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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2010

O aulido do tempo

O azul é também uma forma de mágoa
que embota nosso silente acordar. Soluço
erguido lá no alto, porejando o céu ruço,
à nossa fé lograremos submetê-lo, à tábua

da nossa imperfeita lei? Que nos lembre,
sem amargura, que saber sofrer é um dom,
que o passado com seu´scuro álgido som
do virente futuro léguas segue sempre

à frente. Onde mora o prevenido não
há lugar para a inquietação; mas o tempo,
que é válido, ergue-se já num silencioso

aulido. Terá aquilo que se chama vocação?
Chegará como um gentleman em seu lento
Afã? Embotado pelo azul, predizer não ouso.

in: "Cidade do mais antigo nome", obra de José Luiz Tavares (poema) e Duarte Belo (foto), lançada ontem na Cidade Velha.

Flashes: PAI, MPD e Delano

1. Terminou, ontem, o 12º Congresso do PAICV sob o signo “Vamos continuar juntos”, cabo-verdianos e cabo-verdianas de todas as ilhas de Cabo Verde, do arquipélago ao mundo. Esta é obviamente uma re (apropriação) minha, depois de ter ouvido os longos discursos de José Maria Neves, durante os três dias que decorreram o evento. Do meu ponto de vista, foi um congresso bem organizado, animado, com muita emoção, e muitas palavras de afecto. Isso é bom também.

2. Não sei se se percebe, mas Carlos Veiga já está no terreno (literalmente). Há dias, pelos bairros da Capital, hoje, na Ilha do Fogo… e assim por diante. Esta estratégia terra-a-terra e sol-a-sol deu certo para Ulisses Correia e Silva na Capital, lembram-se? É a tal proximidade que ainda conta muito para as cabo-verdianas e os cabo-verdianos destas ilhas atlânticas.

3. As pessoas que conhecem o meu trabalho sabem que como jornalista me interesso muito por notícias/histórias do passado, e pelas glórias do presente (um particular gozo pe…

Luís Romano e os famintos de Cabo Verde

“Finalmente os pedintes ergueram-se e enfiaram-se pelas ruas do Povoado. O número de pessoas aos lamentos era enorme. Como massa escura, a leva espalhava-se pelas vielas, a mendigar pelos portões. Os cães latiam enervados. Nas janelas, atrás dos resposteiros, as donas olhavam, cheias de pena. Depois, escondiam-se nos quartos, por causa dos ruídos, e faziam paninhos de renda para serviços de chá.

Ao pé do Pelourinho, quem passasse nem já olhava por alguns corpos que vieram até lá render o último suspiro. As cenas repetiam-se constantemente e quase ninguém fazia caso; os cadáveres parte do empedrado onde tombaram.

No entanto, os sinos tocavam ave-maria, os senhores descobriam-se, faziam o sinal da cruz, enquanto os comerciantes fechavam as portas, seguravam as trancas. Da rua ouvia-se o telintar das moedas nas gavetas dos balcões e o reflexo da luz, dentro das lojas, fugia pelas frinchas das portas ou passando pelas gretas das fechaduras.

No Adro da Sé os sem-nome abrigavam-se às dezenas, …

Morreu o autor de "Famintos"

Navio-berço de menino crioulo,
navio-guia que ficou sem ir
“navio idêntico ao navio da nossa derrota parada”, assim escreveu Luís Romano, em 1963, no poema "Clima".

Na colectânea “Reino de Caliban I”, Manuel Ferreira enquadra Luís Romano na lista dos Poetas das Sete Partidas. Poetas que começaram a ser nómadas e um dia encontraram poiso longe das ilhas, mas apenas fisicamente. Poetas que continuaram a beber da seiva crioula…O escritor e ensaísta Luís Romano faleceu, ontem, no Brasil, Rio Grande do Norte, (onde vivia há 48 anos) vítima de doença prolongada.

Romano foi desde cedo um intelectual militante que inspirou futuros integrantes da gesta libertadora que conduziu à independência nacional. Com a sua produção literária ultrapassou o “terra longismo” e o telurismo característico dos claridosos, para ser um dos escritores que com mais profundidade abordou o drama social e ambiental do arquipélago:

O seu livro “Famintos” constitui uma das maiores denúncias contra a situação dra…

Deixou-nos há três anos

Em memória a este grande homem, o Padre Gesualdo, que faleceu há precisamente três anos, hoje recordamos (Os momentos cita Liberal) as suas palavras em resposta às perguntas de José J. Cabral e António Silva Roque, em Agosto de 2004, um dia após a cessação de funções. Esta entrevista foi radiodifundida no programa “Vidas com História", da Rádio de Cabo Verde.

O protagonismo da emigração para a Itália, Padre Gesualdo é uma das referências da memória colectiva da ilha de São Nicolau. Figura discreta e humilde, é considerado pioneiro e promotor da formação profissional na ilha, ainda na época colonial, altura em que nem sequer havia planos ou orçamentos nesse domínio; É sobre o seu percurso invulgar, que Padre Gesualdo fala com a lucidez que se lhe reconhece, na primeira pessoa, um acto que pela humildade se tem esquivado a praticar…

Abriu todavia este parêntesis, para nos falar do caminho por ele percorrido, desde Fiuggi, Frisinone na Itália, até Tarrafal de São Nicolau em Cabo Verde…

Algo profundo...

... Amar é qualquer coisa de mais grave e significativo do que o entusiasmo pelas linhas de um rosto e a cor de uma face; é decidirmo-nos por um certo tipo de ser humano que é simbolicamente anunciado nos pormenores do rosto, da voz e dos gestos.

