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Badyo do mundo

Costumo lembrar a todos que escrevo sobre os encantos que as coisas me fazem. É aqui, e só aqui onde posso me dar ao luxo de assim agir. E é com esta subida emoção que falo do CD Badyo do músico, Mário Lúcio. Sem me ater a uma música em particular, e muito menos, ao separatismo arranjista do CD, discorro sobre o universo recriado pelos sons do Mário Lúcio.

Partimos de Santiago, com o badio escravizado que resiste e se afirma no mundo das Antilhas, do Brasil, em suma das Américas de todos nós. A trajectória desse badiu di Santiago atravessa mares e culturas, faz-se de outras costelas, e se mostra como um homem novo.

Mário Lúcio diz-nos e mostra-nos tudo isso numa fileira de 16 composições, que contou com participações de músicos diversos (entenda-se também etnias sonoras múltiplas): o balafon de Ali Keita (Mali), o Bandonéon de Mariza Mercadet(Argentina), o baixo e contrabaixo de Thierry Fanfat(Guadalupe)… Do lado de cá estão os dedos de Chico Serra, Duka, Lela Violão, Houss…

Badyo é também uma redenção ao tempo: os mandingas, os papeis, os mandjacos, os povos e as gentes que vieram e aqui se fizeram badius. Quem se rende ao tempo, não esquece de lugares. E é assim que sentimos Goré como o porto da nossa pertença. Ontem, hoje e sempre. Assim quer a música do Mário Lúcio. O porto dos pretos, dos brancos e da mistura dos dois. Matrizes e matizes…

Pressente-se neste terceiro trabalho a solo de Mário Lúcio, o fim de um ciclo, com todo o subjectivismo que isto conota. Uma resposta qualquer de quem nos quer dizer que existem tempos, lugares, ritmos, vozes e sentimentos que fazem de todos nós Badyos do mundo.

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