Avançar para o conteúdo principal

O negro, a história (o cabo-verdiano)

cabo-verdiana












Há duas semanas trouxe para aqui a visão rácica do crítico literário Pires Laranjeira trazida a lume num artigo denominado “O Stock negro na Claridade”. Por uma questão de interesse, que gostaria de compartilhar com todos, resolvi publicar a visão síntese do sociólogo e historiador António Correia e Silva sobre esta questão. Uma outra vertente analítica que nos recorda um bocado a narrativa de Teixeira de Sousa que eventualmente, por caminhos diferentes, deixou laivos disso mesmo no seu livro "Ilhéu de Contenda".

Gostamos de ser cabo-verdianos”. Não existe neste arquipélago a reinvenção de uma “beleza negra combativa e reactiva”. Isto porque o projecto branco foi derrubado em Cabo Verde. É certo que houve ensaios para reerguer esse projecto: a chegada dos degredados da colónia ao longo do século XVIII, a vinda nos anos 40 dos militares da metrópole para a promoção de casamentos brancos, mas essas tentativas não vingaram.
A elite resiste, sempre: são curiosos os dizeres dos testamentos das famílias brancas, principalmente na Ilha do Fogo, que sentenciavam que “Se casar com homem preto, o que dela não espero, será deserdada”. A resistência à mestiçagem nunca ganha terreno, porque as bases sociais do racismo foram desmontadas (nas representações estéticas e na linguagem), existindo hoje, apenas resquícios de tensões rácicas nestas ilhas.

Numa sociedade escravocrata, segundo Correia e Silva, é de se esperar haver uma negação à condição herdada do esclavagismo, (da humilhação e da diminuição humana a que foi votado o negro). Mas por cá, escasseiam-se os brancos, e a mestiçagem é irreversível, em todos os domínios.
São recorrentes estudos e posições que tentam aproximar o quadro rácico do Brasil ao de Cabo Verde. Situações muito diferentes, afiança Correia e Silva.

Nessa mesma linha (ainda que sob outras premissas) o estudioso tem em curso uma tese que pretende demonstrar o surgimento em Cabo Verde de uma nova África, e nunca um prolongamento da Europa, e muito menos aquela ideia descentrada de "país da morabeza".

fotu: a semana

Comentários

Mensagens populares deste blogue

CODÉ DI DONA: 1940-2010

Codé di Dona tem um perfil de funaná que cativou a atenção da nação” disse Eutrópio Lima da Cruz em entrevista à TCV.

Todos são unânimes em considerar Codé di Dona (1940-2010) como uma das figuras incontornáveis do funaná, género musical outrora confinada à Ilha de Santiago, hoje com ressonância universal.

Compositor de músicas definitivas do repertório nacional, como “Febri Funaná”, “Fome 47”, “Praia Maria”, “Yota Barela”, “Rufon Baré” e “Pomba”, entre dezenas de outras, Codé di Dona emocionou os cabo-verdianos, ao longo de uma meteórica vida artística, com a singularidade das suas melodias e a poesia das suas letras. A composição “Fome 47”, só para citar um exemplo paradigmático, constitui uma imensa referência sobre uma das realidades históricas mais marcantes de Cabo Verde: a estiagem, a fome e a emigração para São Tomé e Príncipe. A imagem da partida do navio “Ana Mafalda” faz parte do imaginário colectivo dos cabo-verdianos, tanto que essa música é entoada, como um hino, pelos se…

HISTÓRIA, Dire Straits... uma dentre tantas outras da minha banda preferida

Com uma harmonia perfeita de guitarra, teclados, bateria e músicas originais o DIRE STRAITS coloca o seu nome na história como uma das maiores bandas de todos os tempos.
Tudo começa quando os irmão Mark e David Knopfler resolvem formar uma banda de rock um tanto diferente das demais (pois estavam na época da plenitude do punk rock). Até então MK já tinha tido outras experiências em outras bandas (na época de formação da banda MK era um professor de inglês) e DK era funcionario público. David(guitarra), Mark(guitarra e vocal), John Illsley(baixo) e Pick Withers(bateria) que se integraram ao grupo, formaram uma banda chamada Cafe Racers que mais tarde passou a se chamar DIRE STRAITS. Juntos fizeram uma demo que incluia um, até então, futuro sucesso do grupo "Sultans of Swing", mais tarde assinaram com o selo Vertigo e conheceram Ed Bicknell que seria o empresária da banda brevemente. Logo lançaram em 1977 o seu primeiro álbum que intulava-se com o nome do grande sucesso da ban…

Poema de amanhã

(...) - Mamãe!

Sonho que, um dia,
Estas leiras de terra que se estendem,
Quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
Filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
Serão nossas. (...) ilustração: Mãe preta de Lasar Segall, 1930 poema: Poema de amanhã de António Nunes, 1945