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A reinvenção funciona?











Porque é que uma nação se volta ao passado para reinventar um futuro? Quem fala em nações, poderia falar de uma pessoa, ou até de uma banda musical. Há dias, numa entrevista ao sociólogo José Carlos Gomes dos Anjos, este respondia que "todas as nações fazem isso", reinventam passados de acordo com os seus interesses em presença e projectam o futuro. A conversa girava em torno da Claridade. Porque é que a elite política/intelectual que elaborou as primeiras críticas contra a Claridade, vem hoje proceder à sua sacralização? Serão interesses estratégicos, políticos, e económicos, entre outros, a motivar certas posições...

Desse nicho a outro, assistimos, em outros moldes, a uma outra reinvenção: o regresso do grupo musical Livity. Lembremo-nos que nenhum livro ou brochura sobre a música de Cabo Verde, dos inícios dos anos 90 a esta parte, se furtou de uma referência, ainda que fugaz, a essa banda. Marcou uma época, pela experimentação (estilização, fusão rítmica, influências assumidas) e representação (a mobilidade de Jorge Neto no palco, por exemplo), sem descurarmos da procedência dos seus integrantes (jovens filhos de emigrantes, ou que emigraram muito novos para a Holanda).

Dentro da música, também caseira, sabemos do já anunciado regresso do grupo Bulimundo. Este conjunto marcou, durante quase uma década, a música de Cabo Verde. Recriou e projectou, graças à liderança inicial de Katchás, e de forma continuada, com todos os integrantes da banda, o Funaná (rapicado e lento) e o Batuque. Mais: contribuiu para que uma boa parcela da identidade musical das ilhas ganhasse notoriedade e firmasse o seu lugar na história cultural deste arquipélago.
Foram, sem dúvida, contribuições marcantes, e que devem permanecer na memória colectiva dos cabo-verdianos e no panteão da Cultura de Cabo Verde.
A questão é saber se existe uma dose acertada de reinvenção, ou seja: até que ponto, e de que forma se deve fazer uso das glórias do passado? Não estaria nessa reinvenção a própria anulação desse passado? Essa volta poderá ser interpretada como ausência de perspectiva?

As respostas não são consensuais, mas são, decerto, todas válidas. Incitando, no mínimo, à reflexão.

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