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Quem conhece Arménio Vieira...

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A cidade da Praia e Cabo Verde continuam sob o efeito do Prémio Camões 2009. Para muitos, tudo ainda parece um sonho. Há dias foi a tertúlia em homenagem merecida, na pracinha do Café Sofia, local habitual do Conde de Silvenius, aliás Arménio Vieira. Ali, entre uma bica e uma cavaqueira, joga-se xadrez e vê-se o frenesim do Plateau, que já se afirma cosmopolita. Mas não pretendo falar dessa noite que foi maravilhosa, porque conseguiu reunir gente, na sua maioria, amiga e que conhece e aprecia a escrita criativa de Arménio Vieira. Se alguém duvida que vá aos canhenhos ou se remeta aos pergaminhos...

O que me traz a estas linhas é o ventilado, mas redondamente alegado, desconhecimento da obra de Arménio Vieira por parte das pessoas. E que o poeta vinha sendo marginalizado, senão mesmo ostracisado, pelo establishment, algo que conota a alguma falácia.

Faço minhas as palavras de Jorge Carlos Fonseca, quando este remata (em entrevista ainda não publicada) que “quem conhece a literatura cabo-verdiana conhece indubitavelmente Arménio Vieira”. Algo bem diferente de dizer (como se intenta) que AV tem sido marginalizado, posto de lado ou mesmo depreciado.

Eleito por esta sociedade antes, muito antes do Prémio Camões, Arménio Vieira tem sido um dos poetas mais celebrados entre os seus pares e os apreciadores de boa poesia e da boa prosa. Os que conhecem o Poeta noutros contextos, diferentes destes celebratórios, sabem que, para os novíssimos da literatura cabo-verdiana, ele tem sido um referencial e sempre o rodearam com admiração, corte que raros, raríssimos, têm merecido.

Aqueles que – sendo doutos e sapientes, em capas de funcionários, médicos, juristas, bloguistas e jornalistas, entre outros - desconheciam AV, serão os mesmos que também desconhecem a cerne de Eugénio Tavares e Pedro Cardoso; tão pouco se imaginam no cais de Jorge Barbosa; não passeiam pela poética indomável de Mário Fonseca, Oswaldo Osório e Jorge Carlos Fonseca; nem ousam voar pelo existencialismo de Valentinous Velhinho, Filinto Elisio, Mário Lúcio Sousa, José Luíz Tavares ou José Luis Hopffer Almada. Por isso, a generalização aqui não procede. É falaciosa até…

Volto a Jorge Carlos Fonseca quando este diz que AV é o único que leva uma verdadeira vida de poeta. Distante da política, do escritório, boémio, livre, sem fato e gravata. Irreverente, inquieto e indomável… per natura. E é nessa condição que também tem merecido a admiração espontânea dos que o rodeiam. O disparate que o reconhecimento do Prémio Camões 2009 virá repor as coisas não cola e passa ao largo. Pela voz de Fátima Fernandes, ouvimos que Arménio Vieira vem sendo estudado e apreciado em vários quadrantes nacionais, inclusive académicos.

Repito: quem conhece a literatura cabo-verdiana conhece Arménio Vieira. A edição, a promoção da leitura, a merecer um olhar mais conseqüente e crítico, é uma questão que atinge a todos os autores, de resto.

Comentários

Edy disse…
aqueles que reclamam o suposto oportunismo das autoridades e não só,não tiveram o cuidado de mostrar que,eles sim,são expert de sempre da obra do autor...deverias colocar uma interrogação no título do post
Pura eu disse…
Edy, na verdade não pergunto nada... o título induz à leitura!

e nesse particular não há oportunismos ... Manuel Veiga, José Maria Neves... essas autoridades (se quiseres) que estão a ser atacadas, desde sempre celebraram e conhecem a fundo a obra de AV.

resta saber se alguns dos indignados algum dia se deram ao trabalho de ler o Poeta.
João Branco disse…
Margarida, o que fez este ministério da cultura para que a obra de Arménio fosse mais conhecida (e reconhecida)? O quê? Editou as suas obras? Não. Pressionou o Ministério de Educação para que esta fosse mais estudada e entrasse nos currículos? Escolheu o Arménio Vieira nas inúmeras viagens nas feiras do livro? Sejamos sérios. O texto do MC lido na tertúlia foi um texto que escreveu há mais de 10 anos. Não havia mais nada de novo na obra que justificasse uma actualização, por pequena que fosse? Volto a perguntar, já que estás tão bem informada, o que fez ESTE MC para que a obra de AV fosse efectivamente conhecida pelos cabo-verdianos.

