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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2010

Sobre o livro de Françoise Asher

Uma comunidade que, apesar de diferente, vivia o seu tempo numa realidade que apenas carecia de uma contextualização, principalmente por aqueles que a viam de fora. Foi esse trabalho que, de espírito aberto e de forma aturada, faz Françoise Asher no livro “Os Rabelados de Cabo Verde”.

Está-se perante uma obra de investigação jornalística, por conseguinte de pesquisa científica, pelos métodos que apresenta e pelo claro desafio ao empirismo que a temática tende a impor aos leitores.

Indo para além da tentação da mistificação do fenómeno antropológico e sociológico dos Rabelados, a autora faz um autêntico trabalho de campo e problematiza, a partir dos dados que obtém, as causas, as origens, a forma de ser e de estar dessa comunidade que ainda se mantém à margem do fulcro social cabo-verdiano.

Do cruzamento das fontes várias, Françoise Asher informa sobre uma franja de cabo-verdianos que, em certa medida, decidiu valer-se de reminiscências como argumentos de afirmação de uma identidade relig…

São tantos momentos...

1. “Nesse contexto social em que a democracia é mais senso-comum e ambiência cotidiana do que paixão ideológica, os meios de comunicação adquirem um novo estatuto cultural e uma posição de poder sem precedentes na História do mundo(Sodré 1996:70).

Este debate não existe neste país onde as televisões (do mundo e da terra juntos) representam poderes (sem vontade fundadora) e interesses incalculáveis, e confrontam-se impulsivamente para o eterno inconformismo dos telespectadores que têm aquilo que não querem, e estão longe de ter o que precisam.

2. Enquanto isso, a RTP África emite no Repórter África uma peça com José Maria Neves, em que este fala da sua adesão ao facebook, e “dos grandes propósitos desse feito”. Um desses propósitos é quebrar o “isolamento” do primeiro-ministro que na rede partilha grandes decisões, de poesia às questões de governação, admite. Já atingiu o limite das amizades na rede social, e cogita a possibilidade de criar um club de fãs, à moda dos grandes artistas. …

Jornalismo para quem precisa

1. Nos últimos dias temos sido varridos por uma vaga de acusações vinda do jornal Liberal, e ontem das hostes do MPD, relacionadas ao cerceamento da liberdade de imprensa. Todas as balas estão sendo gastas com a TV Pública, tendo como alvo os serviços noticiosos do canal. Nesse avalanche de críticas, houve, e ouve-se muito equívocos: relativamente ao trabalho dos jornalistas, o papel dos media publicos e privados, os meandros do serviço público, os sujeitos... e o mais grave, uma tirada partidária sem o mínimo de preparo, num debate que deveria interpelar, em primeira instância, a classe jornalística, (quando se pensa no foco do problema). Razões existem ... a começar, por exemplo, pelo (s) lugar(res) da informação, (o conceito; os sujeitos; os interesses;), e termina nos limites e implicações da publicidade institucional do governo nos órgãos públicos. Se o momento é quase eleitoral, o recorte da problemática é ainda maior.

2. Nessas horas, em que os ânimos partidários se levantam, e …

Ode ao Tempo

1. Patrícia pressente o viver como o vagar por uma estranha e imprevisível estrada: nunca encara as vias; algumas, ela ignora, pisa, e o caudal arrasta-se, prossegue, persegue-a, para em seguida desviar-se do estarrecido fim. Nunca escreveu uma história, nunca viveu uma história, nunca subiu a um palco, tal o pavor que lhe encerra os finais. Decidiu estar num lugar qualquer onde o princípio e o fim são um nada entrelaçados e desvanecidos num tempo acabado.

2. Olha, parada, o horizonte que se recusa a alcançar: o que faz dela uma alma conformada com o tempo que nunca se abriu.

3. Um dia decidiu partir sem destino, mas com a certeza do tempo e do nada que nele paira.

4. Enquanto os dias passam, com ele junto...

Patrícia: dias ao largo

1. Retomo as histórias de Patrícia.

2. Ela continua a viver o mundo, mas em toda e qualquer avenida apenas alcança as calçadas da sua ruela, as ribeiras do seu chão, e os olhares familiares que a viram sendo. Insiste naquele tempo inicial só dela, que não pertence a mais ninguém, insiste em ser menina, hoje, entre rugas e tempos cruzados, entre dores e alegrias vividas. As derrotas, e também as vitórias, para a jovem mulher, continuam indiferentes. É como sente a própria vida: dias que passam ao largo de tudo.

Uma experiência privada (da vida pública de Arendt)

“No seu estilo inimitável, Heidegger escreveu a Arendt que o reatar da amizade entre ambos se devia a Elfride, e que o amor dos dois era sustido pelo amor da esposa. A imagem das duas mulheres a abraçarem-se à despedida era a imagem que ele idealizada para o futuro: um vínculo emocional entre as duas alimentado pelo amor que tinham por ele. Depois disso, Elfride estava presente em quase todas as cartas de Heidegger, enviando beijos, saudações, cumprimentos a Hannah. Os três encontravam-se no limiar de uma nova experiência, em que Hannah Arendt pertenceria a Martin e a Elfride Heidegger.”*

nota pura: Martin e Elfride Heidegger (nazi) eram marido e mulher, e Arendt (alemã judia) aluna e amante do filósofo alemão. Anos depois de um caso amoroso secreto, desafiante e movido a impulsos, (que chegou a terminar, Arendt (foto) teve outros casamentos de permeio) Heidegger ensaia uma aproximação entre as duas mulheres de sua vida, e chega a idealizar uma cumplicidade a três que se revela no fim …

Sentimento 35 (e outros)

1. Uma certa azáfama à volta das comemorações do 35º aniversário da Independência Nacional fez-me lembrar Caetano Veloso e o seu dito em relação aos que desejam matar amanhã o “velho” que morreu ontem. O espavento, em plena bonança, deixa a descoberto aqueles que não se deram conta do vendaval, e alguns que só agora ouviram falar des "femmes" e des "hommes". À par do resto, que é sempre igual e que, inclusive, já teve mais brilho, a valer mesmo será nos abraçarmos todos aos reptos com equilíbrio, diga-se de passagem, no acto solene: (lucidez, pés no chão, futuro, juventude, emprego, combate à pobreza, etc.), sendo a história dinâmica e, por isso mesmo, de se lhe reinventar compromissos novos; a independência nacional (já) foi uma etapa decisiva na história de Cabo Verde, porque a soberania de um povo é vital para a sua consciência. Os personagens desse momento histórico, muitos deles, tomaram rumos diferentes. Outros, também muitos, engendraram novas e importantes …