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Ilhéu de Santa Maria: empreendimento "world class" deve ter dimensão cultural

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O Ilhéu de Santa Maria – mais conhecido por "Djéu" -, vai receber, este ano, investimentos turísticos chineses, que incluem hotéis, casinos e outras infra-estruturas, num montante superior a 50 milhões de dólares. Este colosso turístico ostentar-se-á vis-a-vis à praia da Gamboa, onde também se planeia o futuro Distrito Financeiro da Praia. Os investimentos serão do grupo chinês de David Chaw, um dos grandes magnatas do jogo, com a maioria dos negócios instalados na Ásia, concretamente em Hong Kong, Macau e Singapura.
Se, do ponto de vista económico mais puro, o interesse de David Chaw deve ser encarado como extremamente positivo, é de se lembrar que, do ponto de vista cultural, paisagístico e ambiental, o projecto exigiria um pouco mais de socialização a nível da opinião pública cabo-verdiana, da edilidade da Praia e dos vários segmentos políticos de Cabo Verde.
Recorde-se que o Ilhéu de Santa Maria foi, durante o século XIX, um porto carvoeiro, na tentativa de se instalar companhias carvoeiras na cidade da Praia, criando uma concorrência (a partir da ideia da complementaridade) ao Porto Grande do Mindelo. Igualmente o Ilhéu se inscreve no imaginário colectivo ligado a alguns ciclos de fome, servindo, por diversos momentos, como espaço de asilo aos indigentes e famintos da cidade. Só por isso, um empreendimento de tal magnitude teria de considerar, em primeira abordagem e a título de sugestão, a edificação de um grande memorial.
Outra componente a se ter em conta seria a paisagística. A configuração da cidade da Praia, sobretudo o recôncavo que faz a baía, tem no Ilhéu de Santa Maria o seu ex-libris natural.
O interesse de David Chaw pelo nosso país, em geral, e pelo Ilhéu de Santa Maria, em particular, parece trazer "outros e mais investimentos”, o que, obviamente, saudamos. Outrossim, não somos daqueles radicais que associam a indústria do jogo apenas à prática de chantagem, do narcotráfico e da prostituição. No âmbito das contrapartidas, sabe-se que o investimento em questão garantirá significativos impulsos financeiros ao sector da Cultura, o que de si é uma valência. Assim, a deslocação do magnata chinês a Cabo Verde, prevista para o mês de Abril, é bem-vinda e merece o apoio de todos os operadores, inclusive os culturais. Todavia, será ocasião oportuna para se demandar a inclusão das preocupações culturais, paisagísticas e ambientais na reformatação do projecto, pois estas não têm preço e transcendem o mais pesado dos investimentos.

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