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O silêncio dos (não) inocentes

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Aconteceu na passada semana em Tripoli, capital da Líbia, uma Cimeira extraordinária da União Africana (UA) que “coincidiu” com a comemoração dos 40 anos da Revolução Líbia. O tema central do encontro incidiu sobre a questão dos conflitos em África, algo crucial para a União. Os países membros são unânimes em quererem ultrapassar a questão e assentar as energias no desenvolvimento do continente. Justíssimo e a questão é urgente!
Mas não terá sido essa a perspectiva de algumas agências noticiosas e de imprensa europeia. Estes centraram os seus olhares críticos sobre o presidente líbio Muahamar Kadhafi, também presidente em exercício da UA, e minimizaram a intervenção de Hugo Chavez, presidente da Venezuela, (foto) que sobre a questão deixou pistas interessantes para a convergência de blocos em prol de uma nova frente política credível e alternativa. Este anunciou o encontro de Caracas, em Setembro (26), sempre na linha do princípio da Cimeira de Tripoli, reiterando o convite a todos os Chefe de Estados africanos presentes no acto. Uma espécie de “aggionarmento” dos Não-Alinhados, bloco nascido depois da famosa Conferência de Bandung.
A própria comemoração dos 40 anos da Revolução Líbia aconteceu sob o signo da União. Uma simbologia bem conseguida que pode reforçar os ideais da UA e motivar os africanos para a “próxima etapa”, momento que o continente bem necessita.
Se fizermos um browsing pela Internet iremos encontrar em termos de notícia muito pouco esforço, pouca crença ou, então, os mesmos ataques, os mesmos exercícios de agendamento e de silenciamento a que já nos habituaram algumas agências noticiosas e alguma imprensa de grande alcance.
Não que venha aqui defender a Cimeira, até porque todos sabem quão inócuos são alguns encontros internacionais, inclusive os da ONU, por exemplo, sobre infindáveis assuntos, sejam relacionados com a África, sejam os com outras regiões do planeta. A situação dos conflitos em África ou noutras paragens não foge à regra.
Muhamar Kadhafi disse, por exemplo, que os conflitos em Darfur são sustentados por organizações israelitas com o apoio de França. No caso do Congo, sabe-se de empresas estrangeiras que exploram os minerais e alimentam conflitos, porque percebem que enquanto isso enriquecem à custa da miséria e da morte das populações. A tragédia consegue ser um grande negócio. Mas, perante tais acusações feitas de forma directa e à cara das centenas estadistas e jornalistas, provoca enorme melindre o silenciamento e/ou a reacção desviada. Estranha atitude a dos media a permitirem que assaz acusação descaia para a “normalidade”...
É que, no fundo, como mostrou o realizador belga Renzo Martens em Enjoy Poverty, alguns interesses instalados não estão interessados no fim dos conflitos em África. Para Martens, os fotógrafos não teriam barrigas desnutridas para fotografar, as televisões não teriam assuntos para directos, as organizações humanitárias perderiam as suas causas. Sobretudo, o Ocidente não criaria o muro que o separa do Inferno, criado, em parte, pela sua ferocidade imperial. O status quo interessa. É o silêncio dos (não) inocentes. Ademais, é muito, mas muito mais, excitante continuar a atacar Kadhafi, Chávez, Fidel, Mugabe, e, com isso, prolongar os modelos, as perspectivas, e os olhares dominantes. Até quando?

nota pura: a autora do blog acompanhou a Cimeira de Trípoli

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