Avançar para o conteúdo principal

Do Cabo-verdiano: ao seu acanhamento e orgulho...

mayra






















De vez em quando ponho-me a analisar o comportamento do público cabo-verdiano diante do sucesso e do desempenho dos artistas. Confesso mesmo algum desconforto, principalmente quando os artistas vêm do Brasil onde os fãs são expansivos e demonstram todo o carinho que têm pelo músico ou pela banda. Dir-se-ia faltar a festividade do público mesmo em festivais! Em relação aos músicos nacionais, fico mais complacente porque sabem o público que têm, apesar de imaginar que gostariam de ser mais acarinhados.

Não que isso não aconteça, mas numa proporção muito abaixo do desejável. A apatia não pára por aí. Reparem, por exemplo, que não temos um único fã clube no país e os nossos músicos não são recebidos nos aeroportos, passando desapercebidos até perante a imprensa. Apesar da nossa propalada morabeza, não somos muito dados a emoções efusivas e intensas, e os nossos artistas ressentem isso de alguma forma. Mas com isso, não se pretende dizer que o nosso público não sabe apreciar. Longe disso: compram os discos, ouvem as músicas, apreciam os artistas muito no seu círculo de boca pequena, mas ficam inibidos na hora de demonstrar.

Por outro lado, confesso também estranhar a elevada comoção que o cabo-verdiano consegue demonstrar perante o falecimento de um artista, o mesmo artista que em vida mereceu, em algum momento da sua carreira, alguma indiferença. Um paradoxo!

Não terá chegado a hora de revermos esse lado, para no dia em que esses artistas nos deixarem (como aconteceu com Pantera, Ildo Lobo e agora Biús) se misturarem o seu sorriso aos nossos, como de resto, apregoa Ferreira Gullar, (um dos maiores poetas vivos em Língua Portuguesa)? Sempre que me coloco entre a vida e a morte me valem as palavras desse poeta brasileiro, vivo, e muito celebrado no seu país. Seguimos-lhes o exemplo?!

Orgulho (Mayra)

Ainda não ouvi Stória Stória, o último disco de Mayra Andrade (foto), como gostaria. Em casa de amigos e pelo rádio tenho escutado intermitentemente algumas das suas canções. Nada que não venha fazer por esses dias que se aproximam de Setembro (o mês dos meus encantos), e quando ela tem agendado cinco shows no país. Por ora, tenho sentido pela artista um fino orgulho crioulo quando a oiço, como ontem aconteceu, numa entrevista impecável que concedeu à RFI, em que falava do seu disco, da sua concepção de world music, do toque brasileiro do CD Stória Stória, do percurso da música cabo-verdiana vis-à-vis suas raízes tradicionais... Fino orgulho quando um amigo da Reuters em NY telefona-me a dizer que ficou muito bem impressionado com a dimensão dessa jovem artista cabo-verdiana de 24 anos que acabara de entrevistar. Orgulho grande com o disco de Ouro que Stória Stória acaba de arrebatar em Portugal.

bom fim-de-semana

Comentários

Mensagens populares deste blogue

CODÉ DI DONA: 1940-2010

Codé di Dona tem um perfil de funaná que cativou a atenção da nação” disse Eutrópio Lima da Cruz em entrevista à TCV.

Todos são unânimes em considerar Codé di Dona (1940-2010) como uma das figuras incontornáveis do funaná, género musical outrora confinada à Ilha de Santiago, hoje com ressonância universal.

Compositor de músicas definitivas do repertório nacional, como “Febri Funaná”, “Fome 47”, “Praia Maria”, “Yota Barela”, “Rufon Baré” e “Pomba”, entre dezenas de outras, Codé di Dona emocionou os cabo-verdianos, ao longo de uma meteórica vida artística, com a singularidade das suas melodias e a poesia das suas letras. A composição “Fome 47”, só para citar um exemplo paradigmático, constitui uma imensa referência sobre uma das realidades históricas mais marcantes de Cabo Verde: a estiagem, a fome e a emigração para São Tomé e Príncipe. A imagem da partida do navio “Ana Mafalda” faz parte do imaginário colectivo dos cabo-verdianos, tanto que essa música é entoada, como um hino, pelos se…

HISTÓRIA, Dire Straits... uma dentre tantas outras da minha banda preferida

Com uma harmonia perfeita de guitarra, teclados, bateria e músicas originais o DIRE STRAITS coloca o seu nome na história como uma das maiores bandas de todos os tempos.
Tudo começa quando os irmão Mark e David Knopfler resolvem formar uma banda de rock um tanto diferente das demais (pois estavam na época da plenitude do punk rock). Até então MK já tinha tido outras experiências em outras bandas (na época de formação da banda MK era um professor de inglês) e DK era funcionario público. David(guitarra), Mark(guitarra e vocal), John Illsley(baixo) e Pick Withers(bateria) que se integraram ao grupo, formaram uma banda chamada Cafe Racers que mais tarde passou a se chamar DIRE STRAITS. Juntos fizeram uma demo que incluia um, até então, futuro sucesso do grupo "Sultans of Swing", mais tarde assinaram com o selo Vertigo e conheceram Ed Bicknell que seria o empresária da banda brevemente. Logo lançaram em 1977 o seu primeiro álbum que intulava-se com o nome do grande sucesso da ban…

Poema de amanhã

(...) - Mamãe!

Sonho que, um dia,
Estas leiras de terra que se estendem,
Quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
Filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
Serão nossas. (...) ilustração: Mãe preta de Lasar Segall, 1930 poema: Poema de amanhã de António Nunes, 1945