Avançar para o conteúdo principal

A escravatura, o jornalismo e o abismo

tempo















Ao longo dos cinco anos deste blog a escravatura tem sido um tema recorrente. Desde logo pelo peso histórico que a Cidade Velha teve na afirmação do tráfico de escravos, e do papel incontornável que desempenhou nesse comércio transatlântico. Mas a maioria dos textos que aqui escrevíamos fazia referência à não existência no país de um Comité de Rota de Escravos. O projecto da UNESCO sobre a Rota de Escravos nasceu em 2004 no Benin com o intuito de promover estudos e pesquisas sobre tal tragédia humana com vista a potenciar ao nível turístico, académico e outros os sítios que foram palcos da subtração, passagem, ou chegada dos escravos. A ideia de fundo passava pelo fim das lamentações, e pelo inaugurar de uma nova forma de se lidar com esse episódio horrendo da história que epicamente deu novos mundos ao mundo. Todos os países com passado escravocrata, mormente aqueles que ainda precisam de ajudas de terceiros para levar adiante os seus projectos, aderiram ao projecto Rota de Escravos criando os seus Comités nacionais. Paradoxalmente, Cabo Verde é uma excepção. Inclusive trabalhos esparsos nessa matéria foram produzidos por historiadores nacionais, mas no âmbito do Comité Português.

Estranhamente só agora, 15 anos passados, e depois de participar numa reunião sobre a escravatura na Guiné Equatorial, vem o presidente do INIPC (Instituto de Investigação e Promoção Culturais) que será eventualmente a primeira entidade responsável por essa matéria, falar da importância deste projecto e da necessidade de se recuperar o tempo perdido. De recordar que há mais tempo Cidade Velha poderia ser considerada Património da Humanidade, com mais sustentabilidade e de forma mais conseqüente, principalmente aos olhos de quem hoje a vê. É que o reconhecimento da história passa por encarar o presente.

Do jornalismo ao abismo

1. Pergunta – Em que medida a internet contribui para o jornalismo?

Daniel Jean director da `Nouvel Observateur`– Para os jornalistas, a internet traz o gosto pela velocidade. A possibilidade de qualquer pessoa responder a qualquer pessoa. Ou o fato de que todo mundo possa ser jornalista e, nesse caso, que os próprios jornalistas deixem de acreditar neles mesmos, porque são questionados a todo momento. Está se produzindo um descrédito na função do jornalista.
Daniel Jean falava a respeito do seu ultimo livro ´Com Camus – Como aprender a resistir´ (assunto para um post qualquer dia destes)

2. “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para nós”. (Nietzsche)

Comentários

Tchale Figueira disse…
INIPC é uma FATA MORGANA, palavra em alemão que gosto e quer dizer Miragem. Se dormimos na forma é culpa de alguns, mas da responsibilidade de todos. O poder economico dos Judeus faz com que o Holocausto esteja sempre presente.Não temos este poder, mas temos inteligencia suficiente, infelizmente, canalizado em frivolididades, em vez de irmos mais a fundo sobre a tragédia Africana da escravatura. Oxalá um dia.
Tchalê
Anónimo disse…
Estão ali dois temas interessantes para se explorar (ou simplesmente para se reflectir sobre)

Mensagens populares deste blogue

CODÉ DI DONA: 1940-2010

Codé di Dona tem um perfil de funaná que cativou a atenção da nação” disse Eutrópio Lima da Cruz em entrevista à TCV.

Todos são unânimes em considerar Codé di Dona (1940-2010) como uma das figuras incontornáveis do funaná, género musical outrora confinada à Ilha de Santiago, hoje com ressonância universal.

Compositor de músicas definitivas do repertório nacional, como “Febri Funaná”, “Fome 47”, “Praia Maria”, “Yota Barela”, “Rufon Baré” e “Pomba”, entre dezenas de outras, Codé di Dona emocionou os cabo-verdianos, ao longo de uma meteórica vida artística, com a singularidade das suas melodias e a poesia das suas letras. A composição “Fome 47”, só para citar um exemplo paradigmático, constitui uma imensa referência sobre uma das realidades históricas mais marcantes de Cabo Verde: a estiagem, a fome e a emigração para São Tomé e Príncipe. A imagem da partida do navio “Ana Mafalda” faz parte do imaginário colectivo dos cabo-verdianos, tanto que essa música é entoada, como um hino, pelos se…

HISTÓRIA, Dire Straits... uma dentre tantas outras da minha banda preferida

Com uma harmonia perfeita de guitarra, teclados, bateria e músicas originais o DIRE STRAITS coloca o seu nome na história como uma das maiores bandas de todos os tempos.
Tudo começa quando os irmão Mark e David Knopfler resolvem formar uma banda de rock um tanto diferente das demais (pois estavam na época da plenitude do punk rock). Até então MK já tinha tido outras experiências em outras bandas (na época de formação da banda MK era um professor de inglês) e DK era funcionario público. David(guitarra), Mark(guitarra e vocal), John Illsley(baixo) e Pick Withers(bateria) que se integraram ao grupo, formaram uma banda chamada Cafe Racers que mais tarde passou a se chamar DIRE STRAITS. Juntos fizeram uma demo que incluia um, até então, futuro sucesso do grupo "Sultans of Swing", mais tarde assinaram com o selo Vertigo e conheceram Ed Bicknell que seria o empresária da banda brevemente. Logo lançaram em 1977 o seu primeiro álbum que intulava-se com o nome do grande sucesso da ban…

Depois da Bandeira

1. SÃO LOURENÇO continua a ser um dos lugares mais agradáveis da Ilha do Fogo. O cemitério casado com a igreja e a casa paroquial; um lugar quase ermo, com a cara voltada para o mar, e um punhado de terra no ventre. Terra boa que d...eu bons filhos à ilha. Nesse cemitério, sob a imagem de uma pirâmide, mesmo à entrada, fica a campa do médico e escritor, Henrique Teixeira de Sousa, natural de Outrabanda, freguesia do Santo. Dois passos à frente descansa eternamente Padre Fidelis Miraglio, o eterno pároco de S.Lourenço e um dos primeiros Padres Capuchinhos italianos a pisar Cabo Verde. Na residência paroquial, mesmo ao lado, vive outro pastor de S.Francisco: Padre Camilo Torassa, italiano, filho de Cuneo, a viver entre Fogo, S.Vicente e Brava há mais de 50 anos: apesar do mal que lhe aflige os olhos e as pernas, a lucidez o acompanha. Éramos quatro adultos e uma criança, e fomos expressamente a São Lourenço para o visitar. Conversa vai, conversa vem, desafiou a um dos visitantes que co…