O último livro de poesia, que por acaso é o preferido do autor, Mitografias, foi editado pela Ilhéu Editora, que é privada e que apenas fez 300 exemplares, porque não valia a pena fazer mais, já que não vende. Se virmos alguma da poesia editada pelo IBNL, já dá para tirar algumas conclusões sobre o cuidado e a atenção que tem sido dada à obra de AV pelos organismos estatais.

Deve ser porque conhecem tão a fundo, tão a fundo a obra do poeta que não se lhes conhece uma única iniciativa própria para que os outros a possam também conhecer!

Além disso, considero de muito mau gosto o teu comentário final. Mas pronto, fica sempre bem dar uma estocada nos poucos que de quando em quando tem a coragem de dar a cara e criticar de forma aberta e longe do anonimato o que pensam de certas coisas que andam acontecendo. Admira-me que não tenhas utilizado o termo tão em voga agora de "pseudo-intelectuais".

Fka dret.
Pura eu disse…
João Branco, a tua reacção é no mínimo estranha, mas digamos que não surpreende. Para começar, devias reler o texto e desabrir as situações.

Se reparares eu termino reafirmando as deficiências neste campo que extensamente aqui enumeras, dizendo que é um problema que afecta a produção literária em CV. Não existe uma sistematização do conjunto da produção literária (edição e reedições, leitura crítica, promoção dentro e fora) não existe! O MC e o da Educação parecem não se entender muito entre eles...Mas este problema, insisto, afecta todos os autores.

Também outros autores já publicaram apenas 500 exemplares, porque poesia “não vale a pena”, “não é lida”… (seja pelo INBL ou por uma Editora privada)
Bem diferente de dizer que AV não é conhecido, ostracisado, marginalizado, etc. …

E Manuel Veiga (e não se trata aqui do Ministro e a da sua política) conhece, sim, a obra de Arménio Vieira… estou bem informada sobre este facto.

Eu basicamente questionei no meu texto esse alegado desconhecimento que se propalou acerca da obra de AV, como que se de um caso isolado se tratasse...Não pretendo vangloriar, nem bombardear o MC... não entro em brigas alheias..

Acho que não fazes parte da lista dos indignados que desconhecem a obra de AV. Porque reages com entrelinhas às “estocadas”. Esses poucos que têm a coragem de dar a cara podem fazê-lo por conta própria...
João Branco disse…
Oh Margarida! Pensei que a qualidade da política pública para a cultura deste país fosse, sim, uma luta tua, e não uma "briga alheia". Engano meu!

E se tens conhecimento que o MV conhecia e bem a obra do poeta agora premiado, esta homenagem é ainda mais oportunista do que se não conhecesse nada. Porque conhecendo, deveria saber, como certamente sabe, que o tipo de políticas que são necessárias para que este e outros autores sejam conhecidos e estudados, não se podem esgotar em homenagens fúteis e esfumantes, desprovidas de qualquer contexto ou de objectivos concretos. É esta casuística que me incomoda, este reagir ao sabor dos acontecimentos, como se não houvesse nenhum rumo, o que é sempre péssimo tratando-se de um decisor público.

Não vejas isto como algo pessoal, tive as minhas discordâncias com outros MC's antes do Veiga. Mas compreende-se porque é que mudando-se os ministros (e até os governos) tudo continue na mesma: é que tudo continua na mesma, mesmo! São os mesmos actores, sempre!

Mas isso são contas de outro rosário!

Abraço
Pura eu disse…
Pois é, João, essa luta por uma política cultural de qualidade que elege Manuel Veiga como o alvo a bater não é minha... Para mim, este é um problema que atravessou os vários governos em CV, e deve ser abordado de forma menos pessoalizada.
Voltando ao texto, eu apenas fiz referência à homenagem (que acabou por ser dos amigos de AV), o teor do meu texto era outro. Mas se queres mesmo saber, não vejo exagero ou nonsense algum nos actos do MC... Foi Prémio Camões e daqui a poucos dias será Cidade Velha, Património mundial... não celebrar é que soa estranho.
Djom disse…
È caso para perguntar: qual seria a reacção se o MC não comemorasse o prémio atribuido ao autor?
João Branco disse…
Margarida, estamos num circulo fechado. já vi. O homem é ministro. Que assuma as suas responsabilidades. Se as coisas não estão bem, ou se consideramos que elas não estão bem, não é ao titular da pasta que temos que pedir contas? Agora, se achas que está tudo um mar de rosas neste ministério do MV, acredita, invejo-te a perspectiva. E já ti disse, a minha luta não é, nem nunca foi, pessoal. Basta ler o que tenho escrito durante todos estes meses sobre política cultural para saber isso.

Bom fim-de-semana

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