Avançar para o conteúdo principal

Isa, a nova Konfidente














Chamam particular atenção os artistas que com o seu trabalho tentam e conseguem atravessar as ilhas, pressentir a sua diversidade, e transmitir os diferentes “cheiros” que todo o aglomerar de gente porta em si. Não se trata de um axioma das artes, é certo, mas merece um olhar diferenciado quem a isso se propõe, e com apurado senso estético.

Kriola EnKantu (com K maiúscula), o primeiro CD de Isa Pereira fez esse caminho, como poucos, até porque o kantu dedicado às ilhas todas, incluiu Santa Luzia, a deserta e quase sempre esquecida dentre as demais. As brisas e as ondas dos mares de Santa Luzia podem agora ser “sentidas” em forma de música, num apelo da artista à preservação da flora e fauna da ilha.

Não falarei da qualidade musical (e artística) do disco sob os arranjos e direcção musical de Hernani Almeida, nem da conseguida maturidade de intérprete de Isa. São dados do disco.

A surpresa, diria, é a extrema generosidade da cantora que não teve receios em trazer para “a arena” num disco de estréia, compositores jovens como Djoy Amado e Lay Lobo, com Forsa de Djarfogu e Xintadu ta papia cu mar, respectivamente. A própria artista interpreta quatro composições suas, de elevado frescor e a passar longe dos rótulos, diga-se. Nha Konfidente(morna) e Konkista Rabeladu (batuco) são disso prova.

Isa Pereira fez um disco diferente, muito “sua cara”: seguiu o seu interior, a sua “cabeça”, os seus passos também (canta Bahia, Iemanjá); compilou sensações, ares, brisas, e brindou-nos com um disco crioulo, atlântico, fiel ao(s) tempo(s) nosso(s), e dos nossos.

Kriola EnKantu atravessa gerações, e não dispensa a experiência de músicos como Voginha e Zeca Couto, e inclui, no complexo e generoso conjunto, o lendário Sabe d’bera de Paulino Vieira.

De realçar, que Isa Pereira subiu num palco pela primeira vez em 1998. “Fui convidada pelo poeta Filinto Elísio para actuar no Summer Stravaganza, descobri, senti que era isso que eu queria – ser cantora” disse em entrevista ao A Semana.

nota

O disco foi apresentado, na semana passada, na Cidade Praia, à Imprensa, aos amigos e patrocinadores, e vai ser lançado no dia 24 no Auditório Nacional. Isa pretende fazer lançamento em todas as ilhas habitadas.

Comentários

Amílcar Tavares disse…
Olá Pura.

A sua crítica aguçou o meu apetite. Por isso aguardo, ansioso, o lançamento do CD em Portugal.
Pura eu disse…
Olá!
Uma ansiedade que será devidamente compensada.
sophia disse…
ola minha prima

É com orgulho que deixo aqui o meu beijo aguardando ansiosa o lançamento do cd aqui mais pertinho de mim!!!!Embarca nessa viagem de coração aberto, mereces tudo de bom...
com carinho...Sophia Brito

Mensagens populares deste blogue

CODÉ DI DONA: 1940-2010

“Codé di Dona tem um perfil de funaná que cativou a atenção da nação” disse Eutrópio Lima da Cruz em entrevista à TCV.

Todos são unânimes em considerar Codé di Dona (1940-2010) como uma das figuras incontornáveis do funaná, género musical outrora confinada à Ilha de Santiago, hoje com ressonância universal.

Compositor de músicas definitivas do repertório nacional, como “Febri Funaná”, “Fome 47”, “Praia Maria”, “Yota Barela”, “Rufon Baré” e “Pomba”, entre dezenas de outras, Codé di Dona emocionou os cabo-verdianos, ao longo de uma meteórica vida artística, com a singularidade das suas melodias e a poesia das suas letras. A composição “Fome 47”, só para citar um exemplo paradigmático, constitui uma imensa referência sobre uma das realidades históricas mais marcantes de Cabo Verde: a estiagem, a fome e a emigração para São Tomé e Príncipe. A imagem da partida do navio “Ana Mafalda” faz parte do imaginário colectivo dos cabo-verdianos, tanto que essa música é entoada, como um hino, pelos se…

HISTÓRIA, Dire Straits... uma dentre tantas outras da minha banda preferida

Com uma harmonia perfeita de guitarra, teclados, bateria e músicas originais o DIRE STRAITS coloca o seu nome na história como uma das maiores bandas de todos os tempos.
Tudo começa quando os irmão Mark e David Knopfler resolvem formar uma banda de rock um tanto diferente das demais (pois estavam na época da plenitude do punk rock). Até então MK já tinha tido outras experiências em outras bandas (na época de formação da banda MK era um professor de inglês) e DK era funcionario público. David(guitarra), Mark(guitarra e vocal), John Illsley(baixo) e Pick Withers(bateria) que se integraram ao grupo, formaram uma banda chamada Cafe Racers que mais tarde passou a se chamar DIRE STRAITS. Juntos fizeram uma demo que incluia um, até então, futuro sucesso do grupo "Sultans of Swing", mais tarde assinaram com o selo Vertigo e conheceram Ed Bicknell que seria o empresária da banda brevemente. Logo lançaram em 1977 o seu primeiro álbum que intulava-se com o nome do grande sucesso da ban…

Depois da Bandeira

1. SÃO LOURENÇO continua a ser um dos lugares mais agradáveis da Ilha do Fogo. O cemitério casado com a igreja e a casa paroquial; um lugar quase ermo, com a cara voltada para o mar, e um punhado de terra no ventre. Terra boa que d...eu bons filhos à ilha. Nesse cemitério, sob a imagem de uma pirâmide, mesmo à entrada, fica a campa do médico e escritor, Henrique Teixeira de Sousa, natural de Outrabanda, freguesia do Santo. Dois passos à frente descansa eternamente Padre Fidelis Miraglio, o eterno pároco de S.Lourenço e um dos primeiros Padres Capuchinhos italianos a pisar Cabo Verde. Na residência paroquial, mesmo ao lado, vive outro pastor de S.Francisco: Padre Camilo Torassa, italiano, filho de Cuneo, a viver entre Fogo, S.Vicente e Brava há mais de 50 anos: apesar do mal que lhe aflige os olhos e as pernas, a lucidez o acompanha. Éramos quatro adultos e uma criança, e fomos expressamente a São Lourenço para o visitar. Conversa vai, conversa vem, desafiou a um dos visitantes que co…