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Jornalismo vs culto de personalidade

Cult of personality

















Esperei para ver em algum jornal on-line, impresso, ou outro fórum qualquer, uma reacção da Universidade Jean Piaget à carta da Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente endereçada ao Conselho de Administração da RTC (alguns trechos foram publicados no A Semana on-line): as questões da forma como foram colocadas são por si só subsídios para fundas abordagens sobre o “hábito jornalístico nas ilhas” e, sobretudo, a visão enviesada que alguma classe política cabo-verdiana tem desse metiér. A Universidade Jean Piaget, como a única instituição que se dedica ao ensino do jornalismo neste país, tem por obrigação encarar este desafio. Personalidades como Isaura Gomes estão tão mal habituadas, a ponto de começarem a exigir, sem pejo algum, tratamentos “jornalísticos” especiais, enquanto autoridades. Diante disso, faço o meu legítimo exercício nas alíneas seguintes:

1. As reuniões ordinárias das Câmaras Municipais não merecem ser elevadas à categoria de notícia, porque fazem parte da rotina da equipa camarária que, a priori, sabe-se, foram eleitas também para tomar decisões. Uma cobertura transforma-se num servilismo (que se convencionou tomar por um direito adquirido) para mostrar o quanto trabalham os eleitos municipais.

2. As reuniões de Conselho de Ministros, salvo em raríssimas excepções, alinham-se na mesma normalidade da primeira, por isso, mostrar todas as quintas-feiras os tantos decretos e projectos de lei aprovados e apreciados pelo Governo só serve para cansar os telespectadores e reduzir à completa nulidade o trabalho jornalístico.

3. Nada mais desinteressante do que um ministro, autarca, director-geral, ou presidente de instituto de regresso ao país, que resolve dar uma conferência de imprensa para falar dos encontros, ganhos e acordos efectuados no exterior. E o jornalista que não esteve presente terá ou não motivos para duvidar desses relatos!?

4. Assinatura de acordos, não importa os domínios, é outro assunto que deveria passar ao largo. A quem, a quantos, e de que forma interessa assistir ou ler sobre a assinatura de um acordo para a obtenção de recursos que visam isso ou aquilo?

5. A título de exemplo, a visita de Catarina Furtado a Cabo Verde não é assunto para cobertura jornalística. E a sua apreciação sobre o nosso Programa de Saúde Reprodutiva, seguida da declaração de que “em Cabo Verde estamos melhores” não deveria merecer qualquer destaque jornalístico, por razões óbvias.

6. Todos sabem que a Senhora Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente é a autoridade máxima da ilha, mas "exigir" aos jornalistas que não dêem voz off nas peças em que participa, e dispensar atenção especial à sua pessoa, em detrimento dos “inferiores hierárquicos” da ilha é, sem dúvida, das reivindicações mais alucinantes e inadequadas que uma autoridade conseguiu colocar em forma de carta. É caso para perguntar, nestas paragens, quem anda a dar as cartas no jornalismo?!

Comentários

da caps disse…
Em relação ao ponto (2),
O próprio parlamento cria canais de televisão em muitos países para que as pessoas interessadas puderem acompanhar.
E,.. há um documento chamado Boletim Oficial para esse efeito.

O problema é, como diz aqui, o estado/governos (centrais e locais dependente se em situação), estão habituados a tais serviçais, e acham normal poderem reclamar o mesmo.

Ma pa frenti ê ki ê caminho..
Pura eu disse…
Um hábito e tanto... das partes, convenhamos.
O Professor disse…
Há um site que tem tudo sobre Câmaras e Vereadores. Eu me cadastrei e recebo todos os dias notícias. O site é:
www.vereadores.net vale conferir.
Amílcar Tavares disse…
Assino, este post, por baixo!
Setembro disse…
Ainda bem!
Anónimo disse…
Excelente, Margarida Cabo Verde precisa cada vez mais de jornalistas com as tuas qualidades. Estou contigo.

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