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Nós somos o jazz

mário Canonge














No ano passado escrevi este texto sobre a minha percepção da dinâmica de socialização que o Krioll Jazz Festival traria à Cidade da Praia e a Cabo Verde. A edição deste ano só veio confirmar essa impressão: além de um cartaz de luxo, e sobretudo consequente, tendo em conta a proposta do festival – consolidar um jazz crioulo – o festival deste ano mereceu a cobertura da imprensa estrangeira e despertou interesse de produtores internacionais. Praia entrou na rota do jazz.
Creio ser de louvar o facto de um grupo como Manhattan Transfer (as lendárias 4 vozes) aceitar actuar na Cidade da Praia sem cobrar cache, ou, por exemplo, o arranjador e um monstro sagrado da música popular brasileira (MPB) como Jacques Morelembaum dizer alto e em bom som que sonhava pisar estas ilhas.
Insisto na proposta de uma música jazzi cheirando à raíz, e nessa perspectiva o Kriol Jazz superou todas as expectativas. É só ver o que Ralph Tamar faz em parceria com Mário Canonge - foto: um casamento perfeito. Tamar decide por uma carreira a solo, e fá-lo sem abandonar o tom e a estética que o caracterizavam nos Malavoi…prolonga-se em outras bases rítmicas. Mário Canonge é versátil, transita com mestria pelos vários géneros.
A mesma leitura se pode fazer do grupo Kora Jazz Trio. Djeli Diawara, o korista da banda, já actuou com grandes nomes do jazz, sem nunca perder a sua tradição sonora mandinga.
Foi, como afiançou o director artístico do festival, Djô da Silva, este repto que se lançou aos músicos cabo-verdianos: um novo show, outros voos. Kim Alves e Princezito, sem falar de Vasco Martins, provaram que, de facto, nós somos o jazz.

Falar da música

Outra marca do kriol jazz festival foi a inter modalidade entre a performance musical e a reflexão sobre a música, entre o espectáculo e o workshop, entre o entretenimento e o conhecimento.
Ao agregar a Universidade de Cabo Verde no rol dos promotores, este festival aporta uma complexidade que o torna referência para os músicos de Cabo Verde e de outras paragens.

Finalmente …

Horace Silver foi o homenageado do festival, e segundo as palavras de Ulisses Correia e Silva, “uma homenagem que terá chegado tarde” e Silver só não esteve presente no evento por motivos de saúde. Até aí, tudo bem. Que me recorde, apenas Mário Canonge interpretou uma das canções de Silver… ao longo do Festival, raramente se fez referência ao pai do hard – bop. Eu, e meus entrevistados, teremos falado muito mais dele nas reportagens que fiz para a televisão…

fotu: Omar Kamilo

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