Avançar para o conteúdo principal

momentus


Creio ser o show de Maria de Barros, ocorrido no Sábado passado, uma celebração da cabo-verdianidade no sentido mais puro e simples da questão. O país global e diasporizado estava ali naquele palco. A cantora que nem nasceu nas ilhas ofereceu-nos uma noite cabo-verdiana, das mais genuinas vistas por estas bandas. Morna, coladera, funaná, presença, voz, charme, simpatia, the last, but not the least, competência. A cantora que nasceu no Senegal, canta também em francês, e balança o corpo dir-se-ia que dos ventos da Mauritânia, onde cresceu. Celebra a sua latinidade. Abraça as suas origens.
A banda de Maria de Barros é também uma pérola. Além dos Cabo-verdianos Djim Job (baixo), Zé Rui (cavaquinho) e Calú Monteiro (drums) supreende com o californiano Mitchell Long (guitarra e pandeiro) os brasileiros Sandro Rebel, e Grecco Buratto (teclado e guitarra, respectivamente). Antes de terem sido apresentados pela diva, dava para imaginar que eram estrangeiros, mas o ritmo cabo-verdiano, e o coro num criolo perfeito confundiam um bocado. A dúvida só foi dissipada mesmo com os esclarecimentos da cantora.
Mitchell Long, o americano da banda, disse que foi fácil tocar a música de Cabo Verde, porque adora o Brasil e vai lá muitas vezes. Vejam só o paralelo! Achei curiosa essa relação, para ele quase que natural. Grecco e Sandro (os brasileiros da banda) igualmente estão à vontade com os ritmos destas ilhas. Justificam-se como sendo brasileiros. São detalhes desses que comprovam, uma vez mais, a proximidade do nosso país com as terras de Vera Cruz. Uma relação que ao nivel cultural devia ser mais explorada.
A cantora e, já agora, a banda do momento prometem estar no Tabanka Mar no dia 1 de Setembro.

Bónus

O show de Maria de Barros foi aberto por Djoy Amado. Reportou-me às actuações do nosso cameraman Tcheka na cantina da TCV. Hoje, nos palcos do mundo. É este o percurso natural dos talentosos.

Post...

Resolvi mudar a foto deste post, para não pensarem que corresponde ao show de Sábado. A minha amiga Tânia ainda não mas passou (dommage!). Ela me acompanhou no show, e depois fomos ao Black Cat que eu adoro! (juro que publicava as fotos). A selecção musical do Peter (menino irlandês que cresceu na Itiópia), e as fórmulas mágicas do seu Malibu... vou ficar com saudades da minha amiga que está de malas prontas...

Comentários

Vladimir disse…
Achei curioso essa relação colocada pelos artistas entre o Brasil e Cabo Verde, uma vez que essa integração é ainda muito incipiente. Mas que seja um sinal que ela se tornará cada vez mais forte, né?
Bjs
Pura eu disse…
Informalmente essa relação é intensa de parte a parte. Ao nivel da educação, por exemplo, a parceria é forte (mais sentida em Cabo Verde, pelo número de quadros formados no Brasil), mas do ponto de vista cultural (onde existem muitas semelhanças)não existe um intercâmbio efectivo. Pensou-se em abrir um Centro Cultural Brasileiro aqui na Praia, mas ainda não saiu do papel... vamos torcer, né?
Bjs

Mensagens populares deste blogue

Depois da Bandeira

1. SÃO LOURENÇO continua a ser um dos lugares mais agradáveis da Ilha do Fogo. O cemitério casado com a igreja e a casa paroquial; um lugar quase ermo, com a cara voltada para o mar, e um punhado de terra no ventre. Terra boa que d...eu bons filhos à ilha. Nesse cemitério, sob a imagem de uma pirâmide, mesmo à entrada, fica a campa do médico e escritor, Henrique Teixeira de Sousa, natural de Outrabanda, freguesia do Santo. Dois passos à frente descansa eternamente Padre Fidelis Miraglio, o eterno pároco de S.Lourenço e um dos primeiros Padres Capuchinhos italianos a pisar Cabo Verde. Na residência paroquial, mesmo ao lado, vive outro pastor de S.Francisco: Padre Camilo Torassa, italiano, filho de Cuneo, a viver entre Fogo, S.Vicente e Brava há mais de 50 anos: apesar do mal que lhe aflige os olhos e as pernas, a lucidez o acompanha. Éramos quatro adultos e uma criança, e fomos expressamente a São Lourenço para o visitar. Conversa vai, conversa vem, desafiou a um dos visitantes que co…

CODÉ DI DONA: 1940-2010

Codé di Dona tem um perfil de funaná que cativou a atenção da nação” disse Eutrópio Lima da Cruz em entrevista à TCV.

Todos são unânimes em considerar Codé di Dona (1940-2010) como uma das figuras incontornáveis do funaná, género musical outrora confinada à Ilha de Santiago, hoje com ressonância universal.

Compositor de músicas definitivas do repertório nacional, como “Febri Funaná”, “Fome 47”, “Praia Maria”, “Yota Barela”, “Rufon Baré” e “Pomba”, entre dezenas de outras, Codé di Dona emocionou os cabo-verdianos, ao longo de uma meteórica vida artística, com a singularidade das suas melodias e a poesia das suas letras. A composição “Fome 47”, só para citar um exemplo paradigmático, constitui uma imensa referência sobre uma das realidades históricas mais marcantes de Cabo Verde: a estiagem, a fome e a emigração para São Tomé e Príncipe. A imagem da partida do navio “Ana Mafalda” faz parte do imaginário colectivo dos cabo-verdianos, tanto que essa música é entoada, como um hino, pelos se…

Poema de amanhã

(...) - Mamãe!

Sonho que, um dia,
Estas leiras de terra que se estendem,
Quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
Filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
Serão nossas. (...) ilustração: Mãe preta de Lasar Segall, 1930 poema: Poema de amanhã de António Nunes, 1945