Avançar para o conteúdo principal

Luís Romano e os famintos de Cabo Verde

famintos




















“Finalmente os pedintes ergueram-se e enfiaram-se pelas ruas do Povoado. O número de pessoas aos lamentos era enorme. Como massa escura, a leva espalhava-se pelas vielas, a mendigar pelos portões. Os cães latiam enervados. Nas janelas, atrás dos resposteiros, as donas olhavam, cheias de pena. Depois, escondiam-se nos quartos, por causa dos ruídos, e faziam paninhos de renda para serviços de chá.

Ao pé do Pelourinho, quem passasse nem já olhava por alguns corpos que vieram até lá render o último suspiro. As cenas repetiam-se constantemente e quase ninguém fazia caso; os cadáveres parte do empedrado onde tombaram.

No entanto, os sinos tocavam ave-maria, os senhores descobriam-se, faziam o sinal da cruz, enquanto os comerciantes fechavam as portas, seguravam as trancas. Da rua ouvia-se o telintar das moedas nas gavetas dos balcões e o reflexo da luz, dentro das lojas, fugia pelas frinchas das portas ou passando pelas gretas das fechaduras.

No Adro da Sé os sem-nome abrigavam-se às dezenas, unidos, aquecendo-se uns aos outros e a gemer de quando em quando. A miudagem dormia encolhendo os ombros debaixo do corpo dos mais velhos. Os piolhos passavam de um ponto para o outro, as pulgas sugavam o pouco de energia que ainda restava e as pulguinhas que deformam os pés, enchiam os dedos de casulos brancos, a desenvolver cavernas, atrofiando a marcha dos maltrapilhos.

E dentro da Sé a quietude impressionava. Nos nichos, nas redomas, nos andores, as imagens de santos contemplavam o vazio com olhos cheios de bondade.

Na rua, contra a porta, a cacimba atormentando os desamparados.”

Trechos de “Famintos”, um livro referência: um retrato documental, jornalístico (se se quiser), umas vezes lírico, outras subjectivamente narrado, deixado por Luís Romano… (1922 - 2010)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

CODÉ DI DONA: 1940-2010

Codé di Dona tem um perfil de funaná que cativou a atenção da nação” disse Eutrópio Lima da Cruz em entrevista à TCV.

Todos são unânimes em considerar Codé di Dona (1940-2010) como uma das figuras incontornáveis do funaná, género musical outrora confinada à Ilha de Santiago, hoje com ressonância universal.

Compositor de músicas definitivas do repertório nacional, como “Febri Funaná”, “Fome 47”, “Praia Maria”, “Yota Barela”, “Rufon Baré” e “Pomba”, entre dezenas de outras, Codé di Dona emocionou os cabo-verdianos, ao longo de uma meteórica vida artística, com a singularidade das suas melodias e a poesia das suas letras. A composição “Fome 47”, só para citar um exemplo paradigmático, constitui uma imensa referência sobre uma das realidades históricas mais marcantes de Cabo Verde: a estiagem, a fome e a emigração para São Tomé e Príncipe. A imagem da partida do navio “Ana Mafalda” faz parte do imaginário colectivo dos cabo-verdianos, tanto que essa música é entoada, como um hino, pelos se…

HISTÓRIA, Dire Straits... uma dentre tantas outras da minha banda preferida

Com uma harmonia perfeita de guitarra, teclados, bateria e músicas originais o DIRE STRAITS coloca o seu nome na história como uma das maiores bandas de todos os tempos.
Tudo começa quando os irmão Mark e David Knopfler resolvem formar uma banda de rock um tanto diferente das demais (pois estavam na época da plenitude do punk rock). Até então MK já tinha tido outras experiências em outras bandas (na época de formação da banda MK era um professor de inglês) e DK era funcionario público. David(guitarra), Mark(guitarra e vocal), John Illsley(baixo) e Pick Withers(bateria) que se integraram ao grupo, formaram uma banda chamada Cafe Racers que mais tarde passou a se chamar DIRE STRAITS. Juntos fizeram uma demo que incluia um, até então, futuro sucesso do grupo "Sultans of Swing", mais tarde assinaram com o selo Vertigo e conheceram Ed Bicknell que seria o empresária da banda brevemente. Logo lançaram em 1977 o seu primeiro álbum que intulava-se com o nome do grande sucesso da ban…

Poema de amanhã

(...) - Mamãe!

Sonho que, um dia,
Estas leiras de terra que se estendem,
Quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
Filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
Serão nossas. (...) ilustração: Mãe preta de Lasar Segall, 1930 poema: Poema de amanhã de António Nunes, 1945