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Arménio, o indomável Conde

Conde














Arménio Vieira recebeu, ontem, ao fim do dia, a notícia, vinda do Brasil, de que havia sido consagrado com o Prémio Camões. Não dormiu a noite toda, os telefonemas de amigos não permitiram. Cedo, hoje, naturalmente teríamos que fazer a entrevista de praxi para o telejornal. O curioso é que, de repente, vários jornalistas circulavam entre a casa do Conde e o Café Sofia numa informalidade e sentido de ocasião que vale a pena ser registada. E lá foram acontecendo as entrevistas num tom absolutamente comedido e descontraido característico do poeta. Arménio Vieira contava com o Prémio Camões, mas não tão cedo. Calcula que o seu lado de poeta tenha pesado mais do que o de prosador na ora da decisão, até porque se considera um poeta, sobretudo. O telefone não parava de tocar, jornalistas, amigos, poetas, primeiro-ministro…
Facto curioso de um jovem de nossa idade (a mesma de Cristo, já agora) querendo saber porque razão estão tantos jornalistas à volta do senhor. Recebeu o Prémio Camões, o maior reconhecimento à literatura em língua portuguesa, respondemos.

A notícia do Prémio Camões, foi recebida em Cabo Verde, com pompa e circunstância e já provocou o pronunciamento das autoridades políticas e culturais. Para o Ministro da Cultura o galardão será uma lufada de ar fresco para a Literatura cabo-verdiana que tem sido “assombrada”, digamos, pela música, é o pensamento do ministro. Para o primeiro-ministro, o Prémio Camões ao “eleito do Sol” engrandece Cabo Verde.

Claridoso desassumido?

Arménio Vieira, que tem uma obra já referenciada na história literária das ilhas, mais pela qualidade que pela quantidade, pertenceu a geração dos escritores nacionalistas, onde pontificavam nomes com Mário Fonseca, Onésimo Silveira, Oswaldo Osório e Ovídio Martins.
Com a Independência Nacional, Arménio Vieira surge com uma escrita mais universalista e de cariz existencialista, sendo um dos arautos da nova poética de Cabo Verde, definida recentemente, pela analista literária Fátima Fernandes, como a de Claridade Desassumida.

Na sua bibliografia constam, além do “Eleito do Sol” e do “No Inferno”, ambos em prosa, dois marcantes livros de poesia, nomeadamente “Poemas” e “Mitografias”.

Conhecido em meios intelectuais como “Conde de Silvenius” em virtude das metáforas sobre a lenda dos vampiros e seus significados, Arménio Vieira é uma figura sui generis, tanto em estilo de vido, como em sua trajectória existencial.

Preso pela Pide, em 1961, com o primeiro contingente dos presos políticos cabo-verdianos, Arménio Vieira continua até hoje um cidadão irreverente e indomável. Sobretudo, no referente à postura estética presente na sua poética que ora deslumbra a língua de Camões, o seu grande patrono.

nota pura: até que enfin temos mais fotos do Conde na Internet: aqui

Comentários

da caps disse…
E não é que o homem tem pinta?!

Tabaco na mão, sentado num banco de praça, camisa aberta.. um sorriso relax

E pergunto-me: O que é que uma figura como essa tema ver com a 'inteclectualidade criola'?!
Não se veste de branco..
Não escreve arrojados artigos nos jornais..
Não tem um blog.. É possível um escritor deste século ser galardoado, sem que se auto-promova de isto e aquilo?!

Eu cá diria, os verdadeiros génios, artistas, são assim.

Redundante com o prémio que lhe foi atribuído, ele ganhou o prémio, não porque é Cabo-verdiano, ou de Santiago, do platô, ou por ser Conde.
Eu acho que é simplesmente por ele ser bom..

E os parabéns vão para quem lhe reconheceu a obra. O escritor, este está de parabéns desde o dia em que a concebeu.
Anónimo disse…
Gostei da guinada do teu comentário...
volta sempre!


MF
da caps disse…
Não te preocupes,
sou visitante assíduo :)

Vou continuar a deixar marca da minha presença sempre que tenha algumas observações para complementar, mas tentando sempre embrulha-lha num tom de poesia, de forma a estar em linha com o ambiente deste espaço.

Um xi
:)
Pura eu disse…
Nice guy :)
Anónimo disse…
da Caps, falta o (s)no comment anterior.

aprecias poesia Arménio Vieira, Beto Dias, etc. (the perfect reader)e uma questão de margens, já agora...

MF

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