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Quando se morre

ExampleHenrique Teixeira de Sousa esteve em Novembro do ano passado, nestas ilhas, onde lançou, dir-se-ia que a titulo de despedida, o seu último romance Oh mar de Túrbidas Vagas. Uma homenagem expressa ao poeta bravense, Eugénio Tavares, e às viagens longínquas do cabo-verdiano à descoberta da América, de que também foi personagem. Era originário da minha ilha e autor do primeiro livro de contos que li na minha vida. Conheci-o era eu uma adolescente, em S. Jorge, na praia das Salinas, que ele chamava de piscina natural do Fogo. Gostava do meu nome, o mesmo de sua mãe e filha, dissera-me então.

Teixeira de Sousa deixa um legado incontornável na literatura cabo-verdiana através dos seus oito romances: sendo os mais populares Contra mar e vento, Capitão de mar e terra, e Ilhéu de Contenda, este último adaptado ao cinema.

A sua trajectória confunde-se com a dinâmica histórica e sociológica destas ilhas. Nasceu na ilha do Fogo em 1919, e dividiu a sua adolescência entre a Cidade de S. Filipe, e a zona de S. Jorge, norte da ilha, onde a sua família tinha terras. Fez os estudos liceais em S.Vicente, e seguiu para Lisboa onde cursou em medicina em 1945.

De regresso a Cabo Verde, enquanto escritor, Teixeira de Sousa, muito influenciado pela geração dos claridosos, retratou estas ilhas com olhar crítico e sentido de pertença, tendo deixado para a posteridade um dos mais emblemáticos testemunhos literários da evolução sociológica deste povo. Enquanto médico, sempre esteve próximo dos mais necessitados. Chegou mesmo a exercer o cargo de presidente da Câmara de S.Vicente, onde deixou marcas indeléveis.

Henrique Teixeira de Sousa, morreu atropelado, na semana passada, em Portugal, onde residia há 30 anos, e não pôde cumprir duas promessas: publicar o livro S. Jorge, cujo enredo histórico se passaria na ilha do Fogo e seria uma homenagem ao seu avô, e escrever uma obra lírica sob o título Na Madrugada dos teus olhos.

Em décadas de feitos por estas ilhas, são estas as únicas promessas de Teixeira de Sousa deixadas por cumprir.

Comentários

Objectivo disse…
Que morte estupida! Não conheço o autor, mas vou fazer por isso.
H. Sousa disse…
O post faz uma descrição fidedigna, com uma ligeira imprecisão. Se ele disse que gostava do seu nome porque era igual ao da mãe e de uma filha talvez ele se tenha enganado ou confundido filha com neta. Uma neta dele é que tem o nome da mãe dele.
Obrigado!
Pura eu disse…
H.Sousa pode ser que ele tenha mesmo dito filha e neta... o engano pode ser meu. Já lá vão alguns anos. Obrigada pelo comentário.

Foi, sim, uma morte estúpida Objectivo. Muito triste.
H. Sousa disse…
Não, como já publicitaste o teu nome, Margarida, a filha, que é única porque os outros seis são todos rapazes, chama-se também Margarida e tem o "nominha" de Guiducha. Mas a mãe chamava-se Laura, assim como uma neta.
Pura eu disse…
h.sousa já que descobriste! É sim, Margarida esse nome tão repartido nessa nossa conversa de anos... não me lembro, ao certo, quem confundiu os nomeados, só consigo ter a certeza de que eram três. Mas se, de facto, existe uma mãe e uma neta com o mesmo nome, a confusão dos nomeados deveu-se, certamente, ao falecido. Um enigma, dificil de se decifrar neste momento :)
Silvino disse…
De uma coisa, todos podemos ter a certeza: 'dentro' ou 'fora' das letras, Teixeira de Sousa sempre foi um herói. Pelo menos, o espérito e a obra dele procura transmitir-nos essa certeza.
Continua a ser aquele mágico autor que 'conheci' com doze anos quando me encontrei defronte com ele no mundo em que se rema "Contra Mar e Vento". É um autor que chega à alma.
H. Sousa disse…
Volto só para dizer que Henrique Teixeira de Sousa era meu pai (sou um dos sete filhos) e fui o único (creio) que não foi ao funeral porque não alinho em palhaçadas. O meu blog já está no ar de novo.
Abraços.
Pura eu disse…
h. Sousa já estava quase que certa da sua origem. O seu blog é muito acutilante e necessário. Gostei.

Abraços

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