O amor é uma escolha profunda.

José Ortega y Gasset

O Haiti e (o estado das coisas)

“Inferno é o que resta para os sobreviventes do sismo no Haiti”: ouvi algo semelhante de José Alberto Carvalho que comandava uma cobertura exemplar da RTP sobre a tragédia no Haiti. A comunidade internacional, as potências mundiais, os homens de boa vontade têm a oportunidade de provar que somos todos seres humanos e iguais perante os céus.

O embaixador do Haiti nos Estados Unidos chorou na CNN quando pedia ajuda para o seu país. Uma catástrofe indescritível que nos abala no âmago.

Jornalista agredido

O jornalista da TCV, António Gomes, foi ontem agredido e humilhado por um Inspector da Polícia Judiciária. Tudo aconteceu no meio da manhã, quando o jornalista tentava ouvir a versão da PJ, na sequência de uma manifestação organizada pelos familiares de um dos jovens assassinados por thugs na semana passada em Achada Grande.

As imagens do “vexame” foram emitidas na íntegra no Jornal da Noite da TCV de ontem, onde via-se que, além da humilhação ao jornalista, o tal agente escorraçava o grupo …

Vadú

O jovem compositor e intérprete Vadú (1977- 2010) era um promissor músico da nova geração.

Numa hora em que o país ainda chora a morte de “Codé di Dona”, os cabo-verdianos acordaram inconsoláveis com a triste nova do desaparecimento do autor de “Preta”.

A trajectória artística de Vadú ficou marcada por três álbuns, nomeadamente Ayan (obra colectiva de 2001), Nha Raiz (2005) e Dixi Rubera (2007), para além de inumeráveis e surpreendentes espectáculos em Cabo Verde e no estrangeiro. Vadú era considerado um nome promissor da música contemporânea de Cabo Verde, e fazia parte do rol de talentos da denominada Geração Pantera.

Tinha uma característica peculiar e eclética, introduzindo rudimentos do jazz e alternantes no mais tradicional da música crioula. Trouxera de Cuba, onde estudou, o gosto pela viagem inter-rítmica.

Era, por um lado, fundamentalista nas suas raízes do Batuco, Funaná e Tabanka. Por outro lado, aberto aos sons múltiplos da “world music”, sem se descurar doutros mil tons das c…

Hwo Cares?

O post anterior mereceu comentários muito relevantes de João Branco, da Caps e Edy: pistas que me parecem pertinentes para o debate ou reflexão. Dai o seu reaproveitamento parcial.

1. O fenómeno da violência urbana não tem incidência apenas na Praia. O quadro actual do que estamos vivendo no Mindelo é MUITO preocupante. (João Branco)

2. Um sociólogo cabo-verdiano terá dito em tempos que: (dito nosso)
-Nós somos uma sociedade violenta na forma de estar, e não é de hoje. O que mudou foi a forma como essa violência é praticada; ... expressões do tipo "Uipo!!" e outras que mais não significam que o impacto físico. (da Caps)

3. O problema, que não é o nosso, é que algumas instituições estão a "falhar" na sua tarefa de socialização das crianças e dos jovens: a escola e a família (alguns sociólogos defendem até que a escola deixou de ser uma instituição). (Edy)

Who`s Guilt?

2010 já vai no seu sétimo dia, e a capital cabo-verdiana já testemunhou dois assassinatos: o primeiro, ocorrido no passado dia 5, no bar "Voz di Povo", e o segundo caso que teve lugar ontem à noite, em Safende, vitimando um taxista.

Esta manhã, na apresentação de cumprimentos de Ano Novo ao Presidente da República, José Maria Neves disse que “um dos grandes desafios de Cabo Verde, neste momento, tem a ver com a delinquência juvenil e os níveis de violência e de criminalidade resultantes das actuações dos grupos organizados de jovens thugs”.

Na Praia, não se fala em outro assunto: alguma impotência nota-se. O Governo não tem conseguido travar o rumo das coisas. Os muitos discursos e encontros organizados à volta da questão da criminalidade e da violência (inclusive a doméstica) ficam pela cosmética, porque nunca transitam ao plano seguinte: o da acção.

O fenómeno (a complexidade)

Este fenómeno da criminalidade juvenil é transversal à classe social. É um quadro urbano nacional, co…

CODÉ DI DONA: 1940-2010

Codé di Dona tem um perfil de funaná que cativou a atenção da nação” disse Eutrópio Lima da Cruz em entrevista à TCV.

Todos são unânimes em considerar Codé di Dona (1940-2010) como uma das figuras incontornáveis do funaná, género musical outrora confinada à Ilha de Santiago, hoje com ressonância universal.

Compositor de músicas definitivas do repertório nacional, como “Febri Funaná”, “Fome 47”, “Praia Maria”, “Yota Barela”, “Rufon Baré” e “Pomba”, entre dezenas de outras, Codé di Dona emocionou os cabo-verdianos, ao longo de uma meteórica vida artística, com a singularidade das suas melodias e a poesia das suas letras. A composição “Fome 47”, só para citar um exemplo paradigmático, constitui uma imensa referência sobre uma das realidades históricas mais marcantes de Cabo Verde: a estiagem, a fome e a emigração para São Tomé e Príncipe. A imagem da partida do navio “Ana Mafalda” faz parte do imaginário colectivo dos cabo-verdianos, tanto que essa música é entoada, como um hino, pelos se…