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S. Nicolau: a ilha do passado

Conhecer, hoje, a ilha de Chiquinho (título do primeiro romance cabo-verdiano de Baltazar Lopes) provoca em muitos um misto de alegria e tristeza. Uma sensação difusa, resultante de uma memória do passado que paira no ar, envolto de um silêncio perturbador.

S. Nicolau foi durante muitos anos o centro do saber da intelectualidade cabo-verdiana, graças ao papel do Seminário-Liceu, fundado a 3 de Setembro de 1866 por um grupo constituído por cónegos, sacerdotes e seminaristas acabados de chegar à ilha.

De referir que o programa de estudos do Seminário-Liceu era equiparado ao dos Liceus em Portugal, e não era oferecido apenas aos candidatos a padres, mas também aos destinados ao funcionalismo público. Por esta razão, pode-se afirmar que o Seminário-Liceu de S. Nicolau produziu um manancial de funcionários e professores que muito contribuiu para o desenvolvimento sócio cultural destas ilhas. Figuras como Baltasar Lopes, José Lopes, António Aurélio Gonçalves e João Lopes são apenas alguns exemplos da plêiade intelectual saída da instituição.

De realçar que em todos os estudos sobre o percurso da Igreja Católica em Cabo Verde a época de S. Nicolau (1866 – 1940) é tida como um momento decisivo não só para a consolidação da igreja no nosso país, como também para a formação intelectual e moral das ilhas. Durante esse período os bispos passam a residir definitivamente na Ilha de S. Nicolau

Outro monumento que alia o passado de S. Nicolau aos fundamentos profundos da Igreja Católica em Cabo Verde é a antiga Sé Catedral, construída nos finais do Século XVIII. Hoje, numas obras de restauração que caminham a passos lentos, muito poderá se perder, tendo em atenção a crescente degradação das peças valiosas da igreja que estão amontoadas provisoriamente num quarto do Seminário-Liceu.

Num passado menos remoto, nunca é demais lembrar o árduo trabalho feito pelos padres capuchinhos, chegados em Cabo Verde em 1947, período de Renascimento da Igreja Católica em Cabo Verde. Em S. Nicolau, Vila Ribeira Brava, ainda se encontra um dos primeiros capuchinhos que pisou estas ilhas, Padre Mauro. No Tarrafal encontra-se também o Padre Josualdo, que em parcos picos de lucidez deixa a nítida ideia de que quando chegou àquele povoado nada encontrou. Tarrafal é hoje o centro mais dinâmico e desenvolvido da ilha.

A Vila da Ribeira Brava encontra-se em sono profundo em companhia da sua grandeza histórica, cujos tentáculos correm o risco de permanecer no passado, se não se fizer algo já.

Comentários

Kamia disse…
Juntamente com Maio e Brava, S. Nicolau é das ilhas mais "abandonadas" (Boa Vista lá vai ganhando visibilidade por ter caído nas graças dos italianos) pela qual urge fazer algo.
Nuno Vieira disse…
a ver "As Águas" adaptação do romance Chiquinho pelo grupo de teatro de cabo verde Burbur...FITEI 2002

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