitana. Como sintetiza na sua pessoa esses credos?

M.L: Eu comecei por mostrar o meu país ao Mundo. E Simentera cumpriu e esgotou esse papel. Agora quero mostrar o mundo ao meu país, o mundo que o mundo desconhece. Sou todo o meu percurso. Antes fazia música como missão, hoje faço-a como líbido.

M: Enquanto artista, tanto na escrita como na música, flutua num espaço transcendental, muitas vezes, pouco acessível. Qual é a sua missão enquanto homem das artes?

M.L: A minha missão enquanto homem das artes é a luta contra a mediocridade. Desde criança que diariamente enfrento essa realidade. Acredito que a compreensão do mundo através da estética evita em primeiro a violência. E como os medíocres têm medo de se sentirem marginalizados num futuro já visualizado, fazem a luta do marido que chega tarde à casa. Mas, não desisto, porque tenho filhos, e porque sou covarde nessa realidade. De modo que só me sinto seguro nessa utopia da grande alma humana.

M: Mário Lúcio tem sido um selo dos encontros. Encontros que mexem com a história, com os sentimentos, e num plano mais infinito, com a própria existência. Como encara o seu encontro (ou será reencontro) com Gilberto Gil. E como gostaria que isso fosse apreendido, tendo em conta a dimensão desse astro? Terá esta preocupação receptiva?

M.L: Eu nunca procurei muita coisa na vida. Mas sempre achei. E nessas andanças tenho tido a sorte de me encontrar com gente grande. Nos atraímos mutuamente. Assim foi com Manu Dibango, com Maria João e Mario Laginha, com Paulinho da Viola, com Gilberto Gil, com Luis Represas, com Nacia Gomi, com muita gente. Sentimo-nos bem e dá-nos um gozo enorme fazermos alguma caminhada juntos. São encontros casuais. Até o Simentera foi um encontro casual. Pode parecer falta de modéstia, mas eu não me sinto pequeno junto das grandes personalidades. Sinto-me às vezes pequeno junto de gente pequena. Conto-lhe esta: eu, há uns anos, fui visitar um pai de santo em São Paulo. Esperei na sala, e quando ele apareceu, estendeu-me a mão e disse-me: “Benção, meu pai”. Ele achou que eu estava num rango superior. E tem sido assim com todos. Abraçam-me e recebem alguma coisa que só eles sabem e apreendem. Eu tomo essa devoção. E tomo na mesma medida que eu dou. Leia Mais

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