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O peso das datas... lá e cá

Basquiat



















1. Nelson Mandela é figura mundial incontornável e não há quem se oponha a esse dado. Ele lutou, pela via da cidadania e da dignidade humana, contra o apartheid na África do Sul, o que veio contribuir para a construção de um mundo mais justo e equilibrado. Mas a saída da prisão de Mandela e a própria luta armada contra o apartheid, passando pela actuação política do ANC, parecem não ser suficientes. Há quem opte por celebrar como data simbólica o 2 de Fevereiro, o dia em que Frederik de Klerk anunciou, perante parlamento sul-africano, a legalização de um partido negro e a libertação de Nelson Mandela, depois de 27 anos no cativeiro. Este é apenas um ponto de partida e um esforço de chegada…

2. Liguei a situação acima aos recentes barulhos que se têm registado à volta da abertura política em Cabo Verde. O PAICV, depois de largos anos em silêncio sobre esse período, eis que 20 anos depois decide eleger o 19 de Fevereiro, o dia da declaração da abertura ao multipartidarismo, permitindo assim a emergência de novos partidos. Ao celebrar esta data, este ano, o PAICV fá-lo quase que na tentativa de esvaziar o peso simbólico do 13 de Janeiro, efeméride que, em abono da verdade, esse partido nunca assumiu nas suas múltiplas vertentes.

Para confirmar o peso de 19 de Fevereiro, o PAICV referiu-se aos acontecimentos seguintes como a revisão constitucional de Setembro de 1990, a aprovação da lei dos Partidos Políticos e as primeiras eleições a 13 de Janeiro. Ou seja, actos consequentes.

O que falta dizer nessa história toda, sem arrogar a pertença das datas a esta ou aquela força político-partidária, é que as datas para serem celebradas devem ser sentidas, devem mexer com o nosso sangue, alterar as forças todas, fazer-nos sorrir ou chorar, gritar ou berrar, se for o caso. Anúncios frios, quedas constitucionais ou aprovações legislativas não provocam esse frisson.

À guisa de conclusão, diria que a tentativa de esvaziamento de uma data simbólica em detrimento de outra é um acto estéril… o que se deve é trabalhar para que todas as datas importantes para o percurso deste país, sejam lembradas com sentido de pertença, e com rigor de estado (no sentido neutro do termo).

Comentários

Anónimo disse…
Estás de parabéns pela forma lucida, desapaixonada e objectiva como escreves. Isso sim é jornalismo a sério e de qualidade.
Pura eu disse…
Obrigada.

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