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O crioulo, o português, e os dois juntos (porque não?)

crioulos

















A oficialização da língua cabo-verdiana – comummente denominada Crioulo – em paridade com a portuguesa, é daqueles debates nossos que passam de caravana (entenda-se geração) em caravana, com a condição, dir-se-ia, de nunca ter um desenlace (chegar ao destino). As tais temáticas da cabo-verdianidade que existem para isso mesmo: testar a nossa resistência afro-atlântica, se é que me entendem.

Em todo o caso, assumindo um pouco a esterilidade do frissom, pela forma como este debate (alipekiano) começou, aproveito a oportunidade de dar a conhecer a posição de um dos escritores mais nomeados do país sobre a matéria. Na última edição da revista África 21, Germano Almeida, na sua crónica, escreveu o seguinte:

“… se me fosse permitido um conselho aos jovens do meu país, dir-lhes-ia: usem a língua portuguesa! Estudem, leiam, escrevam, falem em português o quanto vos for possível, porque a língua portuguesa é a língua do poder! Apropriem-se dela, habituem-se a verbalizá-la, a brincar com ela, a brigar com ela, a insultar, a rir e, se possível, a namorar com ela, com a mesma facilidade com que tagarelam o crioulo. Observem e reparem que todos aqueles que nos empurram para o crioulo como primeira opção têm pelo menos duas principais, muito faz pensar que simplesmente desejam afastar concorrentes aos lugares de apetite, cada vez mais escassos na nossa terra.
Não se deixam enganar por esse nacionalismo de vida curta, ao longo dos séculos temos vindo a escrever acerca da nossa cultura e da nossa identidade usando a língua portuguesa, e todos os cabo-verdianos se reconhecem nesses textos. Chiquinho foi escrito em português, mas nós sentimos que jamais poderia ter sido escrito por um português. Acautelem-se, pois aceitar que vos condenem ao crioulo é aceitar serem condenados à subalternidade.”

Os negritos são nossos…

fotu: jan dirkx

Comentários

Anónimo disse…
oi.
não é por acaso que essse artigo do germano almeida foi retomado no programa "língua de todos" dos lusófonos de serviço, aliás, muito felizes pela nãso oficialização plena do crioulo.
SÓ QUE LEVARAM UMA BELÍSSIMA LIÇÃO DA LINGUISTA PORTUGUESA DULCE PEREIRA.
sÃO CONHECIDÍSSIMAS AS POSIÇÕES DIGLÓTICAS E DE SUBALTERNAZINAÇÃO DO CRIOULO DO GERMANO ALMEIDA. QUEM QUISER PODE CONSULTAR A SUA ENTREVISTA AO MICHEL LABAN NO LIVRO "CABO VERDE -ENCONTRO COM ESCRITORES, VOLUME 2".
ABRAÇOS
Et disse…
Informação:
A Doutora em Linguística Dulce Pereira vai estar no "Campus" Universitário de Palmarejo na sexta-feira 19, à tarde, para falar sobre o nosso Crioulo...
Pura eu disse…
Oi.
Obrigada pela sugestão
Abraços.

Et.Boa informação.

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