
1. Creio ter já escrito neste blog o meu fascínio pelas tardes. Não propriamente todas, mas principalmente aquelas que me fazem recordar aquele momento único, o entardecer em S. Filipe. A tarde que me pressentia entre a serenidade e a traquinice, entre a tristeza e a alegria. Curiosamente, nunca mais a senti igual. Mas prossigo na busca dessa leveza de outrora. Com esperança…
2. Sou uma mulher de poucos amores (devo ter dito uma blasfémia, mas é a pura verdade). Uma das pessoas que amo de coração completou esta semana 104 anos. Ela é minha madrinha, provavelmente a mulher mais velha de S. Filipe. Um monumento da Cidade. Felismina Mendes é o nome dessa madre, mais conhecida por Nha Filó, a dona de todas as estórias. É ainda lúcida. Mas lembra de cor algumas estórias, que de tanto repeti-las, podem nos induzir ao erro. É do encanto, apenas. A proeza de ter cruzado décadas feitas de tudo.
Ela cultiva uma relação especial com a televisão. As telenovelas, os filmes, o noticiário encantam-na. Nutre uma saudade eterna, pelas estórias que conta, do Dr. Teixeira de Sousa, um amigo e grande médico que também escreveu romances, que ela nunca leu.
Nha Filó é um arquivo vivo, basta consultar. Uma senhora alegre, que nunca teve filhos, mas cresceu com crianças à volta. Hoje, continua assim. Entram pela meia-porta, pedem água, assistem à TV, e depois se despendem. Tê manha nha Filó.
Foi conhecer a América só na década de 80, porque não quis ir antes. Muitos antes, na década de 50, quando o seu pai comprou Ernestina, o barco que cruzava o atlântico com cabo-verdianos rumo à América. O pai, Henrique Mendes e o irmão, Arnaldo Mendes, eram partes da tripulação, e desse manancial de vida, Nha Filó guarda pérolas memoráveis.
Felismina Mendes sempre permaneceu em S.Filipe à espera das estórias que chegavam para depois partirem. E continua lá, à espera do tempo…
Comentários
Estas são apenas pinceladas da vida de uma grande senhora.
Por falar em Entardecer em São Filipe, ver o dia a morrer lá do presídio tocou-me de tal maneira que acabei fazendo uma música chamada Bila, dedicada àquela Cidade.
Força.
Mantenhas,
Alvaro Ludgero Andrade
Não fazia ideia que o pai da Nha Filó foi proprietário do Ernestina:) Ela é um bom exemplo de muitos "arquivos vivos" que temos em São Filipe e que devem, por isso, ser eternizados em livros.
Beijos
Katy
Agora deixaste-me arrepiado de verdade. Sabes, tenho um fascínio especial pelo Fogo, já tive a oportunidade de visitar quase todos os seus povoados. Mas tenho igualmente um fascínio que não sei bem de onde veio, confesso, por tudo o que se relaciona com "Ernestina", já devorei quase todo o seu site institucional, que conheci através do blog da Carla Amante, e até hoje gosto de saber de histórias relacionadas. Saber que a filha do dono ainda está lá em São Filipe deixou-me sinceramente emocionado. Da próxima vez que for àquela ilha, vou "cobrar-te" que me faças a ponte com Nhá Felismina, gostaria muito de conhecê-la.
Abraço,
Paulino
Pois é Katy, a Nha Filó é filha do Nhô Henrique. A nossa ilha é um canteiro de "arquivos vivos". É só pisar as festas das bandeiras, e dar de caras com aqueles tamboreiros e coladeiras, rebentos de várias gerações. Tenho um carinho especial em relação a tudo isso, e algumas ideias...
Paulino, é de arrepiar realmente. Quando fores ao Fogo, deixa-me saber, que te faço a ponte com a ti Filó. De arrepiar mesmo são as suas estórias...
Beijos a todos.
Sabes, fiquei com vontade de conhecer este entardecer em São Filipe... Sei que as tardes na Colina do Amparo (na minha cidade natal) e nas praias do Porto da Barra e do Bugari (aqui em Salvador) são lindas (pelo meno, pra mim). Mas como será em São Filipe? Com certeza é poema que eu não conheço. Quanto a sua madrinha, qual tal escrever um livro-reportagem (ou um vídeo) sobre ela? Pessoas como ela devem ser preservadas para sempre...
Beijos
Ricardo Vidal